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Jornal do Vaticano diz que design inteligente não é ciência

19 de janeiro de 2006 15h10 atualizado às 15h45

A Igreja Católica reafirmou seu apoio à teoria evolucionista num artigo que elogia uma decisão judicial norte-americana que considerou a teoria do design inteligente não-científica.

O jornal L''Osservatore Romano, do Vaticano, disse que ensinar o design inteligente - que afirma que a vida é tão complexa que só pode ter sido criada por algo sobrenatural - simultaneamente com a teoria da evolução de Darwin só causa confusão.

Um tribunal do Estado da Pensilvânia proibiu, no mês passado, uma escola de ensinar o design inteligente, num revés para os conservadores cristãos, que pretendem que a teoria seja ensinada nas aulas de biologia junto com a tese darwinista, à qual se opõem.

O movimento pelo design inteligente às vezes apresenta o catolicismo como um aliado em sua campanha. Mas, embora a Igreja seja socialmente conservadora, tem uma antiga tradição teológica que rejeita o criacionismo fundamentalista.

"O design inteligente não pertence à ciência e não há justificativa para a exigência de que seja ensinado como teoria científica junto com a explicação de Darwin", afirmou o artigo publicado na edição de terça-feira do jornal do Vaticano.

A evolução representa "a chave interpretativa para a história da vida na Terra" e o debate nos Estados Unidos está "poluído por posições políticas", escreveu Fiorenzo Facchini, professor de biologia evolucionista na Universidade de Bolonha, na Itália. "Portanto a decisão do juiz da Pensilvânia parece correta."

A confusão sobre a posição da Igreja Católica a respeito da evolução começou no ano passado, quando o recém-eleito papa Bento 16 e seu ex-aluno, o cardeal Christoph Schoenborn, de Viena, disseram que os seres humanos fazem parte de um projeto inteligente feito por Deus.

Um artigo de Schoenborn publicado no New York Times em julho parecia indicar uma alteração da posição da Igreja na direção do design inteligente, porque minimizava a declaração de 1996 feita pelo papa João Paulo 2o. de que a evolução era "mais que uma hipótese".

O texto deu origem a uma onda de manchetes do tipo "Vaticano rejeita Darwin" e de críticas dos cientistas, inclusive cientistas católicos.

Depois, Schoenborn deixou claro que a Igreja aceita o evolucionismo como uma ciência sólida, mas fez objeções ao modo como alguns darwinistas concluem que ela comprova a não-existência de Deus e que é capaz de "explicar tudo, desde o Big Bang até a Nona Sinfonia de Beethoven".

A Igreja, que nunca rejeitou a teoria da evolução, ensina que Deus criou o mundo e as leis naturais pelas quais a vida se desenvolveu. Até mesmo o dissidente católico mais conhecido, o teólogo suíço Hans Kung, ecoou essa posição num livro recente, na Alemanha.

Schoenborn disse que se manifestou porque compartilha da preocupação do papa Bento 16, expressa por ele pouco antes de sua eleição, em abril, de que "uma ditadura do relativismo" está tentando negar a existência de Deus.

Não-ciência
O juiz John Jones, da Pensilvânia, determinou que o design inteligente é uma versão do criacionismo, a crença de que Deus criou o mundo em seis dias como diz a Bíblia, e, portanto, não pode ser ensinado sem violar a proibição de ensinar religião nas escolas públicas. Não se trata de ciência, afirmou ele.

A interpretação literal do livro da Gênese é um dogma para os protestantes evangélicos, um grupo com influência política cada vez maior nos Estados Unidos.

Muitos católicos norte-americanos podem até concordar politicamente com os evangélicos, mas a Igreja Católica não adota o mesmo princípio teológico. O design inteligente tem poucos defensores fora dos Estados Unidos.

Embora não seja um documento oficial, o artigo publicado no L''Osservatore Romano passou por escrutínio antes de sair para refletir a visão do Vaticano.

Para o Discovery Institute, com sede em Seattle e o principal centro de apoio ao movimento do design inteligente, ler o artigo do Osservatore dessa forma equivale a "colocar palavras na boca do Vaticano".

Reuters
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