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Geografia ajuda a explicar miséria da África

08 de agosto de 2003 20h13

É bom para um país ter um litoral, ou pelo menos uma boa parte da sua população perto do mar, e isso não serve apenas para viagens de férias. Estudos recentes estão confirmando o que muitos economistas sempre souberam: a geografia faz toda a diferença. E o tamanho também.

Isso pode ser especialmente relevante para a África, ajudando a explicar por que ela é o continente mais pobre do mundo e está ficando cada vez mais para trás. "(Na África) há mais países sem saída para o mar, com pequenas populações, do que em qualquer outra região", diz o Programa de Desenvolvimento da Organização das Nações Unidas (Pnud). "Isso impede o crescimento, por encarecer as exportações e limitar os incentivos a investimentos estrangeiros diretos".

No seu Relatório do Desenvolvimento Humano de 2003, o Pnud analisa as taxas de crescimento econômico de 1980 a 1998 pelo ângulo do tamanho da população e dos fatores geográficos. São classificados como países pequenos, aqueles que tinham menos de 40 milhões de habitantes em 1990, enquanto aqueles com mais de três quartos da população vivendo a mais de cem quilômetros do litoral foram qualificados de isolados do mar - mesmo que eles tenham um litoral.

"Países pequenos e sem acesso ao mar experimentaram muito menos sucesso econômico no mesmo período (que os países maiores ou litorâneos)", diz o relatório. "As conclusões são especialmente relevantes para a África, já que 33 dos 55 países considerados pequenos ou sem acesso ao mar estão no continente".

Desde Adam Smith, no século 18, os economistas afirmam que a geografia é um ingrediente básico do sucesso econômico, e nos últimos anos os analistas começaram a examinar mais de perto sua influência sobre o desenvolvimento. "Quase todos os países sem acesso ao mar são pobres, exceto por algumas nações da Europa Ocidental que são profundamente integradas ao mercado regional europeu", diz um documento de 1998, apresentado por John Luke Gallup e Jeffrey Sachs à Conferência Anual dos Bancos sobre Economia do Desenvolvimento.

Há várias razões para isso. "A geografia está tendo um papel-chave na luta de muitos países africanos para avançar, e pequenos países sem saída para o mar enfrentam um desafio particular", afirmou o economista David Stewart, do Pnud.

"Com pequenos mercados internos e altos custos para atingir as rotas globais de comércio, as economias desses países são pequenas demais para atrair os investimentos necessários para se diversificar (e fugir) das commodities primárias - um passo vital no desenvolvimento".

É claro que há pouco que um país possa fazer contra a sua geografia, a não ser invadir e anexar uma nação vizinha. Mas a localização geográfica não precisa ser tão determinante. "A geografia não é um destino - políticas como as de integração regional e investimentos em infra-estrutura podem romper essas barreiras", disse Stewart.

Botsuana é exceção
Obviamente, essa teoria não vale para todos. Botsuana, por exemplo, é vista como uma história de sucesso na África - pelas estatísticas de 1998, o pequeno reinado era o país mais rico fora da Europa entre todos os que têm população superior a 1 milhão de habitantes e não tem acesso ao mar. Mas, como frisam os economistas, Botsuana "deve seu lugar de honra às bem gerenciadas minas de diamantes".

Na vizinha África do Sul, o país mais desenvolvido do continente, grande parte da riqueza foi extraída de minas de ouro, distantes do litoral. Sua maior cidade, Johanesburgo, não tem sequer um rio navegável. Na Europa Ocidental, a Romênia tem um porto no mar Negro e mais que o dobro da população da isolada República Checa, mas a economia desta vem se saindo muito melhor desde o fim do comunismo.

Tirando exceções como essas, há outros fatores geográficos que prejudicam o crescimento, os investimentos e o desenvolvimento. Gallup e Sachs analisaram as diferenças de renda entre os países tropicais, subtropicais e de clima temperado (todos os países da África ficam nas duas primeiras categorias), e encontraram grandes disparidades.

Nos países tropicais, por exemplo, a renda média é de US$ 3,191, que salta para 7.254 nos subtropicais e para 9.296 nos temperados. "As regiões tropicais são prejudicadas no desenvolvimento em comparação com as regiões temperadas, provavelmente por causa do maior impacto de doenças e das limitações à produtividade agrícola".

Os mapas, ao que parece, se empenharam em prejudicar a África nos tempos modernos e em colocar a Europa no caminho da prosperidade. "A África Subsaariana tem várias características associadas à baixa renda em geral: grande concentração de terra nos trópicos, população muito concentrada no interior e mais de um quarto de seus habitantes em países sem saída para o mar", disseram Gallup e Sachs.

Além disso, notam eles, a África está muito longe do centro dos mercados europeus e tem densidades populacionais baixas.

Aids e comércio internacional
Somente a geografia, no entanto, não explica o fato de a África estar ficando cada vez mais pobre em comparação com o resto do mundo. Há também fatores como as epidemias de Aids e malária.

Por outro lado, o estudo frisa que nem sempre as grandes populações garantem o sucesso econômico. Na maioria dos países africanos, a expansão demográfica é mais rápida que a econômica, e o resultado é que os mais jovens e os menos capacitados engordam as estatísticas de desemprego.

Os analistas também apontam as práticas injustas de comércio - que dificultam o acesso de produtos africanos aos países ricos - e o peso das dívidas externas como fatores de atraso. Além disso, muitos países africanos sofrem com governos corruptos ou ditatoriais e com conflitos armados.

Mesmo assim, a geografia está tendo um papel significativo, e o segredo é construir degraus que permitam superar os obstáculos naturais - tais como a cooperação regional - de forma a permitir que os africanos também alcancem a prosperidade.

Reuters
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