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Não basta apenas criticar na internet, diz sociólogo Manuel Castells

Sociólogo espanhol aponta ocupação dos espaços públicos como parte fundamental das redes de indignação e esperança que nascem na internet

10 jun 2013
23h27
atualizado às 23h28
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Há pontos em comum entre os movimentos que surgiram com a ajuda da internet ao redor do mundo, como a Revolução do Panelaço (2008) na Islândia, a Revolução de Jasmim (2010) na Tunísia, os Indignados (2011) na Espanha ou o Occupy Wall Street (2011) nos Estados Unidos? Para o sociólogo espanhol Manuel Castells, apesar dos contextos distintos, esses movimentos têm mais semelhanças do que diferenças. "Há um padrão em todos esses movimentos", afirma, completando que a ocupação dos espaços públicos é um exemplo. "Há interação constante entre o físico e a internet", diz.

<p>Manuel Castells foi o convidado do Fronteiras do Pensamento na noite desta segunda-feira em Porto Alegre</p>
Manuel Castells foi o convidado do Fronteiras do Pensamento na noite desta segunda-feira em Porto Alegre
Foto: Divulgação

Convidado do Fronteiras do Pensamento na noite desta segunda-feira em Porto Alegre, Castells falou para mais de 1 mil pessoas no salão de atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e relacionou as semelhanças entre as dezenas de movimentos sociais que, na era da internet, agitaram os quatro cantos do mundo desde 2008, quando a crise financeira na Islândia gerou manifestações que terminaram com a renúncia do governo e a criação de uma nova Constituição com alta participação popular via internet.

<p>Castells e o apresentador do evento, o jornalista Juremir Machado da Silva</p>
Castells e o apresentador do evento, o jornalista Juremir Machado da Silva
Foto: Divulgação

Assim como no caso islandês, "o que produz a mudança social é um sentimento de algo insuportável", ou seja, uma forte indignação sobre uma questão local. Para ele, vivemos na sociedade do medo onde "fazer algo contra o sistema é perigoso, qualquer tentativa de revolta é um perigo". O medo só é enfrentado, de acordo com os estudos de Castells, a partir de um sentimento de emoção coletiva que gera raiva e, assim, produz o enfrentamento.

A primeira semelhança, segundo Castells, é que todos são movimentos em rede, que nasceram na internet, um espaço no qual "não podem ser reprimidos de início". Para o sociólogo, considerado o "principal intelectual conectado" da atualidade, além das redes sociais da internet, como Facebook e Twitter, as redes pessoais são fundamentais para o nascimento desses movimentos. "Nos países árabes, as redes de torcedores que já existiam na internet foram muito importantes", diz Castells, que ainda aponta a ausência de um líder formal em todas essas iniciativas.

A ocupação dos espaços públicos é apontada pelo sociólogo como outro ponto em comum entre todos os movimentos. Por quê? "Porque se o que eles estão fazendo é um desafio à ordem institucional, não basta apenas criticar na internet, é necessário que o movimento seja visível", responde. Castells observa que a necessidade das reivindicações ganharem as ruas nasce a partir do momento em que as demais pessoas desejam participar, levar suas ideias e debater suas demandas.

<p>Manuel Castells é considerado o "principal intelectual conectado" da atualidade</p>
Manuel Castells é considerado o "principal intelectual conectado" da atualidade
Foto: Divulgação

Manuel Castells aponta ainda que todos os movimentos são globais e locais ao mesmo tempo "Eles nascem a partir de demandas locais, mas estão em comunicação constante com o resto do mundo", diz. "Esses movimentos se difundiram muito rápido, mas eles sabiam o que estava acontecendo ao mesmo tempo nos outros países", afirma. Ele cita como exemplo o surgimento do Occupy Wall Street a partir de um grupo de americanos que estava na Espanha e teve contato com o movimento dos Indignados. Ao voltar, uniram-se a estudantes espanhóis nos Estados Unidos para questionar por que o governo socorreu os bancos ao invés das pessoas. "Acho que foi a única coisa que a Espanha exportou para os Estados Unidos", brinca.

A força das imagens, sobretudo daquelas que mostram a repressão sofrida pelos movimentos por parte das polícias, é "o mais importante", segundo Castells. "Quanto mais se reprime, mais força se dá ao movimento", afirma. "As imagens indignantes divulgadas pela internet foram as detonadoras de todos esses movimentos."

"Como eles (os movimentos) não têm ideia de onde vieram e para onde vão, estão em constante auto-avaliação", diz, justificando que a autorreflexão é outro ponto comum em todos os movimentos de indignados.

