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 Um "pequeno soldado de Mao" relembra Revolução Cultural
15 de maio de 2006 16h03

"A questão não era tornar-se ou não um guarda vermelho - todos queriam ser guardas vermelhos".

Quarenta anos depois, um dos antigos "pequenos soldados" da Revolução Cultural que lutaram em defesa dos planos do presidente Mao e mudaram o país a ferro e sangue recordou esta trágica década.

Em maio de 1966, Lu Li'an tinha 20 anos e, como milhões de jovens chineses, mantinha uma devoção fanática ao presidente Mao Zedong (Mao Tse Tung), que levou os comunistas ao poder em 1949.

Estudante da universidade de Wuhan (centro), ele se engajou cegamente na campanha de violência e destruição destinada a combater os "representantes da burguesia".

"A nós que crescemos principalmente após 1949, eles ensinavam somente a revolução, e como conseqüência quando líamos os livros da literatura de propaganda, queríamos verdadeiramente estar à frente, na vanguarda da História revolucionária", disse este sexagenário empresário aposentado que vive em Wuhan, na província central de Hubei.

"De fato, tínhamos a impressão de que havíamos nascido no momento errado, porque não tivemos a oportunidade de combater nossos inimigos (anti-comunistas) ou a chance de nos tornarmos heróis revolucionários. No momento da Revolução Cultural, pensamos que teríamos a chance de viver esta campanha, finalmente poderíamos lutar por nossos sonhos".

"Os guardas vermelhos eram como um Exército divino, éramos os soldados do presidente Mao", acrescenta.

Como no restante do país, estes batalhões de agitados jovens estudantes foram humilhados, torturados e mortos na província de Hubei. De acordo com Lu, em sua província, 30.000 pessoas foram mortas, entre as quais estavam cidadãos cujo único crime foi a falta de lealdade ao partido.

"Nas ruas, houve manifestações e confrontos entre grupos, como pequenas batalhas, foi realmente violento e intenso". Em um primeiro momento, seu entusiasmo o levou a procurar armas para seus companheiros. Entretanto, nunca participou dos combates, preferindo a luta de idéias, escrevendo os dazibaos, jornais murais afixados em lugares públicos.

Mas, ao final de um ano, os excessos e as mortes inúteis abriram seus olhos. Ele se recorda de seus oito amigos da escola e de um professor que, em razão das humilhações, se suicidaram.

"Vi um pai que chorava sobre o corpo de seu filho após um combate de rua e pensei: Não era para sermos uma família? Porque nos enfrentamos sob a bandeira de Mao?".

Pouco depois de ter lançado uma revista para denunciar os erros de seus companheiros de armas e do "Grande timoneiro", não demorou a sentir a ira do poder.

Jogado no fundo de um calabouço, ele foi violentamente espancado para que se retratasse. Mas, diante de sua recusa, foi finalmente condenado dois meses mais tarde, em julho de 1968, a uma pena de 11 anos de prisão. Ele jurou um dia passar para o papel sua terrível experiência.

"Um dia após uma sessão de espancamento muito dura, em uma noite muito fria, me ajoelhei, gritei para o céu e jurei que se tivesse a chance de recuperar a liberdade e usar uma caneta, escreveria sobre a minha experiência", disse.

Libertado em 1978, sua promessa se tornou realidade no ano passado com a publicação em Hong Kong de seu livro.

Hoje, Lu, casado e pai de um filho de 23 anos, afirma não ter arrependimento algum, mas se lamenta por não ter tido lucidez: "Me sinto feliz. Deveria ter sido capaz de ver a verdadeira natureza da Revolução Cultural".

AFP
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