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 Fator Huckabee influencia eleições nos EUA
23 de dezembro de 2007 17h12

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Mike Huckabee faz ginástica em hotel durante campanha Foto: The New York Times

Mike Huckabee faz ginástica em hotel durante campanha
23 de dezembro de 2007
Foto: The New York Times

Mike Huckabee desceu ao saguão do Des Moines Marriott às 5h30min do dia 3 de dezembro, deixou um pacote de roupa suja no balcão e verificou que os pontos gerados pela estadia para o programa de fidelidade da cadeia de hotéis fossem creditados em sua conta. Depois, acompanhado por Janet e Sarah, sua mulher e filha, respectivamente, e pela assessora de imprensa Alice Stewart ¿ que também serve como treinadora para sua participação na maratona de Boston -, ele caminhou para a manhã escura e gélida e embarcou em um utilitário que o esperava à porta.

Huckabee, antigo governador do Arkansas, estava se sentindo animado. Uma pesquisa de opinião publicada pelo Des Moines Register mostrava que ele havia ultrapassado Mitt Romney, assumindo a liderança entre os pré-candidatos republicanos para a primária de 3 de janeiro. Sua foto estava na primeira página do USA Today do dia. E ele estava a caminho do Central College, em Pella, Iowa, para uma entrevista, em companhias de estudantes entusiásticos, que seria transmitida ao vivo pelo "Early Show" da rede de TV CBS.

O governador estava especialmente satisfeito com o endosso iminente de Tim LaHaye, autor da apocalíptica série de romances "Left Behind". (LeHaye endossou formalmente a candidatura de Huckabee na manhã seguinte). "Left Behind" é uma série imensamente popular entre os evangélicos, que adquiriram mais de 65 milhões de exemplares dos títulos que a compõem, o que faz de LaHaye um homem muito rico e um dos poucos escritores que se dedicam seriamente à filantropia.

A afabilidade e as visões econômicas e sociais populistas de Huckabee já foram interpretadas erroneamente, em diversas ocasiões, como uma versão moderada do evangelismo cristão. Na verdade, como escreveu em "Character Makes a Difference", seu livro de memórias, ele considera o liberalismo como um câncer da cristandade. Huckabee apóia integralmente os princípios defendidos pela Maioria Moral, bem como a verdade literal da Bíblia.

A caminho de Pella, ele falou sobre seu respeito por outros candidatos republicanos, como John McCain e Rudolph Giuliani. O nome do mórmon Romney passou sem menção. Perguntei a Huckabee, que se descreve como o único candidato republicano formado em teologia, se ele considerava o mormonismo como culto ou como religião. "Creio que seja uma religião", disse. "Na verdade, pouco sei a respeito".

Eu estava pronto para anotar essa resposta branda quando Huckabee me surpreendeu com uma pergunta: "Os mórmons não acreditam que Jesus e o diabo são irmãos?". Na imprevisível temporada de primárias que estamos vivendo, os avanços da campanha de Mike Huckabee no Iowa ¿ e em outros Estados - talvez representem a maior das surpresas. Iowa vinha sendo visto como vitória fácil para Romney, o antigo governador de Massachusetts que começou sua campanha no Estado há mais de um ano. A campanha de Romney tem uma vasta equipe de profissionais e verbas publicitárias imensas.

A mensagem que ele difunde flui como música de elevador em todas as rádios e TVs do Estado. Esse esforço todo teria, ao que se sabe, custado mais de US$ 7 milhões a Romney. Huckabee, de sua parte, gastou menos de US$ 400 mil no Iowa. A equipe de funcionários de sua campanha no Estado não bastaria para formar um time de futebol.

Ainda mais surpreendente é o fato de que, quando a pesquisa foi publicada, em 2 de dezembro, Huckabee não visitava o Estado há três semanas, o que equivale a três séculos, em tempo de campanha. Mas Huckabee não só estava liderando no Iowa como tinha vantagem de cinco pontos sobre Romney, por 29% a 24%, e mais de 10% de vantagem sobre qualquer dos demais pré-candidatos.

