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Países bálticos querem escapar de influência russa

27 de abril de 2004 14h04

Os blocos de apartamentos de concreto nos arredores de Tallin, Riga e Vilnius ¿ capitais da Estônia, Letônia e Lituânia - ainda proporcionam uma lembrança persistente do período soviético. Mas, com a entrada dos países bálticos na União Européia no dia 1º de maio, eles esperam poder deixar esse passado definitivamente para trás.

"Estônia, Lituânia e Letônia estão deixando a esfera de influência da Rússia e entrando no mundo ocidental", afirma o diretor do Instituto Letão para Assuntos Internacionais, Atis Lejins. "Nós somos parte do Ocidente agora, e a Rússia perdeu o seu controle sobre nós."

Os países bálticos declararam independência da União Soviética em 1991, depois de quase 50 anos de ocupação. Nos treze anos desde a independência, eles conseguiram vencer com sucesso a maior parte das etapas da transição econômica do comunismo ao capitalismo.

Os três países apresentam taxas de crescimento significativas ¿ média de 6% ao ano - e já fazem a maior parte de seus negócios com a União Européia. Na Estônia, por exemplo, 68% das exportações vão para os países do bloco. Mas, apesar dos números, o fantasma deixado pelo período da ocupação soviética ainda assusta, e é por isso que o "retorno" à Europa tem um simbolismo tão grande.

Na Estônia e na Letônia, por exemplo, onde as pessoas de origem russa ou que falam russo representam cerca de 30% da população, a integração entre os diferentes grupos étnicos continua a ser o principal desafio.

Barganha
Nesses países, existe principalmente a percepção de que a Rússia tenta usar a questão das minorias para exercer pressão sobre eles. "Nós podemos dizer que a Rússia, por séculos, esteve interessada em subordinar os países bálticos", diz o presidente da Estônia, Arnold Rüutel. "Isso se manifesta, por exemplo, nas pressões para fazer com que a língua russa seja declarada oficial."

A postura da Rússia em relação à entrada dos países bálticos na União Européia esteve, na opinião de Atis Lejins, refletida na cobertura dos jornais em russo antes do referendo que decidiu pela adesão ao bloco. "Isso ficou claro no referendo do ano passado, em setembro, quando 80% dos russos votaram contra e 80% dos letões votaram a favor da entrada no bloco." Para o diretor do Instituto Estoniano de Política Exterior, Andres Kasekamp, a Rússia sempre usou a questão das minorias na Estônia e na Letônia em qualquer tipo de barganha.

Na opinião dele, a tensão registrada nos últimos meses se deve ao fato de que a Rússia só recentemente acordou para o fato de que esses países vão sair definitivamente de sua área de influência. "A reação da Rússia fez mais parte de uma tática de barganha, para tentar conseguir concessões da União Européia e da Otan antes de esses países se tornarem membros", afirma Kasekamp.

Espionagem
Mas o problema das minorias russas é apenas um dos componentes nessa relação complicada entre os países bálticos e a Rússia. Tanto na Estônia, como na Letônia e na Lituânia, existe a percepção de que a Rússia ainda tenta exercer grande influência nos assuntos econômicos e políticos da região.

Em fevereiro, por exemplo, a Lituânia expulsou três diplomatas russos acusados de espionagem e de tentar influenciar o processo de privatização e a votação do impeachment do então presidente Rolandas Paksas.

Paksas, que acabou tendo de deixar o cargo no início de abril, foi acusado de ligações com a máfia russa e de ter violado a Constituição ao garantir cidadania lituana ao empresário russo Yuri Borisov, principal patrocinador de sua campanha eleitoral. "Os russos gostariam de ter mais influência na economia e na política", afirma a parlamentar lituana Raza Jukneviciene, do partidor conservador União da Pátria. "Não com tropas, para ocupar o país, como eles fizeram no passado, mas com o serviço secreto, através de influência econômica, influenciando politicamente os diferentes níveis do Estado."

Um caminho para a Rússia
Mas se por um lado a desconfiança em relação à Rússia persiste, e a União Européia é vista como uma fonte de segurança pelos povos bálticos, existe também a esperança de que a integração ao bloco e à Otan contribua para melhorar as relações com o país vizinho. "Os países bálticos tentarão melhorar a relação com a Rússia, porque eles se sentirão finalmente seguros", afirma Andres Kasekamp. "Nunca antes eles haviam pertencido a alianças tão fortes, e, uma vez que se sintam seguros, eles serão mais generosos e abertos em relação à Rússia também."

Para o jornalista russo Gennadi Gramberg, que trabalha no canal de TV público da Estônia, essa nova realidade poderá proporcionar aos países bálticos uma certa tranqüilidade. "Talvez seja hora de não ser tão desconfiado porque, antes, quando estávamos sozinhos, tudo era uma ameaça, multiplicado por emoções e tudo", diz o jornalista. "Agora eles estão sozinhos, e nós somos parte de um outro sistema que a história mostra ser melhor", afirma o jornalista.

Raimundas Lopata, diretor do Instituto de Relações Internacionais e Ciências Politicas da Lituânia, acredita que as relações entre os países bálticos e a Rússia têm o mesmo perfil que as relações entre a Rússia e os Estados Unidos ou o resto da Europa. "A Rússia precisa se adaptar psicologicamente ao que está acontecendo no mundo e principalmente nas suas fronteiras", diz Lopata. "Na minha opinião, é só uma questão de tempo. A Rússia irá se adaptar às atuais circunstâncias da política mundial."
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