Paris: médico de bonecas mantém pronto-socorro de recordações

05 de julho de 2009 • 09h04 • atualizado às 12h39

Emiliano Capozoli

Direto de Paris


A pequena loja de monsieur Launay fica no número 114 da avenida Parmentier, no 11° arrondissement de Paris. Dali, seguindo um pouco mais pela rua de La Roquette, o visitante vai sair na praça da Bastilha. Foi ali que terminou um ciclo fundamental da história francesa, com prisões e guilhotinas. A pequena loja de Launay é um outro começo. Com suas mãos de artesão, ele refaz uma história que está nas bonecas que conserta, uma espécie de pronto-socorro das recordações. Mergulhado entre pedaços de corpos em plástico e porcelana e ao som da 101.1 FM, a rádio clássica de Paris, podemos encontrar Henri Launay, que desde 1964 decidiu cuidar da "saúde" de bonecas e ursos de pelúcias. Desde então, não faltaram "pacientes" na sua sala de espera.

Parisiense, 82 anos, monsieur Launay é eletricista de formação, mas logo deixou de lado os fios de cobre para se dedicar a uma pequena loja onde começou a consertar utensílios domésticos. Mas logo perdeu o encanto pelo negócio e foi aí que decidiu viver entre bonecas. "Sempre consertei objetos para meus vizinhos, inclusive brinquedos, mas a paixão pelas bonecas me despertou para outro mundo", conta. Sentado em um banco de madeira atrás de uma mesa coberta de peças o olhar de monsieur Launay entristece e logo vem uma queixa. "De alguns anos para cá tenho tido um pouco menos de trabalho. O mundo eletrônico tomou o lugar das bonecas cedendo espaço a brinquedos mais modernos e as pessoas também não têm mais o hábito de reparar bonecas. Preferem jogar fora e comprar outra nova", lamenta. Apesar dessa mudança, explica que nunca lhe faltou trabalho.

Quem passa pela Parmentier, número 114, no 11° arrondissement de Paris, não consegue deixar de parar diante da vitrine pelo menos por uns minutos para admirar a coleção de bonecas dispostas atabalhoadamente umas sobre as outras à espera de seu dono ou de um comprador que se encante com uma delas. É possível encontrar "Marias Antonietas" em porcelana, bebês com fisionomias tão perfeitas que parecem verdadeiros, e uma infinidade de outras bonecas que hoje já não se veem mais nas lojas de brinquedos. Dentro da loja avista-se uma sala cheia de cabeças, olhos, pernas, cabelos e braços que se confundem. Nas paredes estão fixadas reportagens sobre as suas bonecas publicadas em jornais do mundo inteiro. Nas fotos seu rosto se mistura aos delas.

Mas a magia de monsieur Launay vai muito além de consertar as bonecas e os bichinhos de pelúcia. Por trás desse dom artístico ele recorre a sua formação, pois a antiguidade de suas "freguesas" dificulta a substituição de peças reduzindo o seu estoque. Por conta disso, ele guarda cuidadosamente um empilhado de braços, pernas, cabelos e olhos. "Com a experiência que tenho, somada ao meu porão cheio de coisas que reúno lá no fundo, faz com que eu não precise comprar mais nada." O improviso não coloca em jogo a qualidade do seu serviço. "Sou mais exigente do que meus clientes. Quando entrego um trabalho ele tem que estar perfeito."

Naquela manhã quente de verão, quando conversamos por horas, ele estava vestido com uma calça cinza presa por um cinto marrom, uma camisa listrada de branco e salmão claro, que cobria uma regata branca. "É preciso estar bem apresentável para meus clientes", conta com um sorriso tímido. Aliás, clientes, que diferentemente do que imaginamos, são na maioria adultos e velhos. "O que mais conserto aqui são bonecas de colecionadores e heranças de famílias. Os jovens vêm aqui, muitas vezes, só para trazer uma relíquia de gerações passadas", conta. Segundo Launay, já passaram por suas mãos mais de 30 mil bonecas, das quais algumas chegam a custar mais de 35 mil euros. "Só não conserto Barbies. Elas não têm conserto", completa.

