Por volta das 9h30 (5h30 em Brasília), Agca deixou a prisão de segurança máxima de Kartal, na parte asiática de Istambul, fortemente escoltado, em meio à expectativa da imprensa e de centenas de curiosos.
Sem dizer uma palavra e com as mãos algemadas, Agca entrou em um veículo que o esperava na porta da prisão e partiu, acompanhado pelas flores jogadas por alguns partidários da extrema direita.
Seu destino foi o hospital estadual Pendik, em Istambul, onde passou pelo exame médico que todos os presos libertados devem fazer.
Após essa primeira revisão, e ainda com as mãos algemadas, Agca, de 48 anos, foi levado a um escritório de recrutamento militar, que por sua vez o mandou, já sem algemas, à Escola de Infantaria de Tuzla, também em Istambul. Agca foi depois ao hospital militar de Gatuna, onde será decidido se deve ou não se incorporar ao Exército.
Seu advogado, Mustafa Demirbag, reiterou várias vezes que seu cliente deseja cumprir com seu dever, mas também especificou que dará razões como a idade e seu estado de saúde para tentar evitar o serviço militar.
Todos os homens turcos são obrigados a passar 15 meses nas Forças Armadas, mas, segundo a lei, os maiores de 45 anos ou os homens com problemas de saúde podem ter esse período reduzido ou ficar isentos.
Adnan, o irmão de Agca, que também o esperava na porta da prisão, revelou que, caso tenha de cumprir o serviço militar, pedirá um tempo para que possa descansar e se recuperar.
O ex-militante da organização ultradireitista "Lobos Cinzas" saiu esta manhã da prisão entre os protestos da família do jornalista turco Abdi Ipekci, diretor do prestigiado jornal liberal Milliyet, assassinado por Agca em 1979.
O turco poderá voltar à prisão se um recurso que a família de Ipekci apresentará na segunda-feira for aceito.
Logo após o anúncio do indulto a Agca na semana passada, Turgut Kazan, o advogado dos Ipecki, disse que apelariam da decisão perante a Justiça e a denunciariam até mesmo ao Tribunal Europeu de Direitos Humanos.
Mas a longa semana de férias na Turquia por causa da Festa do Sacrifício, a mais importante do calendário muçulmano, impediu que fossem realizados os trâmites no tribunal competente.
"Não quero falar. A lei foi ferida e hoje permanece em silêncio.
As palavras não têm sentido", disse Kazan esta manhã.
O advogado ressaltou que o indulto é uma ação mal calculada e que Agca foi libertado muito cedo, por isso pretende apelar à Corte Européia de Estrasburgo.
Kazan explicou que a lei de anistia aprovada em 1999 prescreve que os condenados à morte devem cumprir pelo menos dez anos de prisão se sua pena for trocada por uma mais leve, e lembrou que Agca ficou apenas cinco anos em prisões turcas.
Hikmet Sami Turk, que era ministro da Justiça turco quando a lei foi aprovada, também criticou a libertação de Agca.
"Não entendo o que aconteceu. Uma pessoa não pode se beneficiar de duas anistias. Ele já conseguiu isto na Itália. É como se tivesse escapado da prisão. Acho que o erro virá à tona nos próximos dias e alguém pagará por isso", afirmou.
O assassinato de Ipecki foi uma das ações que levaram à desestabilização da Turquia nos meses anteriores ao golpe de Estado de 1980.
O jornal Milliyet trouxe em sua capa a frase "O dia da vergonha" e publicou um comunicado de Nukhet, filha de Ipekci, em que ela assegura que seu pai teria perdoado Agca, como fez o papa, mas que sua liberdade atenta contra a lei.
Agca matou o jornalista a tiros em 1º de fevereiro de 1979 e foi capturado em 11 de julho desse ano, mas conseguiu escapar da prisão militar em que estava detido com a ajuda dos "Lobos Cinzas".
Em abril de 1980, Agca foi condenado à revelia à pena de morte e um ano depois tentou assassinar João Paulo II, em uma das tentativas de assassinato mais misteriosas da História.
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