Irã: rosto da oposição, Moussavi tem ares de líder acidental

18 de junho de 2009 • 15h19 • atualizado às 20h22
O ex-primeiro-ministro reformista Mir Hossein Moussavi, principal concorrente de Ahmadinejad, vota em Teerã na eleição que ele acusa ter sido fraudada ... Foto: AP
O ex-primeiro-ministro reformista Mir Hossein Moussavi, principal concorrente de Ahmadinejad, vota em Teerã na eleição que ele acusa ter sido fraudada por seu oponente
12 de junho de 2009
Foto: AP

Robert Worth

The New York Times


Seus seguidores agora o chamam de "o Gandhi do Irã". Sua imagem é carregada por sobre a multidão durante as imensas manifestações oposicionistas que vêm abalando o Irã nos últimos dias, e seu nome é entoado em versos ritmados que invocam os mais sagrados mártires do Islã.

Mir Hossein Moussavi se tornou a face pública do movimento, o homem que os manifestantes consideram como verdadeiro vencedor da contestada eleição presidencial iraniana.

Mas ele representa de muitas maneiras um líder acidental, uma figura moderada consagrada no último minuto para representar a insatisfação popular contra a presidência de Mahmoud Ahmadinejad. Não se pode de forma alguma considera-lo um liberal à maneira ocidental, e não se sabe ao certo até que ponto ele estaria disposto a ir para defender as esperanças quanto à criação de uma democracia ampla, que ele veio a representar.

Moussavi, 67 anos, é um membro da elite da revolução que terminou se tornando oposicionista, e os motivos dele para tanto continuam obscuros. Ele era próximo ao líder da revolução islâmica do Irã, mas não se entende bem com o atual líder supremo do país.

Algumas figuras proeminentes aderiram à sua causa, entre os quais o ex-presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani. Assim,.não está claro até que ponto essa batalha reflete a resistência popular às políticas de linha dura de Ahmadinejad, e até que ponto ela sinaliza uma simples disputa interna de poder.

Moussavi e sua mulher, que desempenhou papel chave em sua campanha, vêm sofrendo imensa pressão para que aceitem os resultados do pleito, diz um parente próximo do casal, que pediu que seu nome não seja mencionado. O parente não especificou que espécie de pressão.

"Os dois estão sendo muito corajosos e já esperavam que a pressão crescesse", disse o parente. "Moussavi diz que tomou um caminho sem volta, e que está pronto a fazer sacrifícios pela causa."

Moussavi iniciou sua carreira política como parte da linha dura, e como favorito do arquiteto da revolução, o aiatolá Ruhollah Khomeini. Ainda que sua relação com o atual líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, há muito seja antagônica, a posição do candidato oposicionista como parte da elite o faz hesitar quanto a desafiar de maneira direta as instituições centrais da república islâmica.

Ele foi um dos primeiros proponentes do programa nuclear iraniano, e nos anos 80, quando primeiro-ministro, aprovou a aquisição de centrífugas no mercado negro nuclear, de acordo com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

No entanto, como muitas das figuras fundadoras da revolução, ele veio a acreditar que o radicalismo incendiário dos primeiros dias do movimento precisa ser moderado, em uma era de paz e de construção das instituições do Estado, dizem pessoas que o conhecem. Alguns observadores vêem um significado simbólico em sua decisão de fazer da imensa demonstração realizada na segunda-feira em Teerã uma marcha da praça Enghelab (revolução) para a praça Azadi (liberdade).

"Ele é um filho híbrido da revolução", disse Shahram Kholdi, professor da Universidade de Manchester e autor de estudos sobre a evolução política de Moussavi. "Tem um compromisso para com os princípios islâmicos, mas também abriga aspirações progressistas".

Nos últimos dias, Moussavi vem sendo propelido inexoravelmente a um confronto que acarreta riscos terríveis para ambos os lados. Caso as autoridades utilizem a força em larga escala a fim de debelar os protestos, serão capazes de esmagar o movimento.

Mas também criariam mártires e uma ira popular mais profunda, ampliando as manifestações e causando uma ameaça mais ampla ao sistema que Moussavi tem a esperança de preservar.

A firmeza que ele demonstrou desde que os resultados da eleição foram anunciados, no sábado, ajudou a solidificar seu papel como líder e animou seus seguidores.

