"Uma experiência para não esquecer" é o título do livro, que reúne testemunhos, lembranças em palavras e imagens, e um pedido para que a sociedade preserve a memória coletiva "dessa época na qual se impôs no Chile um projeto de morte feito pela política", conforme afirmou um sobrevivente.
Os responsáveis pela obra também deixaram claro que deverão manter sua obstinação, pois o fim de seus trabalhos ainda está distante. Durante a ditadura, a casa onde o livro foi lançado, situada na avenida "José Domingo Cañas", no município de Ñuñoa, era conhecida como o "Quartel Ollagüe" da Dina, a polícia secreta de Pinochet.
Essa casa pertenceu ao sociólogo brasileiro Teotonio dos Santos, que tinha chegado ao Chile exilado da ditadura militar no Brasil, mas foi confiscada pelo governo chileno após o golpe de 11 de setembro de 1973. Dentro dela, segundo a documentação oficial, desapareceram 42 prisioneiros políticos, outros foram assassinados em suas dependências e centenas sofreram torturas desumanas.
Entre os desaparecidos na casa, estão três jovens casais, dois irmãos, um arquiteto de 63 anos e o padre espanhol Antonio Llidó, de quem Augusto Pinochet disse, "não é padre, é terrorista", quando alguns bispos intercederam pelo religioso ante o ex-ditador.
As vítimas eram quase todas jovens com idades de entre 21 e 25 anos. Uma delas foi o estudante de Filosofia Lumi Videla, cujo corpo foi lançado, nu, dentro da embaixada da Itália, em 21 de setembro de 1974. Na época, a imprensa ditatorial afirmou que Videla morrera durante uma orgia de exilados na sede diplomática.
Embora desde 1987 houvesse manifestações e vigílias esporádicas em frente à casa, foi em 1997 que os encontros se tornaram sistemáticos - todas as quarta-feira, depois do pôr-do-sol - devido à decisão de Teotonio dos Santos de vendê-la. A casa foi comprada pelo proprietário de uma loja de brinquedos vizinha, que desejava ampliar seu negócio, o que os familiares das vítimas, unidos numa associação, tentam impedir desde então.
O comerciante aproveitou uma brecha na proibição judicial que o impedia de demolir a casa e no ano passado colocou a construção abaixo, para aumentar o estacionamento de sua loja de brinquedos. Com suas vigílias semanais, os sobreviventes e familiares conseguiram chamar a atenção de outras organizações sociais, estudantes e profissionais, inclusive moradores do lugar, além de alguns funcionários e instituições governamentais.
Assim, superaram barreiras como a do conservador prefeito da cidade e conseguiram erguer em frente da casa uma escultura e uma placa em memória das vítimas. Também recuperaram a planta da construção e esperam apoio oficial para reconstruí-la e convertê-la em um centro cultural e de preservação de "nossa memória obstinada", como disse um dos sobreviventes da ditadura, parafraseando o título de um conhecido documentário sobre o regime de Pinochet.
Com isso, como destacou durante o lançamento do livro a atriz Gloria Lazo, sobrevivente da tortura, "outros jovens sonharão nossos sonhos, e seu desafio será construir tolerância (...) na lembrança da última geração do século XX". A geração "que foi assassinada, a que teve a infinita generosidade e o infinito amor de ter dado a vida, e também a morte, pelos demais", concluiu.




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