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 Multidão homenageia Salvador Allende no Chile
11 de setembro de 2003 21h53

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Milhares de manifestantes lotaram a Plaza de la Constitución de Santiago de Chile, em frente ao Palácio de La Moneda, em uma grande homenagem ao presidente Salvador Allende, morto há 30 anos durante o sangrento golpe militar liderado pelo general Augusto Pinochet. "Allende está presente, podemos sentir!", gritou a multidão, enquanto centenas de balões vermelhos eram soltos em meio a palavras de ordem do Partido Comunista e da desaparecida Unidade Popular.

A manifestação, que começou com o Hino Nacional do Chile repetido por cinco mil pessoas, seguiu até o entardecer, junto ao monumento de Allende na praça, onde era possível ver bandeiras do Chile, Brasil, Cuba, Argentina e outros países da América e Europa.

De uma tribuna, o ex-presidente da Nicarágua Daniel Ortega, a secretária-geral do Partido Comunista, Gladys Marín, e a presidente das Avós da Praça de Maio da Argentina, Hebe de Bonafini, entre outros convidados, acompanhavam o evento.

"Pela primeira vez em 30 anos, o povo pode falar aqui, desta Plaza de la Constitución", comemorou Gladys Marín, num acalorado discurso e sob os aplausos da multidão, que carregava cartazes com as fotos dos desaparecidos sob a ditadura de Pinochet (1973-1990). "Allende morreu entregando um legado de luta, para que continuemos lutando pela verdade, pela justiça, pela democracia", proclamou a líder comunista, referindo-se a seu suicídio durante o golpe e depois do bombardeio aéreo e ataque terrestre dos militares ao palácio presidencial.

Segundo ela, a luta é "tornar realidade o sonho de tantos que hoje não estão conosco". Humberto Martones, o ex-ministro do governo de esquerda e presidente do "Comitê 30 anos Allende Vive", que organizou o ato, saudou as mulheres, jovens e trabalhadores, ressaltando que "apenas com verdade, justiça e reparação (às vítimas da ditadura) pode-se viver com dignidade". "Como não se lembrar do presidente Allende e seu breve e fecundo governo e o meio litro de leite que até hoje serve as crianças do Chile?", perguntou Martones.

Ao examinar a realidade atual do Chile, Martones exigiu uma nova Constituição que substitua a Carta de 1980, herdada de Pinochet, o fim dos senadores nomeados sem passarem pelo voto popular, além de justiça para os familiares das vítimas da repressão.

A concentração aconteceu depois do ato oficial do governo para comemorar esta data, liderado pelo presidente Ricardo Lagos, que reabriu uma porta do Palácio de La Moneda lacrada há 30 anos, no número 80 da rua Morandé.

Foi pela porta reaberta hoje que passaram os corpos do então presidente Allende e dos últimos combatentes que resistiram ao golpe. Muitos deles integram as listas de mais de mil desaparecidos durante o regime militar. "Este é um dia para a memória. Para cuidarmos, com maturidade, daquele momento de nossa história que tanta dor nos causou", disse Lagos, único orador do evento comemorativo no prédio da sede de governo.

Segundo o presidente, porém, "não é este um momento para a análise; pelo contrário, é um momento para o recolhimento". "Recolhimento, em primeiro lugar, diante de um ato grande, muito grande: o sacrifício supremo de um presidente da República em cumprimento de seu dever diante da legítima posse que ostentava", ressaltou Lagos.

AFP
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