1 evento ao vivo

Keiko Fujimori, a bênção e a condenação de um sobrenome

3 jun 2011
22h59

Seria difícil encontrar melhor exemplo do peso de um sobrenome que o da candidata à Presidência peruana Keiko Fujimori, em virtude de uma questão dinástica que, paradoxalmente, também se transformou no maior empecilho para sua vitória nas eleições.

A evolução da estratégia de campanha de sua coalizão Fuerza 2011 é o mais claro exemplo desta esquizofrenia. Se, por um lado, o apreço pelo Governo de Alberto Fujimori foi vital para atrair os partidários do pai, por outro, Keiko quis se mostrar como uma pessoa diferente e independente nas últimas semanas para atrair outro eleitorado.

Quando seu pai venceu Mario Vargas Llosa nas eleições de 1990, Keiko era apenas uma adolescente de 15 anos, filha primogênita de um engenheiro agrônomo de ascendência japonesa que ocupou a poltrona presidencial sem experiência prévia em política.

Criada sob o foco das câmeras e nos salões onde era decidido o futuro do país, a atual candidata reflete personalidade e desenvolvimento político que lembram gestos do pai e o autocontrole próprio da cultura asiática, frutos de sua peculiar educação.

Enquanto os políticos habitualmente surgem das bases partidárias ou movimentos sociais, Keiko entrou em cena por causa do divórcio de seus pais em 1994, assumindo aos 19 anos o cargo de primeira-dama, a mais jovem da história da América.

Mesmo convivendo com líderes de todo o mundo e participando de importantes cúpulas internacionais, Keiko não deixava de ser uma jovem que mandava pintar de rosa as salas do Palácio de Governo e se vestia seguindo a moda juvenil do momento.

Chegou a protagonizar episódios de rebeldia em frente ao pai, como quando em 1998 participou da campanha civil "Fórum Democrático", cujo objetivo era levar ao Congresso uma proposta de referendo para que o povo se pronunciasse sobre a intenção de Fujimori de se candidatar a um terceiro mandato consecutivo.

Em seguida, o escândalo das eleições manchadas por fraude e casos de corrupção que motivaram os protestos sociais e, finalmente, a renúncia de Alberto Fujimori também devem ter causado um baque em Keiko.

Pelo menos foi o que demonstrou seu anúncio de renunciar a toda atividade política e sua pretensão de iniciar uma carreira no setor privado nos Estados Unidos, onde previamente tinha estudado Administração de Empresas.

No entanto, esta distância da vida pública chegou ao fim pouco tempo depois, motivada pela intenção de seu pai retornar ao Peru para concorrer às eleições de 2006 e a prisão do ex-governante no Chile.

Com o líder histórico sob prisão domiciliar em Santiago do Chile, o fujimorismo necessitava uma nova cara, e lá estava Keiko, a próxima na linha de sucessão, para retornar ao Peru. E os simpatizantes de Fujimori deram o recado: Keiko se tornou a congressista mais votada da República e herdeira do legado de seu pai.

Seja pela obrigação de manter uma força política que apoie a inocência do pai, condenado no Peru a 25 anos de prisão por crimes durante seu Governo, ou por uma autêntica vocação política redescoberta, o fato é que Keiko, que completou 36 anos em maio, se transformou em uma das políticas mais relevantes de seu país.

No entanto, e depois de passar ao segundo turno contrariando as estimativas iniciais, a candidata peruana se defrontou com o fato de o legado que lhe concedeu o apoio de 20% do eleitorado peruano a transformar na herdeira de um regime insultado por boa parte da população.

"Eu não sou meu pai, quem toma as decisões em meu partido sou eu", afirmou no último debate presidencial, diante dos ataques que lembravam os crimes cometidos pelo Governo de Alberto Fujimori e em um dos poucos momentos em que a candidata pareceu perder a frieza que transmite sua forma pausada de falar.

Aconteça o que acontecer no próximo domingo, o sobrenome Fujimori continuará pesando na carreira política de Keiko, seja como obstáculo de um Governo que deverá evitar os erros dos anos 1990, seja como base de um movimento político do qual a jovem candidata deverá decidir se continua liderando ou não.

EFE   

compartilhe

publicidade
publicidade