Agricultores observam plantação de ópio no Afeganistão |
Richard A. Oppel Jr.
Do New York Times
Ainda que a safra afegã de ópio tenha caído pelo segundo ano consecutivo, afirma um novo relatório da ONU, existem indícios cada vez mais fortes de que algumas forças insurgentes afegãs estão se transformando em "cartéis das drogas", semelhantes aos grupos guerrilheiros que combatem o governo da Colômbia e veem os lucros propiciados pelas drogas como mais importantes que a ideologia.
A indústria dos narcóticos ilícitos no Afeganistão é bilionária e financia boa parte da insurgência no país, e a influência do dinheiro das drogas é um dos motivos para que o governo afegão seja considerado como um dos mais corruptos do mundo.
A produção afegã de ópio, matéria-prima da heroína, caiu em 10% este ano, e a área usada para o cultivo de ópio se reduziu em 22%, de acordo com um relatório do Serviço de Combate a Drogas e Crimes da ONU, cujo lançamento oficial aconteceu hoje.
A safra menor, atribuída em larga medida a forças de mercado e esforços intensificados de interdição, é uma das poucas boas notícias para os Estados Unidos e a coalizão de governos ocidentais, cujas tropas e contribuintes ajudam a sustentar o que até mesmo os comandantes militares norte-americanos descrevem como uma situação em deterioração, à medida que a guerra se aproxima de seu nono aniversário.
Mas embora funcionários da ONU tenham sugerido que os guerrilheiros que traficam ópio estejam menos envolvidos com a ideologia do Talibã, reportam também que mais de 10 mil toneladas de ópio ilegal - avaliadas em bilhões de dólares e capazes de atender à demanda mundial por pelo menos 10 anos- estão armazenadas em locais secretos do país. Eles se dizem preocupados com a possibilidade de que parte desses estoques se tornem uma "bomba-relógio", sob o controle de pessoas que poderiam usar a substância para pagar por "cenários sinistros".
O ópio é fácil de contrabandear e armazenar e "uma forma ideal de financiamento ao terrorismo", disse Antonio Maria Costa, diretor da agência da ONU, em entrevista. "É um montante imenso demais para que possamos permitir que chegue às pessoas erradas". Ele apelou aos serviços de inteligência que investiguem a localização dos estoques.
Funcionários norte-americanos estavam preocupados com a possibilidade de que os grandes estoques sirvam para reforçar os recursos da guerrilha, a despeito de recentes operações militares com o objetivo de restringir o fluxo de dinheiro das drogas para o Taleban e outros grupos insurgentes, disse um importante funcionário do governo norte-americano. Ele não quis que seu nome fosse revelado, mas disse que os estoques aparentemente estão no Afeganistão e sob o controle de gangues cuja ocupação principal é o tráfico de drogas, em lugar de estarem sob o controle de "grupos terroristas".
Mas, presumindo que o ópio possa ser contrabandeado para fora do país, disse o funcionário, "a verdadeira questão é que, a despeito do impacto que possamos ter em curto prazo em termos de produção, distribuição e outros aspectos da rede de drogas, esse nível de estoque implica em que os recursos financeiros disponíveis continuarão estáveis".
Soldados norte-americanos e representantes do governo afegão em algumas áreas do sul do país nas quais o ópio prolifera dizem que a insurgência nesses locais parece ser cada vez mais influenciada por lealdades financeiras, e não por adesões religiosas ou ideológicas. Os guerrilheiros estão começando a tributar e extorquir dinheiro de proteção dos traficantes, e também passaram a refinar ópio diretamente. As estimativas quanto à receita anual da insurgência com as drogas em todo o Afeganistão variam, imensamente, de US$ 70 milhões a US$ 500 milhões, de acordo com um recente relatório do Congresso norte-americano.
"Um casamento de conveniência entre os insurgentes e grupos criminosos está dando origem a novos cartéis das drogas ligados ao Taleban, no Afeganistão", disse Costa. Como em algumas outras nações, a exemplo da Colômbia e Birmânia, afirmou a agência em comunicado, "o comércio de drogas no Afeganistão deixou de ser uma fonte de recursos para a insurgência e se tornou uma atividade-fim".
Nos últimos anos, o Afeganistão vem respondendo por 90% do ópio produzido no mundo. Funcionários da ONU afirmaram que o declínio deste ano deriva em larga medida da forte queda no valor do ópio, devido ao imenso excedente de produção; dos altos preços de algumas outras safras no ano passado, que convenceram agricultores a mudar o que plantavam; e de ações mais agressivas de combate aos narcóticos por parte de forças afegãs e ocidentais.
Eles alegam que não é certo que o declínio continue, especialmente se a distância entre os preços do ópio e de outras safras voltar a se ampliar para os níveis anteriores. Apenas dois anos atrás, por exemplo, um hectare de ópio propiciava 10 vezes mais lucros que um hectares de trigo, mas agora essa disparidade se reduziu a três para um.
"Uma correção de mercado está em curso, e as forças policiais intensificaram sua pressão", disse Costa. "Agora, as forças militares e as econômicas estão pressionando na mesma direção".
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times