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Apresentadora transexual desafia costumes na Índia

24 de fevereiro de 2008 11h50

Rose foi criada como menino com o nome de Ramesh Venkatesan. Foto: The New York Times

Rose foi criada como menino com o nome de Ramesh Venkatesan
Foto: The New York Times

A mais nova apresentadora de TV da Índia, definida em publicidade como a Oprah Winfrey do país, ergueu o sari diante do estilista, à procura de aprovação. "Muito feminino. Você parece linda, uma deusa", ele disse, sorrindo de modo reconfortante enquanto usava jasmins frescos para enfeitar o penteado da cliente. "O sari é a vestimenta mais lisonjeira", acrescentou, enquanto retocava a maquiagem da apresentadora nos minutos anteriores ao início do programa. "Ele disfarça ombros masculinos, distrai a atenção do pescoço masculino".

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Vestir um sari é um processo complexo até mesmo para as pessoas mais experientes, e especialmente difícil para Rose, criada como menino, sob o nome de Ramesh Venkatesan. Sua mãe jamais a ensinou como fazê-lo, e se a recusa a vê-la vestida desse jeito. Ainda assim, o resultado era irretocável. Quando entrar no ar pela rede de TV Vijay, no Estado indiano de Tamil Nadu, este mês, "Ippadiku Rose" ("Sua, Rose") pode atrair até 64 milhões de telespectadores e certamente causará sensação, ao colocar no ar a primeira apresentadora transgênero da TV indiana.

O diretor do programa, Anthony Thirunelveli, disse que o programa de entrevistas de meia hora de duração foi concebido como atração de interesse familiar mas que trataria de questões de sexo e sexualidade, confrontando "os assuntos sempre silenciados e varridos para baixo do tapete". Os primeiros nove episódios tratarão, entre outros temas, de divórcio, sexo e relacionamentos entre os funcionários das centrais de assistência telefônica indianas, quase todos jovens, bem como de assédio sexual.

A principal atração será Rose, que não usa sobrenome como parte de sua persona artística. Aos 28 anos, formada nos Estados Unidos em engenharia biomédica e design de sites, ela começou a usar roupas femininas em tempo integral quatro anos atrás, e continua a não encontrar aceitação de parte de sua família e da sociedade em geral. Se não servir para mais nada, o programa talvez sirva para mostrar ao público as dificuldades da vida dos transexuais indianos, conhecidos como hijras. Conhecidos como o terceiro sexo, a maioria deles nasceram homens, mas se vêem como mulheres.

Os hijras têm papel positivo na mitologia indiana, mas a sociedade moderna tende a ser menos tolerante. A maioria deles é rejeitada pelas famílias. Muitos encontram dificuldade para obter empregos convencionais, e em lugar disso se tornam mendigos ou profissionais do sexo. "Os transgêneros são vistos como imorais e malignos na Índia", disse Rose, enquanto folheava calmamente o roteiro de seu primeiro programa ¿uma entrevista com uma prostituta sobre a autobiografia que esta acaba de publicar. "Vou derrubar essa imagem sendo inteligente, articulada e mostrando que sou bem parecida com a moça da casa ao lado".

"Trata-se de um desdobramento radical", acrescenta. "Já houve transexuais em filmes indianos, mas sempre como vilões ou objeto de ridículo. Esta é a primeira vez na história da televisão indiana que uma pessoa transgênero será apresentadora".

Pradeep Milroy Peter, o diretor de programação da Vijay, um canal que transmite em idioma tâmil e é controlado por Rupert Murdoch, reconheceu que estava nervoso quanto à recepção da audiência ao programa. "Não sabemos qual será a aceitação", disse, falando alto para se fazer ouvir por sobre o ruído do trabalho dos eletricistas, carpinteiros e técnicos de iluminação, que estavam dando os retoques finais no cenário. "Estamos com os dedos cruzados. O mercado favorece os programas de entrevista, mas este é diferente. Muito experimental".

As ansiedades dele são compreensíveis em um país no qual as fronteiras da tolerância sexual mudam a cada dia, com muita incerteza e imprevisibilidade. A Fashion TV foi censurada e ficou fora do ar por algum tempo por mostrar demais o corpo dos modelos; a carreira de uma estrela de cinema estava sob ameaça depois que ela fez declarações que pareciam aprovar o sexo pré-marital; e grupos políticos extremistas adoram provocar momentos ruidosos (e muitas vezes espúrios) de indignação moral.

O canal quer provocar controvérsia, mas executivos ficaram tão impressionados com a presença de tela de Rose e sua determinação de combater o preconceito que concordaram instantaneamente em permitir que ela estrele um programa, apesar de sua falta de experiência. "As pessoas aqui não permitem que transexuais freqüentem suas casas abertamente", disse Rose, informando que se havia isolado deliberadamente de seus colegas de faculdade e vizinhos, a fim de evitar rejeição. Seus pais, de classe média, a expulsaram de casa quando ela revelou, diante de um grupo de 40 parentes reunidos para o anúncio de seu casamento arranjado com um jovem, que não se interessava por mulheres.

"Meu cabelo já era comprido, e eu fiz um tratamento a laser para eliminar barba e bigode, mas eles continuavam esperando que eu agisse como menino", diz. "O silêncio foi ensurdecedor quanto contei". Por algum tempo, ela se sustentou trabalhando em uma central de assistência telefônica, mas seu contrato não foi renovado depois que começou a se vestir de mulher. Nas movimentadas ruas de Chennai, ela sempre atrai olhares e ocasionalmente ouve insultos.

Rose conta que as atitudes não eram menos hostis em certas partes dos Estados Unidos, onde ela passou três anos estudando na Universidade Tecnológica da Louisiana. "Lá, as pessoas eram agressivamente homofóbicas", ela disse. "Os Estados Unidos são muito hipócritas quando se trata de sua postura sobre as minorias sexuais. Historicamente, a Índia era muito progressista a esse respeito até que os britânicos viessem e impusessem o senso de moralidade vitoriana, que continua a existir ainda hoje".

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

The New York Times
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