O presidente George W. Bush subverteu a sabedoria de Nixon. Ele foi para a direita nas eleições, mobilizou sua base predominantemente branca e evangélica e conseguiu votos suficientes para chegar à vitória. O seu adversário, o senador democrata John Kerry, reconheceu a derrota no início da tarde de hoje, depois de ficar claro que Bush conseguiu a maioria dos votos populares.
Desde o começo da campanha, a estratégia do principal assessor político de Bush, Karl Rove, foi investir tudo no comparecimento em massa dos eleitores tradicionais do Partido Republicano, em vez de tentar converter os indecisos. Rove acreditava que a base do partido não havia demonstrado todo seu potencial nas eleições presidenciais de 2000, ganhas por Bush mesmo sem a maioria do voto popular. Ao mesmo tempo, Bush fez ataques constantes a Kerry, o suficiente para lhe roubar o apoio nos Estados mais decisivos.
"Bush nunca pendeu para o centro. Foi uma administração muito conservadora, que baseou suas ações na estratégia de manter sua base motivada e feliz", disse o especialista em pesquisas John Zogby. Rove dizia que 4 milhões de evangélicos brancos deixaram de votar em 2000, e cada um deles era um alvo nestas eleições. Bush consolidou o apoio dessa parcela no início deste ano, ao dar apoio à emenda constitucional proibindo o casamento entre homossexuais.
Onze Estados proibiram em plebiscitos o casamento entre homossexuais na terça-feira, a maioria por grande vantagem. Rove resumiu sua estratégia numa entrevista que deu à revista New Yorker em 2004: "Vocês viram nas pesquisas de boca de urna de 2000, em que as pessoas que iam frequentemente à igreja votaram em peso em Bush. Elas formam uma parte importante da base republicana", disse ele na entrevista.
"É fácil fazer uma caricatura deles, mas eles são basicamente os seus vizinhos, que vão à igreja regularmente e que estão preocupados com valores". Bush teve um desempenho especialmente bom em Estados religiosos como Virgínia Ocidental, Kentucky e Arkansas, que até há poucos anos eram vistos como reduto natural dos democratas. O ex-presidente Bill Clinton, que nasceu em Arkansas, venceu em todos os três tanto em 1992 como em 1996.
Os três Estados são relativamente pobres, mas Kerry praticamente não se esforçou para competir ali. O conservadorismo cultural de Bush, associado a sua posição na questão do direito de possuir armas, pesou muito mais que os argumentos econômicos. Bush venceu em Kentucky com uma vantagem de 20 pontos percentuais, a Virgínia Ocidental com 11 pontos e Arkansas com 9, apesar de um esforço de última hora no Estado, em um comício com a presença de Clinton. Para o democrata James Carville, "deve haver uma análise sobre como os democratas podem ir melhor com os eleitores rurais".
Bush também garantiu votos judeus importantes na Flórida, com seu apoio irresoluto ao premiê israelense Ariel Sharon.
Porém, nem todos os republicanos concordavam com a estratégia de Rove. Muitos prefeririam ver Bush pendendo para o centro e criando coalizões que deixariam o país mais unido depois da eleição. "Se Bush tivesse perdido, a lição seria a de que não se pode ganhar só com a base e ignorando o resto do país. Mas ele ganhou", disse um consultor político republicano que não quis ser identificado.
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