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Rússia lembra 60 anos do cerco a Leningrado

27 de janeiro de 2004 16h54 atualizado às 20h41

Pessoas assistem show de laser na praça Dvortsovaya, em São Petersburgo. Foto: Reuters

Pessoas assistem show de laser na praça Dvortsovaya, em São Petersburgo
Foto: Reuters

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, compareceu hoje aos atos comemorativos do 60º aniversário da ruptura do cerco nazista de Leningrado depois de 900 dias, que custou a vida de pelo menos um milhão de seus moradores. Putin, natural de São Petersburgo (Leningrado, nos tempos da URSS) e em plena campanha de reeleição, rendeu homenagem aos defensores da cidade em Kirovsk, pequena cidade satélite da antiga capital czarista.

Nos arredores de Kirovsk, na margem oriental do rio Neva, Putin depositou uma coroa de flores no local em que, durante o cerco da Leningrado, esteve a cabeça-de-ponta do Exército Vermelho que durante dois anos impediu o avanço das tropas nazistas.

Em um discurso a veteranos, Putin disse que a Grande Guerra Patriótica, como chamam na Rússia a etapa soviética da Segunda Guerra Mundial, deu grandes exemplos de heroísmo dos soldados, como em Brest, por onde começou a invasão nazista, e em Stalingrado. "Mas a defesa de Leningrado é um caso especial, pois não só deu demonstrações de heroísmo entre os militares, mas significou uma façanha sem precedentes da população civil", disse.

O líder russo revelou que essa antiga praça de armas tem para ele um grande valor sentimental, pois "nesse palmo de terra, que era a chave de Leningrado e desempenhou um importante papel na defesa da cidade", seu pai combateu e ficou ferido gravemente. Putin disse que aquele ferimento permitiu a seu pai, internado em um hospital de Leningrado, "salvar a vida" de sua mulher e mãe do atual presidente russo, a quem "pôde alimentar graças a sua magra ração" em meio à fome que assolava a cidade.

Mas não puderam salvar seu filho primogênito: "Meu irmão mais velho, que nunca cheguei a ver, morreu na Leningrado cercada", disse, sem revelar detalhes, o chefe de Estado russo, nascido em 1952. O Exército nazista, que invadiu a União Soviética no dia 22 de junho de 1941, fechou o cerco em torno de Leningrado no dia 8 de setembro do mesmo ano e o manteve durante 900 dias e noites, até que o Exército Vermelho conseguiu rompê-lo em 27 de janeiro de 1944.

O propósito de Hitler era apagar Leningrado da face da terra, mas a cidade resistiu e sobreviveu, embora ao custo de um milhão de vidas de seus habitantes e defensores, vítimas dos bombardeios, da fome e do frio. Pegos de surpresa pela invasão nazista, os dirigentes comunistas da cidade não prepararam devidamente sua defesa e não fizeram reservas de alimentos, por isso a fome se apossou de Leningrado um mês depois de iniciado o cerco.

Com o inimigo às portas da cidade, dezenas de milhares de civis foram mobilizados para levantar fortificações e formar milícias populares, para as quais nem sequer havia armas e que eram enviadas à frente com uma média de um fuzil para trinta homens, sob o lema patriótico "A arma será conseguida em combate".

Umas 20 mil pessoas morreram na defesa da cidade e outras 10 mil morreram sob as bombas, mas foram a fome e o inverno, com temperaturas de -40ºC, que mais estragos fizeram entre os habitantes. Um relatório da inteligência nazista citado pela imprensa assinalava em fevereiro de 1942 que a média de civis mortos era de "entre dois e três mil por dia", e outro soviético confirmava em março que "morrem por dia entre 3,2 mil e 3,4 mil pessoas".

Na cidade, onde a ração de pão diária foi nos piores momentos de só 125 gramas, o impacto da fome era tão forte que muitos habitantes se viram forçados a praticar o canibalismo, segundo documentos da época ocultados pela propaganda soviética mas abertos posteriormente a historiadores. A falta de alimentos foi tão dramática que os pais não deixavam seus filhos sair sozinhos à rua por medo de serem seqüestrados por quadrilhas que depois vendiam a carne humana.

