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 Chile reabre porta de palácio 30 anos após golpe
09 de setembro de 2003 23h21 atualizado em 10 de setembro de 2003 às 12h11

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Há 30 anos, no dia 11 de setembro, bombeiros chilenos retiraram o cadáver do primeiro presidente marxista da América do Sul por uma porta do palácio presidencial de La Moneda, que havia sido bombardeado naquele golpe de Estado. Augusto Pinochet, o general que derrubou Salvador Allende, mandou lacrar aquela porta quando o palácio foi reformado. Durante os 17 anos do seu regime, o nome de Allende virou um tabu no Chile.

Agora, o presidente Ricardo Lagos, outro socialista, determinou a abertura da porta e anunciou que pretende passar por ela na quinta-feira, durante os atos que vão marcar os 30 anos do golpe. Com esse gesto, Lagos espera romper a barreira política que mantém o país dividido e ao mesmo tempo homenagear seu amigo Allende, que se matou durante o golpe.

Para metade da população, inclusive milhares de sindicalistas e intelectuais, o golpe, incentivado pelos Estados Unidos, encerrou o sonho socialista e inaugurou uma época de medo e repressão. Para a outra metade, o golpe acabou com o caos econômico, restituiu a ordem e deu as condições para que hoje o país seja um dos mais prósperos do continente.

O dia 11 de setembro de 1973 continua sendo tão significativo para os chilenos que eles parecem nem se lembrar que no mesmo dia, só que em 2001, o mundo parou por causa dos atentados nos Estados Unidos. Mas, conforme as paixões da Guerra Fria vão ficando para trás, os 15 milhões de chilenos parecem superar uma época dolorosa marcada por doses iguais de devoção e ódio a Pinochet.

"Sinto que podemos superar. Os ódios diminuíram. Uma sensação de futuro prevalece", disse o ministro da Educação de Lagos, Sergio Bitar, que ocupou a pasta da Mineração no governo Allende, tendo depois passado um ano na prisão e dez no exílio.

A imprensa local marca a efeméride com longas reportagens a respeito de Allende. Mas mesmo alguns de seus antigos aliados admitem que Allende precipitou o golpe, com sua política radical de expropriações agrárias.

Os quartéis, por sua vez, reconhecem os erros do passado, esperando que em troca o governo desista de processar dezenas de militares envolvidos em torturas e assassinatos. Aos 87 anos, doente e isolado, Pinochet já deixou a cena. Mesmo os mais leais a ele se distanciaram do general, em cujo regime cerca de 3 mil adversários políticos foram mortos ou desapareceram.

"Há muito mais coisas nos unindo do que as posições antagônicas de 30 anos atrás", disse Lagos, o primeiro socialista depois de Allende a ocupar o Palácio de la Moneda. "Estamos unidos na nossa visão comum da sociedade, da criação de um sistema econômico com crescimento e coesão social".

Estabilidade
Hoje em dia, os chilenos se orgulham dos 13 anos de estabilidade política, da economia relativamente saudável, baseada na exportação de salmão, madeira e cobre, e no recente acordo de livre-comércio firmado com os Estados Unidos. Metade da população nasceu depois do golpe. Nas pesquisas, a criminalidade e o desemprego são os assuntos que mais preocupam.

No dia do aniversário, muitos moradores de Santiago pretendem apenas sair mais cedo do trabalho para evitar tumultos nas ruas. "Para mim, isso é passado. Seria bom se as pessoas pudessem deixar isso para lá. Estamos menos divididos agora. Voltamos à democracia, e muita justiça foi feita", disse Leonor Moreno, empregada doméstica, cujo pai, sindicalista, teve de se esconder após o golpe.

Mas, como a maioria dos chilenos, Moreno quer que os tribunais façam a sua parte e punam os militares que torturam, assassinaram e jogaram os corpos dos dissidentes no mar. Lagos quer acelerar os julgamentos oferecendo redução nas penas aos ex-militares que colaborarem com as investigações.

Reuters
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