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Crianças africanas são acusadas de bruxaria

16 de novembro de 2007 12h17 atualizado às 13h10

Autoridades de uma cidade no norte de Angola identificaram 432 crianças de rua que, assim como Afonso Garcia, foram abandonadas ou sofreram abusos .... Foto: The New York Times

Autoridades de uma cidade no norte de Angola identificaram 432 crianças de rua que, assim como Afonso Garcia, foram abandonadas ou sofreram abusos depois de serem acusadas de bruxaria
Foto: The New York Times

Domingos Pedro só tinha 12 anos quando seu pai morreu. Ele se foi subitamente, e a causa da morte era um mistério para os médicos. Mas não para os parentes de Domingos. Eles se reuniram naquela tarde, na casa de barro em que a família de Domingos vivia, conta o menino, e o apanharam e amarraram suas pernas com uma corda.

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A corda foi suspensa da viga de 3 m de altura que sustentava o telhado da construção, e o menino foi suspenso, de cabeça para baixo, por sobre o piso de terra. Em seguida, os parentes disseram a Domingos que cortariam a corda caso ele não confessasse que assassinou o pai.

"Eles gritavam 'bruxo! Bruxo!'", lembra Domingos, com lágrimas escorrendo pelo rosto. "Havia tanta gente gritando comigo, todas ao mesmo tempo." Aterrorizado, Domingos lhes disse o que desejavam ouvir, mas isso não bastou para apaziguar os parentes.

Ferraz Bulio, o líder tradicional da região, disse que encontrou sete ou oito dos captores arrastando o menino, ainda amarrado, na direção do rio que banha a cidade, aparentemente com o objetivo de afogá-lo. Bulio intercedeu.

"Eles estavam espancando o menino, com tapas e socos", lembra Bulio. "Essa é a forma pela qual as pessoas reagem diante de alguém que seja acusado de bruxaria. E há muitos casos como esse." Bulio está certo. Em certas partes de Angola, do Congo e da República do Congo, número surpreendente de crianças terminam acusadas de bruxaria, e sofrem espancamentos, abusos e abandono.

Os defensores dos direitos das crianças estimam que milhares de crianças tenham sido acusadas de bruxaria e estejam vivendo nas ruas de Kinshasa, a capital do Congo, uma cidade arruinada, depois de terem sido expulsas de suas casas e abandonadas por suas famílias ¿ uma decisão muitas vezes motivada pelo fato de que isso torna desnecessário continuar a alimentá-las ou cuidar delas.

As autoridades de uma cidade no norte de Angola identificaram 432 crianças de rua que foram abandonadas ou sofreram abusos depois de serem acusadas de bruxaria. Um relatório do Instituto Nacional da Criança, do governo de Angola, e da Unicef, divulgado no ano passado, descrevia o número de crianças acusadas de feitiçaria no país como "imenso".

A noção de crianças feiticeiras não é novidade na região. Trata-se de uma crença comum na etnia bantu, dominante em Angola, segundo a qual os bruxos podem se comunicar com o mundo dos mortos e usurpar ou "devorar" a força vital de outras pessoas, o que causa infortúnios, doença e morte às suas vítimas.

Os bruxos adultos supostamente enfeitiçam crianças ao lhes dar comida e as forçam a retribuir o favor sacrificando um membro de suas famílias. Mas os funcionários do governo atribuem o aumento no número de crianças perseguidas à guerra ¿ que durou 27 anos em Angola, antes de se encerrar em 2002 -, e aos problemas constantes do Congo.

Os conflitos na região deixaram muitos órfãos, e fizeram com que muitas famílias, embora intactas, enfrentem dificuldades para se sustentar. "A situação das crianças feiticeiras surgiu quando os pais se tornaram incapazes de cuidar de suas famílias", diz Ana Silva, encarregada dos serviços de proteção à criança no serviço nacional da infância angolano.

"Por isso, eles começam a procurar qualquer justificativa para expulsar as crianças da família." O fenômeno gerado pela guerra, diz Silva, acompanhou os migrantes pobres angolanos das províncias de Uige e Zaire, no norte do país, às favelas que ocupam boa parte da capital, Luanda, uma cidade que atravessa um período de rápida expansão.

Dois casos recentes horrorizaram os funcionários locais do governo. Em junho, conta Silva, uma mãe angolana cegou sua filha de 14 anos com alvejante, para tentar livrar a menina de suas visões malignas. Em agosto, um pai injetou ácido de bateria no estômago de seu filho de 12 anos, por medo de que o menino fosse bruxo.

O governo angolano desde 2000 vem conduzindo uma campanha para negar as lendas quanto às crianças feiticeiras, disse Silva, mas o progresso quanto a isso vem sendo lento. "Nós não temos como mudar a crença de que bruxas existem", ela afirmou.

"Até mesmo os trabalhadores de organizações assistenciais acreditam que bruxas existem", ela acrescentou. Por isso, o instituto para o qual ela trabalha está tentando ensinar as pessoas que ocupam cargos oficiais, de policiais a professores, passando por líderes religiosos, que a violência contra a criança jamais é justificada.

A cidade angolana de Mbanza Congo, cerca de 80 km ao sul da fronteira entre o país e o Congo, serve como exemplo nacional. Depois que uma criança acusada de bruxaria foi morta a facadas, em 2000, funcionários da província e da organização assistencial Save the Children, que atende a crianças em todo o mundo, recolheram 432 crianças de rua e promoveram a reunião de 380 delas com os seus familiares, de acordo com o relatório sobre bruxaria.

Onde igrejas fundamentalistas foram fechadas devido a denúncias de abusos contra crianças e exploração do trabalho infantil. Oito pastores congoleses foram deportados de Angola. Aldeias formaram comitês para fiscalizar o respeito aos direitos das crianças.

As autoridades dizem que o número de crianças vítimas de abusos ou relegadas a viver nas ruas caiu drasticamente. Uige, cerca de 160 km ao sul de Mbanza Congo, é outra história. Cercada por luxuriantes colinas verdes, a cidade é um aglomerado de bairros formados por casas de barro, concentrados em tornos de lojas cujas fachadas de cimento ostentam muitas marcas de disparos.

Nessa região, diz o bispo Emilio Sumbelelo, da Igreja Católica de São José, a perseguição às crianças está em ascensão. "Trata-se de ocorrência muito, muito comum nas aldeias", ele disse. "Sabemos que algumas crianças foram mortas."

A igreja dele opera o único abrigo da aldeia para as crianças que são vítimas de perseguições como supostas bruxas, em um espaço pouco maior que uma garagem para três carros. Trinta e dois meninos, entre os quais Domingos, dormem em beliches colocados a pouco mais de um palmo de distância um do outro, com as poucas roupas de que eles dispõem guardadas em caixas de papelão abrigadas por sob as camas.

Não existe um abrigo para meninas. Desde julho, todas as crianças que chegam ao abrigo procurando espaço tiveram de ser rejeitadas. "Chegaram mais crianças procurando proteção, mas infelizmente não dispomos de mais espaço", disse o bispo. "Até agora, ainda não descobrimos uma maneira especial de combater esse problema".

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

The New York Times
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