"Já comem carne humana, que conseguem no mercado", dizia um relatório secreto enviado no dia 23 de fevereiro de 1942 ao líder comunista de Leningrado, Andrei Zhdanov, e citado hoje pelo diário Izvestia.

As autoridades da cidade foram obrigadas a criar toda uma divisão especial para combater o canibalismo, com um saldo de 600 condenados em fevereiro de 1942 e mais de mil em março, segundo documentos reproduzidos pelo Izvestia. Outros cálculos realizados por historiadores graças a documentos secretos da época indicam que até 2,3 milhões de habitantes foram sepultadas nas 146 fossas comuns cavadas durante o bloqueio nos quatro cemitérios de Leningrado.

EFE
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  1. Menina passa sob outdoor dedicado aos 60 anos do cerco a Leningrado  (nome de São Petersburgo durante o regime comunista) na praça Dvortsovaya   Foto: Reuters

    Menina passa sob outdoor dedicado aos 60 anos do cerco a Leningrado (nome de São Petersburgo durante o regime comunista) na praça Dvortsovaya

    Reuters
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  2. Veterano da II guerra deixa flores no memorial Piskarevskoye em São Petersburgo. Os nazistas cercaram a cidade por 872 dias durante a 2ª Guerra Mundial, matando cerca de 500 mil pessoas  Foto: Reuters

    Veterano da II guerra deixa flores no memorial Piskarevskoye em São Petersburgo. Os nazistas cercaram a cidade por 872 dias durante a 2ª Guerra Mundial, matando cerca de 500 mil pessoas

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    Foto: Reuters

  3. População assiste show de laser na coluna Alexandriyskaya da praça Dvortsovaya, no centro de São Petersburgo, em comemoração ao fim do cerco à cidade durante a II Guerra Mundial, há exatos 60 anos  Foto: AP

    População assiste show de laser na coluna Alexandriyskaya da praça Dvortsovaya, no centro de São Petersburgo, em comemoração ao fim do cerco à cidade durante a II Guerra Mundial, há exatos 60 anos

    Foto: AP

  4. Pessoas assistem show de laser na praça Dvortsovaya, em São Petersburgo  Foto: Reuters

    Pessoas assistem show de laser na praça Dvortsovaya, em São Petersburgo

    Reuters
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  5. Aluno de escola militar deposita coroa de flores em um buraco no gelo do Rio Fontanka, uma das fontes de água da população durante o cerco dos nazistas a Leningrado, durante a II Guerra Mundial  Foto: AP

    Aluno de escola militar deposita coroa de flores em um buraco no gelo do Rio Fontanka, uma das fontes de água da população durante o cerco dos nazistas a Leningrado, durante a II Guerra Mundial

    Foto: AP

  6. Sobreviventes do cerco à cidade durante a 2ª Guerra choram em um monumento em homenagem às vítimas  Foto: AP

    Sobreviventes do cerco à cidade durante a 2ª Guerra choram em um monumento em homenagem às vítimas

    Foto: AP

  7. Guardas de honra participam da celebração do fim do cerco a Leningrado (nome de São Petersburgo durante o regime comunista), que se comemora nesta terça-feira  Foto: AP

    Guardas de honra participam da celebração do fim do cerco a Leningrado (nome de São Petersburgo durante o regime comunista), que se comemora nesta terça-feira

    Foto: AP

  8. Foto de arquivo mostra cidadãos de Leningrado retirando água de um duto quebrado durante o cerco à cidade  Foto: Reuters

    Foto de arquivo mostra cidadãos de Leningrado retirando água de um duto quebrado durante o cerco à cidade

    Reuters
    Foto: Reuters

  9. Foto de arquivo de vítimas do cerco a São Petersburgo (antiga Leningrado) em um hospital da cidade  Foto: AP

    Foto de arquivo de vítimas do cerco a São Petersburgo (antiga Leningrado) em um hospital da cidade

    Foto: AP

  10. Presidente Vladimir Putin deposita flores em monumento.  Foto: Reuters

    Presidente Vladimir Putin deposita flores em monumento.

    Reuters
    Foto: Reuters

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