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 Referendo para reeleição fortalece a democracia, diz uribista
10 de setembro de 2009 11h32

Benedetti é a favor do referendo pode dar a Uribe a chance de um terceiro mandato. Foto: Divulgação

Benedetti é a favor do referendo pode dar a Uribe a chance de um terceiro mandato
Foto: Divulgação

Moreno Osório


Para o senador uribista Armando Benedetti, se o povo colombiano quiser que o presidente Álvaro Uribe siga no poder e se o processo para que isso aconteça respeitar a lei, não há impedimentos para a realização de um referendo sobre a reeleição. Ele diz que a independência e a autonomia entre poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além de todas as etapas que o atual mandatário enfrentaria até uma provável reeleição, garantem a legitimidade constitucional e fortalecem a democracia. No entanto, admite que a prática comum da reeleição na América do Sul virou uma espécie de "pandemia" e vem transformando os líderes do continente em caudilhos.

Em entrevista ao Terra, o representante do Partido Social de Unidad Nacional, ou simplesmente Partido de la "U", como é usualmente conhecido, crê na reeleição de Uribe para que a política de "segurança democrática" siga avançando na luta contra a narcoguerrilha no país. Mas acha que, para isso, a Colômbia deve ter uma política externa mais efetiva. Além disso, Benedetti justifica a manutenção do atual presidente por não enxergar na oposição um "messias" com carisma suficiente para assumir o governo do país. Segundo ele, os opositores do governo Uribe agem apenas "mecanicamente".

Abaixo, a íntegra da entrevista.

O projeto do referendo é saudável para a democracia da Colômbia? Em que medida a lei que permite uma possível reeleição de Álvaro Uribe pode ajudar o prejudicar o país?
Há pesquisas que mostram que entre 54% e 56% aprovam o referendo, o qual, para ter validade, teria de levar mais ou menos 7,5 milhões de pessoas às urnas (mais ou menos 25% dos habilitados a votar). Então, a partir dessas estatísticas, o referendo passaria e o presidente poderia ser candidato pela terceira vez. Em sua maioria, os colombianos querem que o presidente siga. Além disso, a lei permite que seja assim. Estamos fazendo tudo dentro da lei, dentro dos canais democráticos e apegados à essência da Constituição.

Primeiro porque se recorre a um número de assinaturas. São necessárias 1,5 milhões, e foram recolhidas 5 milhões. Depois, no Congresso, a proposta deve ser aprovada pela metade mais um dos congressistas. Depois, deve ir a um controle por parte da Corte Constitucional. E ainda deve ir às urnas, onde deve levar 25% das pessoas habilitadas a votar. E por fim há a campanha contra os outros candidatos à presidência da República. Estou falando de cinco ou seis passos com uma carga enorme dentro da democracia. Desse ponto de vista, tudo é legal, tudo é constitucional. E há os controles, as cortes para controlar essa situação.

Seria bom para a Colômbia no sentido de prolongar a segurança democrática. Você sabe que as Farc passam por um período difícil pelo qual nunca antes haviam passado. Além disso, o investimento estrangeiro subiu graças à confiança depositada no nosso país, permitindo que a economia pudesse ser reativada. Agora, do ponto de vista institucional, existe um "represamento" de novos líderes, ainda que eu não goste muito dos líderes que supostamente poderiam chegar à presidência da República.

Considerando as diferenças constitucionais entre os casos de Colômbia e Venezuela, é possível que um terceiro mandato coloque a imagem Uribe mais próxima da de Chávez?
Não. A diferença entre Hugo Chávez e Álvaro Uribe, entre Venezuela e Colômbia, é enorme. Na Colômbia, as três instituições básicas do Estado - Executivo, Legislativo e Judiciário - são respeitadas. Já na Venezuela, o Judiciário se misturou com o Executivo. Não existem diferenças dos poderes do Estado, nem muito menos no Legislativo, onde a oposição não tem nem mesmo uma só cadeira. Chávez controla tudo, inclusive ordenando investigações a órgãos autônomos, como as televisões. E ordena investigações direcionadas a membros da oposição, que acabam sendo presos ou saindo do país. Por isso a diferença em relação à Colômbia é grande. Aqui há uma quantidade de situações que deixa claro que os três poderes têm delimitações. Além disso, a Venezuela conta com o exército como braço político do Executivo, ao contrário da Colômbia. Sem falar que aqui há toda a liberdade de imprensa. Aqui, todos os escândalos foram publicados pelos meios de comunicação. Na Venezuela, os meios são proibidos de publicar o que vai de encontro ao presidente Chávez.

