Apenas alguns dias antes da data prevista para uma grande reformulação de sua liderança, os líderes do Partido Comunista chinês continuam a enfrentar um impasse quanto à seleção dos membros do Comitê Permanente do Politburo, e à escolha do futuro sucessor do presidente Hu Jintao como líder supremo da China, dentro de cinco anos, dizem representantes do partido e observadores políticos.
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A incerteza contribuiu para um clima político tenso em Pequim, onde as preocupações sobre o superaquecimento econômico e os rumores sobre ação militar para impedir que Taiwan se declare juridicamente independente complicaram ainda mais o já delicado processo interno de sucessão do partido.
O Partido Comunista planeja convocar um congresso em 15 de outubro a fim de ratificar a chapa de líderes que servirão sob o comando de Hu até 2012. Mas representantes do partido dizem Hu e seu predecessor, o ainda poderoso Jiang Zemin, não chegaram até agora a um consenso sobre a escalação dos líderes.
Entre as questões mais significativas que resta a responder está determinar a capacidade de Hu para formar uma equipe formada por pessoas cujo poder dependa essencialmente dele, e não de Jiang e outros luminares da geração anterior do partido.
A elite do partido também fracassou em cerrar fileiras por trás de um líder mais jovem que possa suceder Hu ao final do segundo mandato deste, em 2012. Caso isso não mude, a política chinesa pode se tornar mais instável nos próximos anos, com a formação de grupos de interesse em torno dos candidatos rivais ao posto número um.
As negociações políticas já vêm colorindo quase tudo que os líderes chineses têm feito e dito, nas semanas que antecedem o congresso.
Importantes líderes lançaram novos alertas de que a China pode tomar medidas militares caso Chen Shui-bian, o presidente de Taiwan, coloque em execução de seu plano de lançar em junho um referendo que determinaria se Taiwan deve se candidatar a um assento independente nas Nações Unidas. Alguns líderes chineses consideram que essa seja uma tentativa camuflada de romper os últimos elos formais entre Taiwan e a China continental, decisão que, segundo eles, poderia resultar em resposta militar.
Funcionários do partido dizem que Hu pretende dar a Taiwan posição de destaque no novo congresso. Segundo eles, o presidente pode estar tentando angariar apoio ao uso da força caso Chen não recue. Mas ele também pode ter a esperança de que a questão de Taiwan sirva para unificar o partido em torno de sua liderança, em um momento no qual vem enfrentando pressão crescente de Jiang sobre questões de política interna.
Talvez a função mais importante do congresso, o primeiro em cinco anos, venha a ser selecionar o sucessor de Hu. Dois líderes provinciais do partido, Li Keqiang, 52 anos, secretário do partido na província de Liaoning, no nordeste do país, e Xi Jinping, 54 anos, recentemente apontado para comandar o partido em Xangai, são vistos como candidatos a postos no Comitê Permanente do Politburo, e para assumir a principal posição de liderança dentro de cinco anos.
Li, visto como o favorito de Hu, agora talvez tenha de se conformar com o segundo posto, enquanto a preferência na disputa aparentemente caberia a Xi, que conta com apoio mais forte de Jiang, disseram diversas pessoas que conhecem a situação. Elas falaram sob a condição de que seus nomes não fossem revelados, porque a China trata como segredo de Estado todas as manobras de sua elite política.
Com a principal disputa ainda indecisa, a competição pelos demais postos poderosos no comitê permanente também está durando mais do que o esperado.
Hu no passado esperava reduzir de nove a sete o número de membros do mais poderoso órgão colegiado do governo, o que tornaria mais fácil obter consenso nas decisões políticas. Mas elevar o número de membros a nove, ante os sete anteriores, foi decisão de Jiang em 2002, em parte para que pudesse colocar políticos leais a ele em posições influentes no comitê. Funcionários do partido dizem que ele teria vetado a proposta de Hu por um comitê mais enxuto.
Mortes e aposentadorias compulsórias criaram pelo menos três vagas no comitê permanente e Hu e Jiang têm candidatos diferentes para cada uma delas.
O destino de um quarto membro do comitê, Zeng Qinghong, vem sendo motivo de especulação há meses. Zeng era visto como o mais poderoso líder do partido, depois de Hu, e controla os assuntos cotidianos do partido governante. Em termos menos formais, ele lidera aquilo que é conhecido como "a facção dos príncipes", formada por pessoas que, como ele, são filhos da primeira geração da elite do partido.
Zeng serviu como braço direito de Jiang por muitos anos, mas também se tornou indispensável a Hu nos cinco anos passados, dizem líderes do partido. Ele ajudou o presidente a implementar um programa político que inclui, entre outras coisas, mais atenção à disparidade de renda no país, aos pobres da zona rural e às condições ambientais degradadas.
Zeng atingiu a idade de aposentadoria compulsória, 68 anos, este ano, e representantes do partido alegaram muitas vezes que ele pretendia renunciar.
Mas eles acrescentam que Hu gostaria de retê-lo, em parte porque o presidente ainda não domina completamente o funcionamento do partido, afirmam. A saída de Zeng aumentaria a probabilidade de que dois líderes vistos como leais partidários de Jiang mantivessem seus assentos no comitê ¿Jia Qinglin, que comanda o grupo encarregado de administrar a ligação entre o partido e o restante da sociedade; e Li Changchun, o encarregado da propaganda.
Na frente econômica, quase todos acreditam em novo mandato para Wen Jiabao como primeiro-ministro. Mas ele sofreu ataques recentes no partido por não ter conseguido reduzir o crescimento econômico a um ritmo mais sustentável, disseram representantes do partido.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME




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