E o avanço estava se espalhando por outros Estados que não o Iowa. Em 5 de dezembro, uma pesquisa nacional Rasmussen mostrava Huckabee liderando entre os republicanos em todo o país, com 20%, 3% à frente de Giuliani, o que representaria avanço de 8% para o candidato em apenas uma semana. Outras pesquisas ainda apontavam para Giuliani na liderança, mas o Real Clear Politics, um site que veicula médias de pesquisas nacionais, estimava que Huckabee está disputando palmo a palmo o segundo posto entre os pré-candidatos do partido.

Ainda assim, a despeito desses avanços, Huckabee continua a não ter muito dinheiro ou estrutura. Sua campanha não dispõe de um diretor financeiro nacional ou redatores de discursos, e o departamento político é formado por três pessoas. Sarah Huckabee, 25, sua filha, é a "diretora nacional de campo".

Muitos estrategistas republicanos continuam em dúvida quanto às chances de Huckabee. "Ele vai levar uma sova em New Hampshire", me disse o consultor republicano Mike Murphy. "Uma campanha de primárias é como um livro, e Iowa é apenas o primeiro capítulo. Haverá outros capítulos. Os oponentes atacarão Huckabee por sua postura moderada quanto à imigração, e com acusações sobre seu governo no Arkansas, esse tipo de coisa. E em algum momento as elites republicanas começarão a imaginar se o partido quer mesmo ser representado pelo ex-governador de um pequeno Estado, um sujeito que admitidamente não acredita em Darwin".

Huckabee pode sair derrotado da disputa, mas ele já emaranhou a situação. A expectativa era de que a disputa entre os pré-candidatos republicanos se concentrasse em política externa, segurança nacional e competência no Executivo. Huckabee incluiu na discussão questões de caráter, religião e personalidade. Não importa o resultado, ele agora se tornou um líder importante no Partido Republicano, e será necessário levá-lo a sério.

Foi uma transformação notavelmente rápida. Seis semanas atrás, almocei com Huckabee no Olive Garden, um restaurante de Manhattan. Ele caminhou pela sala em tamanho anonimato que cheguei a ficar com pena. Huckabee perdeu 50 quilos nos últimos anos, e isso reforça sua confiabilidade junto aos evangélicos. Parte importante da narrativa evangélica é superar o demônio ¿ e a gula é pecado.

Huckabee pediu uma sopa e um sanduíche, sem preliminares, e logo dirigiu a conversa a questões substantivas. Mencionou três delas: cortes de impostos, financiamento à educação artística e independência energética. "Temos de chegar ao ponto em que precisaremos tão pouco do petróleo dos sauditas quanto precisamos de sua areia", disse. É uma posição comum a muitos candidatos, e foi pronunciada sem grande paixão. O preço do petróleo nos conduziu aos assuntos internacionais, que Huckabee sabe não serem um de seus pontos fortes.

Segundo ele, o próximo presidente dos Estados Unidos terá de liderar a civilização ocidental em um conflito mundial com o islamismo radical. Para um homem de suas ambições, ele não parecia muito bem informado. Perguntado em 4 de dezembro sobre a estimativa nacional de inteligência segundo a qual o Irã teria suspendido seu desenvolvimento de armas nucleares em 2003, Huckabee disse que não sabia disso, apesar de o relatório ter sido a mais importante notícia nacional, talvez mundial, das 24 horas precedentes.

Caráter cristão
O ex-governador não tem qualquer experiência militar ¿excetuado o comando da Guarda Nacional de seu Estado -, mas não considera que isso seja um problema insuperável. "Em uma situação como essa", diz, "você se cerca dos melhores conselheiros disponíveis". O tema real da campanha de Huckabee é seu caráter cristão. O slogan dele é "fé, família e liberdade" ¿ criação do próprio candidato. O ex-governador não é teocrata, mas acredita no poder da mensagem cristã, e em sua capacidade de transmiti-la.

