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 Espanha lembra o começo da Guerra Civil
17 de julho de 2006 12h22 atualizado às 14h06

A Espanha lembra nesta terça-feira o 70º aniversário do começo da sangrenta Guerra Civil atravessada pelo país entre 18 de julho de 1936 e 1º de abril de 1939, que ainda suscita interpretações e polêmicas, e cujas feridas não acabaram de cicatrizar.

O conflito, um dos episódios históricos mais importantes do século XX, devido ao caráter internacional que ganhou às vésperas da II Guerra Mundial, dividiu o país nas "duas Espanhas" das que falou o poeta Antonio Machado, que se reconciliaram décadas depois com uma transição à democracia considerada exemplar.

No dia 4 deste mês, o Parlamento Europeu condenou o levantamento contra a II República espanhola que levou à guerra e à subseqüente ditadura militar liderada pelo general Francisco Franco (1939-1975). Os principais grupos políticos na Eurocâmara, com a exceção do Partido Popular Europeu - ao que pertence o Partido Popular (PP), atualmente na oposição na Espanha - e de um eurodeputado de extrema direita expressaram sua rejeição à sublevação e ao regime franquista.

O conflito bélico, que inspirou milhares de publicações e uma vasta obra literária, foi desencadeado pela revolta militar de 17 de julho de 1936, um dia antes do dia considerado a data oficial do começo da Guerra Civil.

As tropas espanholas postadas nas ilhas Canárias e no Marrocos, onde existia um protetorado espanhol, rebelaram-se contra o Governo da Frente Popular, uma coalizão de grupos republicanos, socialistas e comunistas que estava no poder havia apenas cinco meses.

Haviam passado cinco anos desde a proclamação da II República espanhola, com base na Constituição de 1931, bandeira vermelha, amarela e roxa, laicismo e espírito reformista. Aquele espírito da República bateu de frente com uma economia mundial ainda cambaleante após a crise econômica de 1929, um crescente desemprego e as ambições revolucionárias de parte da esquerda.

A reação popular, dividida entre o apoio ao Governo republicano legalmente constituído - pelos setores esquerdistas - e aos militares - pelos setores mais conservadores e a Igreja -, alimentou a disputa civil que gerou perseguições e assassinatos em todo o país.

Muitos desses casos, como continua sendo demonstrado, foram disfarçados de conotações políticas quando eram ajustes de contas pessoais. Os números de vítimas da Guerra Civil espanhola nunca batem.

Fala-se de entre meio milhão e um milhão de mortos. Destes, cerca de 7.000 eram membros da Igreja Católica.

Iniciado o conflito, a Europa voltou os olhos para a Espanha: a Alemanha de Adolf Hitler e a Itália de Benito Mussolini apoiaram o grupo "nacional" dos revoltosos, enquanto o "vermelho", ou republicano, recebeu o respaldo da União Soviética e de civis voluntários de diversos países que fizeram parte das "Brigadas Internacionais".

Os dois lados receberam armas e ajuda logística. A vantagem neste aspecto, porém, foi dos nacionais, o que muitos historiadores consideram o ponto crucial que lhes permitiu tomar Madri no dia 26 de março de 1939, apesar da ferrenha resistência republicana durante meses, e ganhar a guerra. Pouco depois, no dia 1º de abril, Franco deu por encerrada a guerra. Haviam passado quase três anos de duros combates, bombardeios aéreos, batalhas navais, atentados, execuções.

Em outubro seguinte, o general Francisco Franco foi nomeado chefe do Estado, no começo de uma ditadura que durou até sua morte, em 20 de novembro de 1975. Nos primeiros tempos, o novo regime desencadeou uma implacável repressão contra os perdedores do confronto.

Após a vitória dos rebeldes, começou o exílio e até um milhão e meio de pessoas do lado perdedor emigraram para a França e diferentes países da América Latina.

Setenta anos passados desde o começo da Guerra Civil e trinta desde o fim da ditadura não foram suficientes para acabar com as polêmicas, agora inflamadas por aqueles que se opõem à recuperação da memória histórica, promovida pelo Governo do primeiro-ministro socialista José Luis Rodríguez Zapatero.

Deve ser apresentado ainda este mês um projeto de lei para reconhecer e ressarcir as vítimas do lado perdedor, enquanto diversas associações prosseguem há alguns anos sua tarefa de localizar as valas comuns e exumar os restos dos desaparecidos de republicanos e nacionais.

Na Espanha, poucos vestígios visíveis do franquismo restam, exceto pelo monumental Vale dos Caídos, onde está enterrado o ditador. Paulatinamente, foram sendo retiradas estátuas de Franco espalhadas por todo o país, e seu nome foi sumindo de ruas, praças e cidades.

EFE
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