Alemanha esqueceu a euforia de 1989

Alemães se aglomeraram para comemorar a queda Foto: Reuters
Alemães se aglomeraram para comemorar a queda
08 de novembro de 2004
Foto: Reuters

A Alemanha comemora no próximo dia 9 o 15º aniversário da queda do Muro, que permitiu a reunificação de Berlim, mas a euforia de então foi substituída pelo abismo social entre o leste e o oeste e pelo debate sobre os erros cometidos no processo. Os estudos e pesquisas afirmam isso. Oitenta e cinco por cento dos alemães orientais ("Ossis") e 74% dos ocidentais ("Wessis") não pensam que os alemães constituam um só povo. E em relação ao Muro de Berlim, um alemão em cada cinco deseja a volta da construção, sendo mais numerosos no Ocidente (24%) do que na antiga RDA (12%).

Quinze anos depois das manifestações do outono de 1989, nas quais os alemães orientais gritavam "Somos o povo" diante da sede comunista, novas "manifestações de segunda-feira" surgiram no verão passado, particularmente nas cidades da ex-RDA.

Desta vez o alvo foi as reformas sociais implementadas pelo chanceler social-democrata Gerhard Schroeder. A insatisfação popular se manifestou principalmente nas eleições regionais de setembro na Saxônia e em Brandeburgo, com o recuo nas urnas dos chamados "grandes partidos", os social-democratas (SPD) e os cristãos-democratas (CDU).

Este retrocesso foi provocado por um avanço dos neocomunistas (PDS), que se firmaram como a segunda força política na ex-RDA, e da extrema-direita, que entrou com força para o parlamento da Saxônia.

O descontentamento na antiga RDA é alimentado por um índice de desemprego de 18%, ou seja, mais do dobro do lado ocidental, e por um êxodo ininterrupto nos últimos anos: entre 1991 e 2003, os cinco Lander (estados regionais) da ex-RDA perderam quase 850 mil habitantes.

No entanto, não menos de 1,25 bilhão de euros em fundos públicos foram investidos no lado oriental, em particular através do chamado "imposto de solidariedade". Até 2019, outros 156 bilhões de euros serão usados dentro do "Pacto de Solidariedade".

Mas, aos olhos de muitos "Wessis" um excesso de dinheiro foi jogado pela janela, como ilustram as falências de grandes projetos como o transportador de aviões Cargolifter, o circuito automobilístico Lausitzring ou a fábrica de micro-transmissores eletrônicos de Frankfurt-sur-l'Oder.

O artesão da reunificação, o chanceler Helmut Kohl (CDU), que profetizou "paisagens florescentes" no leste, reconheceu pela primeira vez este ano ter "cometidos erros". Mas tentou justificar-se, dizendo que "navegávamos fora de um caminho pré-estabelecido".

Em seus discursos pelos 14 anos de reunificação, em 3 de novembro passado, o presidente alemão Horst Koehler denunciou como fonte de "muitos problemas" a falta de questionamento, em 1990, da cultura burocrática e regulamentarista alemã ocidental, aplicada sem transição no lado oriental.

"Naquela época, quase todo mundo pensava que a falência da RDA confirmava a exatidão do sistema ocidental", enfatizou Koehler, antes de destacar que "a legislação alemã ocidental estava muito impregnada da auto-satisfação, as expectativas em relação ao Estado e o zelo que quer regulamentar tudo".

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