Abdullah Mohammed, 60, reza em uma mesquita na vila de Halabja Taza |
Sam Dagher
Do New York Times
A negligência é visível ao primeiro olhar. Uma piscina e uma quadra de basquete estão instaladas no limite de Halabja Taza, uma cidadezinha arruinada e recoberta de poeira no Curdistão, uma região semiautônoma do Iraque.
Mas a piscina está vazia, desprovida de seus azulejos, e serve ao menos em parte como depósito de luxo. Os aros da quadra de basquete foram roubados há bastante tempo. Piscina e quadra eram parte de um projeto de embelezamento que data da eleição legislativa de 2005, uma breve dose de atenção que parece ter passado tão rápido quanto a votação.
E a mesma coisa voltou a acontecer este ano, quando as autoridades tentaram conquistar uma vez mais o apreço do eleitorado de Halabja Taza ao pavimentar algumas ruas antes das eleições presidenciais e parlamentares do Curdistão, que aconteceram em julho.
Mas simples gestos não são o que a maioria dos moradores locais desejam. Eles só querem voltar para casa, para as aldeias de que foram expulsos, destruídas na longa guerra entre Iraque e Irã nos anos 80 ou atacadas por gás e demolidas durante a infame campanha Anfal de Saddam Hussein contra a rebelião curda.
Os aldeões foram reacomodados em lugares como Halabja Taza, conhecidos como mujama'at, ou cidades coletivas, para impedi-los de continuar apoiando os guerrilheiros curdos que então combatiam o governo central.
Embora a atenção mundial há muito seja atraída pelos milhões de iraquianos forçados a abandonar seus lares ou o país depois da invasão liderada pelos Estados Unidos, em 2003, a situação das pessoas que perderam seus lares em conflitos iraquianos anteriores parece ter sido esquecida.
Muitas dessas pessoas sobrevivem marginalizadas, e sentem muita raiva dos dois partidos que governam a região. Elas afirmam que os partidos dizem se preocupar com sua situação, mas só ajudam as pessoas que votam neles ou dispõem de "wasta", o termo local para alguém bem relacionado ou influente.
Em uma indicação da profundidade da insatisfação em Halabja Taza, no mês passado a população local não parecia nada gratificada quando um tribunal especial que julga os crimes do passado regime, em Bagdá, proferiu sentenças em um processo relacionado à remoção forçada dos curdos. "As coisas melhorariam se houvesse mais justiça", disse Abdullah Mohammed, 60 anos.
Mohammed tem levado uma vida nômade desde que sua aldeia foi demolida pelo governo, em 1989. Ele, a mulher e 12 filhos deixaram outra cidade coletiva três anos atrás, porque ela não recebia água suficiente, e vieram para Halabja Taza. Sobrevivem com uma pensão mensal de US$ 135 que ele recebe, e com os salários de dois de seus filhos como policiais.
A cidade foi criada originalmente em 1989 como uma coleção de galpões com coberturas de lona. A maioria das pessoas trazidas para cá em caminhões, na época, provinham de aldeias em torno da cidade, nas quais cinco mil curdos morreram como resultado de ataques com gás venenoso pelo regime iraquiano, em 1988.
Localizada entre a cidade de Halabja e Sulaimaniya, Halabja Taza levava inicialmente o nome de Halabja Saddam, em um gesto de crueldade nada sutil. O nome foi mudado depois que os curdos conquistaram certa autonomia, sob a proteção dos Estados Unidos e da comunidade internacional, ao final da guerra do Golfo Pérsico, em 1991.
Desde então, a comunidade se expandiu e hoje abriga cerca de nove mil casas, a maior parte das quais barracos de barro ou estruturas de tijolos inacabadas e privadas de alguns dos serviços urbanos mais básicos. Os moradores afirmam que a água corrente funciona mais ou menos uma vez a cada 10 dias.
A maioria das famílias que vive em Halabja Taza provém de Tawila, um aldeia na fronteira iraniana que foi destruída por um bombardeio do Irã em 198, no início da guerra entre Irã e Iraque.
Ainda que algumas pessoas tenham retornado posteriormente a Tawila e reconstruído suas casas com o dinheiro de indenizações pagas pelo governo, foi concedida prioridade aos partidários da União Patriótica do Curdistão e ao Partido Democrata do Curdistão, as duas agremiações que governam a região.
"Os dois partidos não fizeram muito, em termos gerais, mas é possível conseguir alguma coisa se você tiver wasta", diz Fadhil Hama-Salim, 41 anos, um dos poucos moradores a retornar a Tawila. Parada à porta de sua casinha, em Halabja Taza, Gulzar Abdul-Khaliq, 50 anos, ainda recorda o dia em que fugiu de Tawila, em 1981. Ela havia acabado de ter um bebê. "As bombas iranianas choviam sobre nós", diz.Inicialmente, sua família se instalou em Halabja, a oeste de Tawila. De lá, fugiram de novo, para Sirwan, ao norte, quando Halabja foi atacada com gás venenoso, em 1988. No mesmo ano, forças do governo iraquiano bombardearam Sirwan, e a família teve de se transferir uma vez mais, para Sulaimaniya.
Em 1989, o governo do Iraque arrebanhou muitos dos refugiados que estavam instalados em Sulaimaniya, e os reacomodou em locais como Halabja Taza. Abdul-Khaliq e seus 11 filhos vivem aqui desde então. Depois que o marido dela morreu, a família subsiste com os bicos que seus filhos conseguem encontrar em Sulaimaniya, e com a vida dos tradicionais calçados curdos conhecidos como klash.
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times