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No Brasil, Príncipe de Sealand vende nobreza e quer expansão

17 set 2011
17h23
atualizado em 18/9/2011 às 08h22
Felipe Schroeder Franke
Direto de Porto Alegre

O Príncipe de Sealand, território localizado na costa do Reino Unido e que busca reconhecimento internacional, está no Brasil em busca de apoio à sua causa. Autoridade máxima de uma plataforma de concreto de 500 m² a 11 km da costa sudeste inglesa, ele passou por Porto Alegre e Rio de Janeiro para defender a "liberdade de discurso".

James e Michael Bates, príncipes de Sealand, durante a participação na Bienal do Mercosul, no cais de Porto Alegre
James e Michael Bates, príncipes de Sealand, durante a participação na Bienal do Mercosul, no cais de Porto Alegre
Foto: Camila Cunha/Bienal / Divulgação

Michael Bates, 60 anos, esteve presente à Bienal do Mercosul, realizada neste mês de setembro em Porto Alegre, acompanhado de seu filho James, 25. Convidado pelos curadores para falar sobre Sealand e a "Geopoética", tema desta edição da exposição, o Príncipe também aproveitou o passeio para vender títulos da nobreza de sua nação.

Os brasileiros "demonstraram grande apoio, e uma surpreendente quantidade de pessoas que conheci tinham informações sobre Sealand", disse Bates ao Terra. No entanto, ele lamentou - sem conceder números - a escassa saída dos títulos de Lorde e Barão. "Não vendemos muitos títulos, mas demos muitos para nossos novos amigos e apoiadores", afirmou. Segundo informações da Bienal, foram vendidos "dois ou três" papeis nobres na passagem pela capital gaúcha.

O Principado de Sealand é uma ilha artificial construída para combater a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial (1938-1945). O complexo, chamado Rough Towers por causa dos dois pilares que se erguem do mar equilibrando a plataforma, foi tomado em 1967 por Roy Bates, militar e pai de Michael, que pretendia usar a ilha como base de uma rádio pirata. Entendido por Bates como símbolo da "liberdade", o complexo logo evoluiu para nação, ganhando bandeira, hino, selos, moeda e fama.

Na época da fundação, o exército britânico prendeu Roy e Michael, acusando-os de apropriação indevida de território. Pai e filho foram soltos sob a argumentação de que as Rough Towers se localizam no além-mar britânico, fora das posses de Londres. Príncipe, Bates virou as costas para a Rainha. "Tivemos muitos problemas com o Reino Unido ao longo dos anos, mas sempre nos saímos vencedores", sintetiza Michael quando questionado sobre os atritos seus e de seu pai com a coroa.

Manutenção e cultivo de um ideal
Sem áreas cultiváveis, indústria florescente ou abundância de recursos naturais, a nação de aço e cimento tem um produto interno bruto (PIB) avaliado em US$ 600 mil, obtido "em sua maior parte por meio de comércio na internet", revela Bates. É pelo site do "governo" de Sealand que se vendem camisetas, bandeiras e bótons - além dos títulos de Lorde e Barão, negociados respectivamente a 29,99 e 44,99 libras esterlinas.

Com o passar dos anos, e como se o comércio de souvernires não bastasse, uma medida mais drástica para incrementar as Rough Towers foi tomada em 2007, quando Michael tentou negociá-las. "Nós colocamos certas partes do nosso território à venda para levantar fundos para melhoramentos e reinvestimento. Encontramos pessoas muito interessantes, mas não fechamos nenhum negócio", conta, sugerindo que os negócios seguem abertos.

Quando anunciou a venda, comentou-se que Michael estaria lançando por terra o sonho de seu pai de erigir o Estado de Sealand. Questionado sobre o abandono do projeto, Michael indica planos de expansão territorial. "Nós queremos erguer terra ao redor da fortaleza da ilha", conta. Ele acrescenta que o filho James "é príncipe e está, gradualmente, assumindo mais responsabilidades", sugerindo sucessão na dinastia Gates. Apesar disso, admite que, "no momento, nossas fronteiras estão fechadas para o turismo".

Se a situação para os estrangeiros curiosos por Sealand não é propícia, a situação dos sealandeses é curiosa. Toda nação padece de fluxos populacionais, mas o caso do mundo de Rough Towers é particular, segundo define seu Príncipe: "Sealand normalmente têm 25 habitantes, mas às vezes dois". Além disso, conta, ele e seu pai passam "a maior parte do tempo no Reino Unido, devido a negócios".

Com uma população variando entre 2 e 25 indivíduos, e sem a família real na maior parte do tempo, Sealand vive a situação de ter menos nativos que detentores de seu passaporte, cuja produção - parada há 10 anos - é mais um item do rol do plano de alçar o Principado à condição de Estado nacional. Segundo Michael, 175 passaportes "genuínos" já foram emitidos.

Sentidos da autonomia
Apesar de todo peculiar histórico, o Príncipe discorda que o sonho de Sealand seja uma história cômica oriunda da terra do ácido e inteligente humor inglês. "Não acho que seja engraçado, mas somos pessoas bastante realistas numa situação interessante", resume, enigmático.

"O Príncipe Michael é uma pessoa muito sensata, e suas respostas eram ao mesmo tempo divertidas e sérias. Não posso saber qual foi a reação do público, pois imagino que não houve 'uma' reação, mas muitas, dependendo da postura política de cada um", avalia José Roca, curador da Bienal, sobre a participação do Príncipe na palestra em Porto Alegre.

Sem reconhecimento formal internacional, Sealand permanece indicada nos mapas ingleses como um "forte de guerra declarado Estado independente por seus proprietários". É, tal qual a participação nas Zonas de Autonomias Poéticas da Bienal, a mensagem que o Principado carrega ainda hoje, segundo seu Príncipe: "Todos deveriam ter o direito à liberdade de discurso".

Fonte: Terra

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