"A liderança evangélica não via, e talvez continue não vendo, Huckabee como vencedor", disse Charles Dean, diretor da escola de administração pública da Universidade Regent. "Mas ao que parece as lideranças estão mais e mais distantes de seus seguidores".

Dunn oferece uma explicação para a resistência do movimento a Huckabee: "Ele não é um político comum. Como pastor, se ele se der bem em Iowa, vai se tornar uma figura nacional, e pode eclipsar todos os demais líderes evangélicos. E, como diz a Bíblia, a inveja é a podridão dos ossos".

Huckabee nasceu em Hope, Arkansas, filho de um bombeiro. A música o tirou da obscuridade. Ele se tornou guitarrista, aos 11 anos, e começou a apresentar um programa na rádio local aos 14. Mas sua vida nos estúdios e palcos não o afastou da igreja batista.

Em 1979, depois de quatro anos no Texas, ele voltou ao Arkansas como pastor de uma paróquia e mais tarde líder da convenção batista estadual, que tem 490 mil fiéis. Usou o posto para disputar uma cadeira no Senado contra Dale Bumpers, em 1992, e foi derrotado de maneira clamorosa. No ano seguinte, ele venceu uma eleição especial para o posto de vice-governador, e terminou assumindo em 1996 quando o então governador Jim Tucker perdeu o posto depois de uma condenação por fraude.

Huckabee completou o mandato de Tucker, e se elegeu mais duas vezes. Construiu estradas, melhorou as escolas, fez belos discursos e se comportou de maneira sempre afável. Os conservadores em termos tributários o consideram muito compassivo ¿um político sulista tradicional, sempre gastador. Mas ainda que ele tenha elevado impostos e os gastos públicos, quando deixou o governo o Estado tinha um superávit orçamentário de mais de US$ 800 milhões.

Imigração
A imigração é outra questão difícil para Huckabee, entre os potenciais eleitores republicanos. Os críticos o acusam de tolerância excessiva, por permitir que filhos de imigrantes ilegais se candidatassem a bolsas estaduais de estudos, em seu governo. Mas apesar da pressão ele não recuou de sua posição de que é errado punir crianças pelos pecados dos pais.

Se existem máculas na reputação pessoal de Huckabee, elas se relacionam à percepção de que, como é comum entre os pregadores, ele sempre se viu como dotado de direitos especiais. Em outras palavras, ele recebe muitos presentes, no total mais de 300 em seus anos de governo estadual, com valor superior a US$ 150 mil.

No começo de novembro, ele estabeleceu uma meta de pouco mais de US$ 2 milhões para sua arrecadação de fundos de campanha, e mal conseguiu cumpri-la, apesar do entusiasmo quanto à sua candidatura. "Os eleitores de Huckabee são pessoas que pagam dízimos", me disse um professor da Universidade Liberty. "Pessoas que dão 10% de seu salário a uma igreja em geral não têm dinheiro sobrando para doações políticas".

Huckabee não dispõe de muitos recursos ou militantes em New Hampshire, ou do dinheiro necessário a realizar campanhas simultâneas em mais de 20 Estados, para a chamada "super terça-feira", quando todos eles realizam primárias. Mas mesmo que suas perspectivas presidenciais sejam frustradas, ele seria um candidato natural a vice, especialmente para Giuliani, que precisa de votos evangélicos e sulistas.

Huckabee jura que não deseja o segundo posto. Mas será que o aceitaria? Como diz Murphy, o consultor republicano, "vices se tornam presidentes". Huckabee, que herdou o posto de governador do Arkansas, conhece bem esse caminho de ascensão.

Ou pode esperar uma nova chance. "Mike só tem 52 anos, bem mais novo que os demais candidatos", disse seu assessor Dick Dresner. "Pode esperar pela eleição de 2012, ou até pleitos posteriores. Com a exposição nacional que conseguiu este ano, pode ser uma força real entre os republicanos por muito tempo".

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

The New York Times Magazine
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