Em mais da metade dos países latino-americanos a reeleição foi aprovada pelos presidentes durante seus mandatos. Por que a prática da reeleição está se tornando comum na América Latina?
Sim, se tornou comum na América Latina. É só lembrar como o Brasil mudou a Constituição para eleger o presidente por um segundo mandato. O mesmo passou por Venezuela, Equador, Bolívia, Colômbia e Chile. Há uma espécie de "pandemia" que sacudiu a América do Sul no sentido de buscar a reeleição. Isso acaba convertendo cada um desses líderes em "caudilhos", controlando completamente a atividade política de cada um desses países. A Venezuela e Colômbia parecem ter formas parecidas de se fazer oposição. Ou seja, não existe oposição. Ela se dedica à parte "mecânica", não é capaz propor nada novo, não tem um messias com carisma para representá-la. Mas, sim, é uma "pandemia" que correu toda a América Latina no sentido de seguir reelegendo seus mandatários.

A polêmica do referendo pode contribuir para deixar a Colômbia mais isolada no cenário da Unasul?
Não, não creio. Qualquer pessoa que venha a suceder o presidente Uribe estaria de acordo com a posição de que os presidentes Chávez e Rafael Correa presidente do Equador não foram solidários com a dor causada pelas Farc, não foram solidários em ajudar a cuidar das fronteiras para deter essas pessoas. O partido mais importante que está na oposição, o Partido Liberal, apoiou irrestritamente o governo colombiano na crise com a Venezuela e Equador. Estão de acordo que Chávez e Correa são realmente presidentes que trataram as Farc a partir de um status político, quando nós as consideramos terroristas.

Por outro lado, é verdade que estamos completamente isolados no continente, isso ficou claríssimo na última reunião da Unasul. Ao mesmo tempo deve-se reconhecer que nossa política externa tem sido débil, e que temos um chanceler que deve estar aprendendo quais são os limites da Colômbia e as capitais dos países que fazem fronteira com a Colômbia. Alguém que tem sido inepto, ineficaz, pouco efetivo, bastante tonto. Precisamos de um chanceler que entenda o que realmente está acontecendo.

A possível reeleição de Uribe significa um desejo de se perpetuar no poder ou somente a continuidade de um projeto político?
Esta é uma pergunta bastante difícil de responder atualmente. Eu creio que em princípio trata-se de seguir com um projeto político que tem o objetivo de manter a segurança democrática e recuperar a soberania em vários municípios onde o Estado não era quem mandava. Quem mandava era a guerrilha ou havia ausência total do Estado. Atualmente, em todos os municípios da Colômbia o Estado está presente. Além disso, os sequestros diminuíram, assim como os ataques contra os municípios e os mortos causados pelos conflitos. Tudo isso diminuiu consideravelmente. E isso se deve à segurança democrática. Ainda falta muito, como o presidente reconhece, mas ele está trabalhando. Há de se harmonizar o país para torná-lo competitivo. E ele vem fazendo isso. Depois do Brasil, somos o segundo ou o terceiro país que mais recebe investimentos estrangeiros na América do Sul.

A oposição é capaz de fornecer um modelo alternativo e eficaz à política de Uribe?
Não. Não tem sido capaz de buscar uma plataforma programática alternativa. Não tem sido capaz de percorrer o país, de conversar com os cidadãos para que depois isso se reflita nas urnas. É uma oposição mecânica que faz uso de processos burocráticos para impedir o bom andamento do governo. É uma oposição que foca na forma, e não no conteúdo. É uma oposição que não vem saindo às ruas, não vem percorrendo ao país, não propõe nada. Agindo dessa forma, mecanicamente, muito possivelmente nas próximas eleições do Congresso, marcadas para o dia 14 de março de 2010, a oposição venha a ocupar apenas 20%, 25% das cadeiras. Isso me preocupa, pois sempre fui defensor das minorias.

Redação Terra