Morre o arcebispo Marcinkus, o "banqueiro de Deus"

21 de fevereiro de 2006 • 13h25 • atualizado em 29 de novembro de 2006 às 00h35

Com a morte nos Estados Unidos do monsenhor Paul Marcinkus, envolvido na década de 1980 em um dos maiores escândalos financeiros da história da Igreja Católica, desaparece a pessoa que minou o prestígio do Vaticano.

A história financeira da Santa Sé, que por séculos baseou-se nas contribuições e doações dos fiéis, viu-se afetada pelos contatos obscuros entre o célebre clérigo e dois banqueiros italianos: Michele Sindona, ligado à máfia siciliana, e Roberto Calvi, membro da poderosa sociedade maçônica Propaganda-2.

As aventuras financeiras dos dois banqueiros levaram à quebra do banco Ambrosiano, de Milão, principal rede de financiamento do Vaticano. O crescimento econômico da Itália nos anos 80 e a necessidade de ingressar nos mecanismos financeiros mundiais levaram o Vaticano a participar de operações obscuras, que acabaram colocando em jogo até a sua sobrevivência.

Marcinkus, que leva para o túmulo muitos segredos sobre as finanças do Vaticano, era conhecido como "o banqueiro de Deus", pela liberdade e autonomia de que gozou nesse setor. Trabalhou e dirigiu por quase 20 anos - de 1971 a 1989 - o Instituto de Obras para a Religião (IOR), o "Banco do Papa".

Como protagonista do escândalo que ganhou destaque na imprensa mundial, o religioso respondia perfeitamente a seu papel: tinha mais de 1,90m de altura, era bonito, mundano, apaixonado por golfe e amigo íntimo das famílias Kennedy e Rockfeller.

Após deixar a Santa Sé sem reserva financeira, após o pagamento em 1984 de 240 milhões de dólares aos credores do Ambrosiano, Marcinkus viveu uma espécie de exílio interno no Vaticano, após ser investigado pela polícia e Justiça italianas.

Criticado por ter feito negócios com pessoas ligadas à máfia, e que lavavam dinheiro em paraísos fiscais, Marcinkus foi defendido por poucos e protegido por João Paulo II, que sempre reclamou imunidade diplomática para seu prelado.

Após retornar discretamente a seu país em 1989, a maior entidade financeira da Santa Sé teve que limpar sua imagem. João Paulo II nomeou uma comissão de cinco cardeais para velar pelo funcionamento do IOR, e pediu a um grupo de especialistas do mundo inteiro que dessem orientações sobre as finanças da Santa Sé.

As contas do Vaticano começaram a se tornar públicas, e em 1992 o saldo passou a ser menos negativo. Graças às chamadas "entradas institucionais", espécie de imposto pago pelas dioceses e ordens religiosas de todo o mundo, regulamentadas pelo código canônico em 1991, a Santa Sé saiu do vermelho após 23 anos de déficit.

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