"Eu tenho um sonho", proclamou o líder dos direitos civis em seu discurso de 1.550 palavras, "que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver numa nação onde não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter". "E quando isto acontecer, quando nós permitirmos o sino da liberdade soar, quando nós deixarmos ele soar em toda moradia e todo vilarejo, em todo estado e em toda cidade, nós poderemos acelerar aquele dia quando todas as crianças de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir mãos e cantar nas palavras do velho spiritual negro: "Livre afinal, livre afinal. Agradeço ao Deus todo-poderoso, nós somos livres afinal."
Mas a libertação com que King sonhava, e que inspirou o movimento dos direitos civis durante uma década, a libertação dos preconceitos e dos estereótipos, continua sendo uma esperança nos EUA, apesar de evidentes progressos.
Houve muitas mudanças: hoje dois dos rostos mais conhecidos no governo do presidente George W. Bush - o secretário de Estado, Colin Powell, e a conselheira de Segurança Nacional, Condoleezza Rice - não são apenas negros, mas, pelo menos Powell, tornaram-se nomes habituais na lista de eventuais "presidenciáveis". Em 1970, havia em todo o país 48 prefeitos negros, agora há mais de 450, e no mesmo período subiu de 10 a 39 o número de negros membros do Congresso dos EUA.
A aplicação de políticas de privilégio às minorias para reduzir a vantagem da qual historicamente desfrutram os brancos aumentaram o acesso à educação a um grande número de negros, latinos e outras minorias étnicas. Em 1960, apenas 20% dos negros tinham diploma de segundo grau ou superior, e agora 78% atingiram esse nível de instrução.
Além disso, há quatro décadas apenas 3,1% dos negros conseguiam um diploma universitário, número que agora é de 17%, embora esse nível continue abaixo dos 26% de brancos que tem educação universitária. No que se refere especificamente aos negros, no entanto, as mudanças não foram todas positivas.
Em 1960, 74% das famílias negras formavam casais. Em 2002, apenas 48% dos lares negros são compostos por casais. No mesmo período subiu de 22% a 43% a proporção de famílias negras encabeçadas por mulheres sozinhas.
Embora os negros sejam agora 12,8% da população total dos EUA, eles representam quase 60% dos mais de 2 milhões de pessoas que estão na prisão neste país. Isto significa que em cada três homens negros jovens um está atrás das grades, em liberdade condicional ou em alguma instituição de vigilância.
Enquanto a taxa geral de desemprego nos EUA é de 6,2%, para os hispânicos esse número é de quase 8%, e para os negros de mais de 10%. Um total de 11,7% dos brancos nos EUA vive em situação de pobreza, enquanto que entre os negros, são 22,7% os que se encontram nessa condição. No entanto, isto reflete uma grande mudança desde 1960, quando mais de 50 por cento dos negros viviam na pobreza.
"Quarenta anos mais tarde, os problemas que deviam ter sido resolvidos, de fato, pioraram", segundo Martin Luther King III, filho do maior líder de direitos civis dos EUA. "Temos quase 14 milhões de pessoas na pobreza, 44 milhões de pessoas sem assistência médica, e nos últimos 18 meses 3 milhões de pessoas perderam seu trabalho", lembrou o filho de King.

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