Neste sábado, véspera do plebiscito, o chanceler alemão, Gerhard Schröder, se dirigiu aos franceses em um artigo publicado pelo jornal Le Figaro, no qual cita a Chancelaria alemã para dizer que a "Europa é impensável sem a França" e que este país é "um sócio imprescindível" para a Alemanha.
Na sexta-feira, a Câmara Alta do Parlamento alemão (Bundesrat) ratificou a Constituição européia em uma sessão marcada para dois dias antes do plebiscito francês com o objetivo de enviar um sinal de apoio ao "sim", gesto que o presidente francês, Jacques Chirac, agradeceu em carta e disse ser um "poderoso símbolo".
Schröder; o vice-chanceler e ministro das Relações Exteriores, o verde Joschka Fischer;, e outros políticos de menor categoria foram à França nas últimas semanas para intervir na campanha a favor do "sim".
A imprensa também fez seus esforços: o Süddeutsche Zeitung, por exemplo, pediu que seus leitores entrassem em contato com amigos e conhecidos da França para incentivá-los, com muito respeito, a votarem no "sim", e até um programa humorístico da televisão pública fez campanha ao som de "Oui are family".
Fischer reconheceu recentemente em reunião com jornalistas estrangeiros que não quer "nem pensar" no que vai acontecer se a França, "o país fundador" da comunidade européia, se separar do processo de integração.
A França, disse Fischer na ocasião, o que depois foi ressaltado por Schröder, é "o único país fundador" da União Européia, pois tomou "a iniciativa estratégica em direção à Alemanha".
A Alemanha, como país que provocou e perdeu a 2ª Guerra Mundial, não podia ser o responsável pelo início do processo de reconciliação, que é a base da construção européia.
Em sua defesa do "sim", os políticos alemães lembraram que a nova Europa próspera e em paz foi criada sobre as ruínas das guerras do século XX, e Schröder, no artigo do Le Figaro, chama os franceses a imaginar se seus compatriotas de 1945 poderiam ter imaginado a Europa de hoje.
O chanceler enumera os projetos que o motor franco-alemão impulsionou, "o mercado único, o euro, o espaço Schengen e a política externa e de segurança comum". Ele afirma ainda que a Constituição, muito criticada pela esquerda na França, "reforça a dimensão social da Europa".
Todas estes pedidos, no entanto, ficam mais fracos por dois motivos: o fato de a Alemanha não ter feito plebiscito e a situação de crise no governo Schröder.
"A aprovação no Bundesrat parece mais o voto de uma classe política que tem medo de seu próprio povo, um 'sim' em uma consulta popular teria tido muito mais impacto do outro lado do (rio) Rin", afirma o jornal alemão-oriental Maerkische Allgemeine.
O jornal conservador Die Welt acrescenta dizendo que a aprovação parlamentar "não desperta emoção" e que "os debates ocorreram sem vida", enquanto na França é possível manter as discussões acesas na televisão no horário de maior audiência, em que "as elites se submetem às perguntas de seus eleitores".
Outro problema é a crise causada pela derrota nas eleições regionais da Renânia do Norte-Westfália do domingo passado, que levou Schröder a tomar medidas que ninguém esperava: propor o adiantamento das eleições gerais previstas para o outono (no hemisfério norte) de 2006, as quais poderiam acontecer ainda este ano.
Para o plebiscito francês, "não é exatamente uma ajuda a República Federal da Alemanha permitir uma crise de governo neste momento e a antecipação das eleições", afirma o Westdeutsche Allgemeine Zeitung.
Outros jornais informam que, com a situação do jeito que está dentro de casa, Schröder não poderá intervir como gestor da crise para dar nova partida ao motor franco-alemão se o "não" vencer na França.
A oposição conservadora, que sai como clara vencedora na corrida pela Chancelaria, aproveita a situação na França para mostrar sua oposição ao polêmico processo de ampliação da União Européia.
O presidente da Comissão de Assuntos Europeus da Câmara Baixa do Parlamento, Matthias Wissmann, disse hoje à rádio Deutschland que se o "não" vencer na França, "será preciso paralisar durante algum tempo o processo de ampliação" e priorizar um novo impulso ao motor franco-alemão.

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