Segundo o "único médico de bonecas de Paris", os problemas mais comuns são elásticos internos que estouram com o tempo ou membros do corpo que caem e o mais comum é elas chegarem com os olhos arrancados. Apaixonado não só por bonecas e ursos de pelúcia, Launay, em seus horários de folga, percorre as ruas de Paris com sua Harley Davidson. "Não consigo mais dirigir carro no meio desse trânsito caótico dessa cidade". Ele utiliza sua moto para ir jogar ou apitar campeonatos de tênis de mesa, esporte que pratica há mais de 40 anos. Como um bom francês, ele não gosta de deixar dúvida em nada. "Nós profissionais não jogamos pingue-pongue. Quem faz isso são as crianças, nós jogamos tênis de mesa", frisa.

Pai de dois filhos e avô de dois jovens de 20 e 23 anos, ele lamenta não ter visto os netos brincando de bonecas como gostaria. "Eles ficam mais na frente do computador, na internet, do que qualquer outra coisa", explica. Aposentado, mas ainda em atividade, Henri Launay garante que não conseguiria ficar sem fazer nada em casa. "Deixei de lado a loja que tinha e agora me dedico às bonecas. E com elas vou até o fim da minha vida. Se eu ficar em casa sem fazer nada, acho que fico louco", afirma.

Sua clínica fica aberta de terça à sexta-feira. O trabalho começa às 9h30. Às 12h em ponto, ele fecha as portas e sai para almoçar em sua casa, a alguns passos dali. Depois de duas horas ele reabre sua clínica e mergulha, novamente, no mundo da magia, onde suas bonecas e bichos de pelúcia ganham vida e, quem sabe, possa existir entre eles uma forte cumplicidade. Sempre com alguma peça nas mãos, Launay não tira os olhos do relógio. Seu horário de almoço está chegando, e mais do que isso, o tempo combinado para a entrevista já foi ultrapassado. Assim como a de todo francês, sua agenda é lotada de encontros. E ele parte. Alguns passos à diante, para e volta. "Você pode me mandar essa reportagem? Não vou poder vê-la no site. Não mexo com internet. Trabalho com bonecas".

Sapatos de couro e detalhes em ouro
Dentro do seu "consultório médico" meio bagunçado, Henri Launay não aparenta trabalhar com objetos de grandes valores. Estantes cheias de pernas, gavetas carregadas de olhos e caixas transbordando cabeças formam o cenário. Mas atrás disso tudo, ninguém imagina o que pode estar. "Tenho clientes que colocaram suas bonecas no seguro". Estranho? Talvez, se elas não chegassem a custar até 35 mil euros (quase R$ 75 mil).

As mais caras são aquelas "biscuit". Feitas de porcelana e cozidas duas vezes no forno. Sempre com roupas costuradas à mão, seus sapatos são de couro e seus cabelos de verdade. "Para mim elas são mais do que bonecas, são obras de arte". Um detalhe, que para os leigos passa despercebido, mas para olhos clínicos é fundamental: o sorriso da boneca. É preciso ter os dentes aparentes. Assim, seu rosto fica mais bonito e ela mais valorizada. No entanto, ter a orelha furada pode fazer com que seu preço despenque. "Isso fere a porcelana", conta.

"Já trabalhei com bonecas dos anos de 1880. Essas são de colecionadores ou relíquias de famílias". O que se destaca em uma boneca com essa idade é sua vestimenta, muitas vezes cheia de detalhes que podem até ser feitos de ouro. Se for preciso, Launay deixa de lado as peças de porcelana e coloca a mão na agulha. "Até costuro roupas rasgadas e sapatos furados", diz.

Redação Terra
 
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