"As exigências do povo são o objetivo mais importante da república islâmica¿, disse Moussavi no fechamento das urnas, na noite de sexta-feira, em um pronunciamento interpretado, em geral, como um disparo de advertência contra a liderança religiosa iraniana, e como alerta de que levaria sua causa a público caso houvesse fraude eleitoral.

Moussavi de muitas maneiras representa uma figura improvável de liderança. Calmo e deliberado, ele fala de maneira soporífica, e até mesmo os seus mais ardorosos defensores reconhecem que lhe falta carisma. Moussavi passou duas décadas fora da vida pública, dedicado à arquitetura e a arte, e prefere ficar em casa e assistir filmes. Durante muitos anos, viveu à sombra de sua mulher, a professora universitária e artista Zahra Rahnavard.

Mas muita gente o descreve, também, como uma figura resoluta cujas difíceis experiências como primeiro-ministro do Irã nos anos 80 o ensinaram a não temer decisões arriscadas.

"Ele era um artista, um professor universitário sem experiência prática, mas conseguiu, sob as mais difíceis condições, governar um país de 35 milhões de habitantes, à base de tentativa e erro", disse Muhammad Atrianfar, que serviu como primeiro-ministro assistente no governo de Moussavi e mais tarde se tornou jornalista. "O maior resultado do processo, para ele, foi a confiança que adquiriu em função disso."

Como primeiro-ministro, ele costumava entrar em choque com Khamenei, que era presidente na época. As disputas envolviam principalmente questões econômicas - Moussavi favorecia maior controle do Estado sobre a economia do país, que estava em guerra, e Khamenei defendia a desregulamentação.

O presidente era mais moderado quanto a certas questões e, diferentemente de Moussavi, era ocasionalmente repreendido por Khomeini, então o líder supremo. Nesse sentido, as posições de ambos se inverteram, embora a animosidade entre eles persista.

Depois de renunciar ao posto de primeiro-ministro, em 1989, Moussavi se manteve envolvido na política, como parte do Conselho de Expediência iraniano. Mas a maior parte do seu tempo passou a ser dedicada à arquitetura e pintura. Suas principais influências incluem o arquiteto italiano Renzo Piano, disse um parente próximo.

"Ele utiliza certos elementos da arquitetura japonesa moderna, e do pós-modernismo norte-americano, e os coloca no contexto da arquitetura iraniana", diz o parente.

Ainda que seja profundamente religioso, Moussavi parece ter posições sociais relativamente liberais. Sua mulher é uma conhecida professora de ciência política e fez campanha ao seu lado, realizando discursos e concedendo entrevistas coletivas independentes.

Quando eram mais jovens, ele ocasionalmente era apresentado como "o marido de Zahra Rahnavard". Sua mulher prometeu que, caso eleito, ele promoveria os direitos da mulher e indicaria "pelo menos três mulheres" para o gabinete.

A filha mais velha do casal é física nuclear, e a mais nova prefere não usar o chador islâmico, e os pais não se incomodam, diz o parente.

"Jamais houve qualquer compulsão na família", acrescentou o parente.

Nos últimos anos, Moussavi ficou profundamente indignado com os excessos cometidos pela polícia moral e diante de decisões do governo quanto ao fechamento forçado de jornais, diz o parente.

Ele decidiu se candidatar à presidência no começo do ano, para salvar o Irã do que define como "políticas destrutivas" de Ahmadinejad. Mas foi há apenas algumas semanas que começou a surgir um movimento popular em apoio a ele. À medida que a campanha se aproximava do final, Moussavi começou a responder aos ataques retóricos do presidente com linguagem igualmente forte.

"Quando o presidente mente, ninguém o confronta", disse Moussavi, durante o debate final entre os candidatos. "Sou um dos revolucionários, e estou me pronunciando contra a situação que ele criou. Ele encheu o país de mentiras e hipocrisia. Não tenho medo de me pronunciar. Lembrem-se disso."

Por muito tempo, Moussavi era comparado de maneira desfavorável a Mohammad Khatami, o carismático líder religioso reformista que foi presidente de 1997 a 2005. Mas muita gente diz, agora, que durante os recentes protestos Moussavi resistiu ao governo com uma firmeza que Khatami jamais demonstraria.

"Ele não tem a mente tão aberta quanto Khatami", disse o analista político Nasser Hadian. "Trata-se de um homem de ação, essencialmente."

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

Redação Terra
 
Enviar para amigos
Fechar por:
Enviar para amigos
Fechar por:

Imprimir

Fechar
Mais vistos

Notícias

  1. Carregando...
leia mais notícias »