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Sábado, 18 de junho de 2005, 20h57

Centenas protestam contra imigrantes em Lisboa

Aproveitando o sentimento de revolta causado pelo arrastão que ocorreu na praia da Carcavelos no dia 10 de junho, a extrema direita portuguesa realizou a sua maior manifestação desde o retorno do país à democracia, em 1974. Na tarde deste domingo, mais de 500 pessoas desfilaram pelo centro de Lisboa pedindo o fim dos crimes e a expulsão dos imigrantes ilegais.

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    No arrastão de Carcavelos, uma praia que fica a 12 quilômetros da capital portuguesa, cerca de 500 jovens supostamente descendentes de imigrantes das ex-colônias portuguesas na África, cercaram e roubaram os freqüentadores da praia. A manifestação foi convocada por duas organizações de extrema direita: a Frente Nacional e o Partido Nacional Renovador.

    Passeata
    As faixas no local traziam dizeres como "Basta! Imigrantes = Criminosos" e "Não existem direitos iguais quando és um alvo por seres branco". De cabeça raspada, com roupas e botas pretas, apesar do calor de 35 graus, Mário Machado, dirigente da Frente Nacional, disse à BBC Brasil que "Portugal está a passar por uma crise bastante grande, com tensões raciais brutais".

    "Os negros andam a juntar-se em gangues de 500 pessoas e os ciganos juntam-se aos 200 para roubar a população, e o nosso governo não tem coragem de admitir isso, porque não é politicamente correto falar em raça", disse Machado. Ele disse que os imigrantes ilegais seriam responsáveis pelo aumento da criminalidade no país e que a solução para o problema estaria na "repatriação imediata de todos os imigrantes ilegais" do território português.

    Machado tem uma suástica tatuada no seu braço direito: "É o símbolo das nossas tradições e dos povos arianos que habitavam a Europa desde o princípio". Apesar de não usar roupas ou corte de cabelo que o pudessem identificar como membro de um grupo de extrema direita, José Pinto Coelho, vice-presidente do Partido Nacional Renovador, propõe medidas mais radicais.

    "Defendemos a denúncia dos acordos de Schengen (que acabou com o controle de fronteira em alguns países da Europa) e a reposição das fronteiras. O mínimo que pretendemos é saber quem entra em Portugal. A alteração da lei de nacionalidade de modo a que só filhos de portugueses sejam portugueses. É necessário repatriar todos os imigrantes que estejam na prática do crime."

    Skinheads
    Depois de discursos contra os imigrantes e a criminalidade, a manifestação saiu em passeata do Martim Moniz, um bairro onde se reúnem muitos indianos, para o Rossio, local em que costumam se encontrar os imigrantes da Guiné-Bissau.

    Muitos skinheads presentes, com buttons da Frente Nacional, traziam uma camiseta preta em que na parte da frente havia a frase "Morte aos traidores" e na parte de trás a citação atribuída ao "fundador e primeiro rei" de Portugal, d. Afonso Henriques: "Vós a nenhuma pessoa não perdoeis, nem deis vida a homem ou mulher, nem moços nem velhos, de qualquer idade ou qualidade sejam".

    Gritavam "Portugal, Portugal", cantavam o hino nacional fazendo com a mão direita esticada ¿ na típica saudação nazista ¿ e entoavam palavras de ordem como "Basta ao crime".

    Acompanhando a manifestação, um senhor de cabelos brancos, usava uma camiseta com a bandeira do Brasil e uma calça branca. "Eles têm razão. Antes não tínhamos essa criminalidade toda", afirmou João Cordeiro, um português aposentado que recebeu a camiseta de presente do filho.

    Contramanifestação
    No Rossio, a manifestação terminou com discursos no meio da praça, enquanto na calçada lateral formou-se uma contramanifestação espontânea que gritava palavras de ordem como "fascistas!", "fascismo nunca mais" e "25 de abril sempre" (uma referência à revolução dos Cravos que trouxe a democracia de volta ao país).

    O clima ficou tenso. Na praça, os gritos eram de "Portugal, Portugal" e "Volta para a tua terra", quando viam um negro. Vários negros subiram na entrada do metrô e fizeram sinais obscenos aos manifestantes do outro lado da rua. A tropa de choque separou os dois lados.

    Os organizadores tentaram evitar confrontos: "O movimento neste momento passa pela luta política", diziam no megafone, para acalmar os simpatizantes. Durante mais 45 minutos, houve mais ameaças e corre-corre pelo centro de Lisboa, que teve o trânsito bloqueado.

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