"Mereço a anistia", diz imigrante ilegal brasileira nos EUA

13 de agosto de 2009 • 14h43 • atualizado às 14h45

Ligia Hougland

Direto de Washington


Juliana D., 32 anos, vive nos Estados Unidos como imigrante ilegal há mais de cinco anos. Em maio de 2004, ela saiu de São José dos Campos, em São Paulo, para ir visitar uma amiga que estava estudando inglês em Nova York. Apaixonou-se pela vida nova-iorquina e resolveu ficar, mesmo sabendo que, para isso, seria preciso enfrentar os desafios que envolvem viver na clandestinidade. Juliana conta ao Terra como é a realidade de um residente não legalizado nos EUA.

Como é o dia a dia de um imigrante ilegal? Você tem medo de ser pega?
Há sempre um pouco de medo. Por exemplo, quando me falaram que você queria me entrevistar, a primeira coisa que perguntei era se você não trabalhava para a imigração. Mas, de modo em geral, é tranquilo. O serviço de imigração nunca faz inspeção nos locais de trabalho.

É fácil conseguir emprego sem ter documentação?
Nunca tive dificuldade em conseguir um emprego. Não pedem nada de documento. Trabalho em um restaurante e também como professora de ginástica ocupacional. Não tenho número de Social Security (Previdência Social dos EUA), mas sempre paguei impostos com minha Tax Payer ID (identidade de contribuinte fiscal).

Qual é a parte mais difícil da vida nos Estados Unidos?
O sistema de saúde é muito ruim. Não tenho seguro. Ir ao médico custa caro e demora bastante para conseguir fazer uma consulta.

Qual é a melhor parte da vida nos Estados Unidos?
A segurança. Posso passear de bicicleta. Levar meu laptop a qualquer lugar, sem medo de ser assaltada. Também gosto que há muitas opções em termos de cultura, shows e museus. E muitas dessas atracões são de graça.

Quais são as suas perspectivas ao médio prazo? Tentar legalização? Voltar para o Brasil?
Quero me casar com um cidadão americano. É a maneira mais rápida de se legalizar. Adoro Nova York e amo viver aqui. Mas gostaria de poder visitar o Brasil umas duas vezes por ano.

Existe algum comércio no sentido de casamentos arranjados para obter cidadania americana?
Sim, existem alguns escritórios que oferecem este tipo de serviço. Mas a maioria das pessoas combina com alguém que já conhece. Eu já estava com quase tudo certo para casar com um conhecido que é cidadão americano. Ele me cobraria US$ 10 mil. Já tinha pago US$ 2 mil a ele. No final, a namorada dele ficou com ciúmes e não rolou. Geralmente estes tipos de casamento custam entre US$ 10 mil e US$ 15 mil.

Barack Obama disse que a reforma da imigração não vai acontecer até 2010. Você ficou decepcionada ao saber disso?
Eu estava torcendo para o Obama ser eleito. Tinha muita esperança que ele fosse oferecer uma anistia igual à oferecida em 1986. Mas entendo que ele tem muito pepino para resolver antes de cuidar disso. Acho que mereço receber anistia. Pago impostos, trabalho, respeito a lei.

O que você acha dos americanos que são contra a legalização dos residentes ilegais, pois acham que a economia está ruim e o mercado de trabalho está difícil mesmo para os cidadãos dos Estados Unidos?
Ainda tem emprego para todo mundo. E a gente os imigrantes ilegais só ajuda a economia americana. Custamos barato e somos consumistas.

Depois de cinco anos vivendo nos EUA e sem pisar no Brasil, você se sente agora mais americana do que brasileira?
Não me sinto americana nem brasileira. Sinto que sou uma nova-iorquina.

Redação Terra
 
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