<p>Castells falou para mais de 1 mil pessoas no salão de atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) na noite desta segunda-feira </p>
Castells falou para mais de 1 mil pessoas no salão de atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) na noite desta segunda-feira
Foto: Divulgação
Princípio da não-violência
"No momento em que o movimento se torna violento, ele morre", afirma Castells. Para ele, todos têm o princípio de não usar a violência, apesar de sofrerem com as táticas de repressão que tentam fazê-los criminosos. "Tenho relatos que na Turquia, por exemplo, gangues a serviço da polícia começaram a atacar", conta. "É sistemático", completa, referindo-se às tentativas dos questionados de desacreditar os movimentos criminalizando-os.

"Você precisa de muito mais valor para não ser violento. Ser violento é fácil", diz. Ele cita o exemplo da Síria, onde o movimento que nasceu pacífico transformou-se em guerra civil a partir do momento em que interesses internacionais adentraram o movimento. "Guerra civil e movimentos sociais são incompatíveis!"

Abundância de propostas
"Os movimentos têm tanto programa que não têm programa", brinca Castells ao citar como exemplo o Occupy Wall Street, que aprovou em assembleia um programa com mais de 300 propostas. "Essa é a sua deficiência e também a sua força, pois todos têm o poder de propor", diz.

"Não nos representam"
A frase comum em todos os movimentos sociais nascidos na era da internet, de acordo com o sociólogo, reflete exatamente o sentimento da população dos países onde há esse tipo de indignação. Castells cita pesquisas que mostram que as pessoas não se sentem representadas pela atual classe política dominante. "Movimentos sociais não são políticos, mas buscam a mudança de cultura", afirma.

"Os movimentos dizem que o mais importante não é o produto, o que conseguiram, mas sim o processo, ou seja, como conseguiram. A partir daí, criam experiências do que poderiam ser outras formas de representação políticas", diz.

<p>Para o sociólogo espanhol, apesar dos contextos distintos, os movimentos sociais têm mais semelhanças do que diferenças</p>
Para o sociólogo espanhol, apesar dos contextos distintos, os movimentos sociais têm mais semelhanças do que diferenças
Foto: Divulgação
Elite política em pânico
Manuel Castells aponta o Movimento Cinco Estrelas, partido político independente que surgiu na internet a partir da insatisfação popular do eleitor italiano com os políticos tradicionais, como exemplo de iniciativas que "estão colocando em pânico as elites políticas". Liderado pelo comediante Beppe Grillo, sobre o qual Castells não expressa simpatia por sua instabilidade emocional, o Cinco Estrelas conquistou importante espaço no cenário político italiano nas últimas eleições. Ele destaca que "um partido que nasceu na internet e escolheu seus candidatos através de um vídeo no YouTube, onde qualquer um poderia se apresentar", se transformou no primeiro partido em número de votos.

Brasil
Questionado sobre a inanição da população brasileira diante dos movimentos sociais, Castells prefere não se aprofundar no tema justificando que não conhece muito bem a realidade brasileira. No entanto, arrisca um palpite: supõe que, com a mudança política ocorrida no Brasil nos últimos 10 anos, citando "um governo de esquerda que chama para si algumas antigas demandas sociais", como o combate à pobreza, "o nível de frustração não é suficiente para que os movimentos sociais assumam" a luta.

O sociólogo fez várias referências a Porto Alegre como berço de iniciativas populares, mas não se aprofundou em uma análise sobre os movimentos gaúchos. Recentemente, milhares de jovens foram para as ruas na capital do Rio Grande do Sul para protestar contra o anunciado aumento das passagens de ônibus. Depois de uma série de manifestações, uma decisão judicial suspendeu o reajuste.

Turquia: a ameaça é o Twitter
Manuel Castells cita o exemplo mais recente do que chama de "redes de indignação e esperança": a Turquia. Há 11 dias, a forte repressão policial contra manifestantes que protestavam contra a derrubada de um parque em Istambul para dar lugar a um shopping desencadeou uma série de protestos em dezenas de cidades turcas contra o questionado autoritarismo do primeiro-ministro Tayyip Erdogan.

O sociólogo chama de "cínica" a primeira resposta do governo aos protestos que ganharam o país, quando Erdogan se pronunciou antes de uma viagem internacional e alertou para uma "ameaça" chamada Twitter. Castells leu a declaração do ministro turco: "há agora uma ameaça chamada Twitter (...) As maiores mentiras podem ser encontradas lá. Para mim, esta rede social é a pior ameaça para a sociedade."

"É muito difícil controlar o que será escrito nas redes sociais, mas é possível identificar  e castigar o emissor da mensagem", alerta o espanhol, citando exemplos de dezenas de ativistas turcos que foram punidos por mensagens divulgadas nas redes.

"Enquanto tivermos capacidade de indignação e de mobilização, poderemos ir para a prática", concluiu Castells para os aplausos do público porto-alegrense.

Fonte: Terra

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