Adiamento de reforma imigratória dos EUA frustra ativistas

13 de agosto de 2009 • 14h44 • atualizado às 14h44
No final de julho, manifestantes protestaram em Nova York contra detenção e deportação de imigrantes ilegais
No final de julho, manifestantes protestaram em Nova York contra detenção e deportação de imigrantes ilegais
13 de agosto de 2009
AFP

Ligia Hougland

Direto de Washington


Quando o presidente americano, Barack Obama, declarou, na semana passada, que o projeto de reforma da imigração não será encaminhado para discussão no Congresso até 2010, ele surpreendeu os dois lados que atuam como ativistas na questão imigratória: republicanos da linha mais conservadora e imigrantes ilegais que vivem no país.

Em 2008, durante a campanha presidencial, Obama afirmou firmemente, e dezenas de vezes, que lidar com o problema dos mais de 10 milhões de estrangeiros em situação irregular nos Estados Unidos e reforçar as fronteiras do país estariam no topo da sua lista de prioridades, assim que fosse eleito. No entanto, até agora nada foi feito a este respeito. "Tenho muitos problemas nas mãos", justificou Obama, na segunda-feira, durante a Cúpula dos Líderes da América do Norte, no México.

A reforma migratória é motivo de grande controvérsia. No momento, o projeto proposto e liderado pelo senador democrata de Nova York, Charles Schumer, que preside o Subcomitê de Imigração do Senado dos EUA, pretende definir que, acima de tudo, a imigração ilegal não deve ser recompensada com a concessão de benefícios e regulamentação a estrangeiros ilegais que não se registrem dentro de um curto prazo que será estipulado. Os negócios que empregarem funcionários sem autorização para trabalho serão punidos com multas pesadas. Além disso, as fronteiras terão de ser severamente controladas por meio de nova tecnologia, infraestrutura e mais pessoal.

Legalização x expulsão
Grupos conservadores, como o FAIR (Federation American Immigration Reform) não disfarçam que querem ver os estrangeiros em situação ilegal fora do país. "Estamos convencidos de que a anistia somente servirá para ampliar a magnitude do problema. Não tem motivo para recompensar quem infringiu a lei", afirma Jack Martin, diretor de projetos especiais da FAIR. Esta entidade tem como primeiro princípio que "qualquer nível de imigração ilegal é inaceitável".

O governo americano é vago quanto à sua posição sobre o assunto, mas a maioria dos defensores dos direitos para imigrantes ilegais acreditam que Obama está do seu lado e vai garantir a legalização dos estrangeiros que já trabalham no país há pelo menos cinco anos. Emma Lozano, fundadora do Centro Sin Fronteras, sediado em Chicago, apoiou a candidatura de Obama e, agora, quer ver resultados concretos e imediatos. "Se Obama não agir logo, precisamos ser mais agressivos", diz ela.

A Brookings Institution, instituição sediada em Washington, acredita que o governo está definindo uma agenda realista. "O presidente parece comprometido com um programa de legalização dos imigrantes para que estes possam obter uma autorização de trabalho. Mas, sem dúvida, isso é uma das partes mais controversas da proposta, especialmente devido à recessão", fala Audrey Singer, especialista em assuntos de imigração da Brookings Institution. Muitos especialistas argumentam que este é o momento ideal para um programa de legalização, pois com a economia enfraquecida, a população ilegal está diminuindo.

"Em 1986, cerca de três milhões de imigrantes ilegais receberam anistia com a promessa do governo de implementar, a partir de então, medidas para por um fim na entrada de estrangeiros ilegais no país. As medidas foram ineficazes, e a anistia resultou no aumento do fluxo de imigrantes ilegais. Agora temos de dar empregos para os cidadãos americanos", fala Ira Mehlman, representante da organização FAIR.

Segundo um novo relatório do Centro para Estudos sobre Imigração (CIS, sigla em inglês), uma organização independente, o número de imigrantes ilegais caiu de 12,5 milhões, em 2007, para 10,8 milhões, no primeiro trimestre de 2009. O relatório também indica que, nos últimos dois anos, o número de imigrantes ilegais diminuiu cerca de um terço em comparação com o que foi observado no início desta década.

O fim de um sonho
Daniel G., é argentino e chegou em Nova York a procura de trabalho, mas com visto de turista, no ápice da crise econômica na Argentina, em 2001. Agora, ele diz que pretende voltar ao seu país natal. Nos últimos oito anos, Daniel trabalhou no setor de construção, como florista e garçom. Agora ele está cansado da vida de trabalhador ilegal. "Se houvesse uma reforma que legalizasse quem trabalha e paga impostos há mais de cinco anos, eu ficaria nos Estados Unidos. Mas não acredito em políticos", fala ele, desiludido.

"Temos de reconhecer a função dos residentes ilegais na economia e no mercado de trabalho dos Estados Unidos e enviar a mensagem de que somos uma sociedade humana. Mas esta é uma mensagem difícil de ser dada durante tempos econômicos desfavoráveis", contemporiza Singer.

Na semana passada, Obama brincou que um motivo para a oposição ter interesse em barrar a legalização dos imigrantes em situação irregular é por que "há muitos membros do Partido Republicano que acreditam que sou um imigrante ilegal."

Alguns opositores do presidente democrata divulgam o mito de que Obama, filho de pai cidadão do Quênia e mãe cidadã americana, teria nascido no país paterno e, portanto, não estaria qualificado à presidência, segundo a legislação dos EUA.

Redação Terra
 
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