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Fotógrafo de cena histórica lembra como registrou herói anônimo

05 de junho de 2009 09h19 atualizado em 08 de junho de 2009 às 13h48

Imagem de homem barrando o caminho de uma fileira de tanques entrou para a história. Foto: Jeff Widener/AP

Imagem de homem barrando o caminho de uma fileira de tanques entrou para a história
Foto: Jeff Widener/AP

Renato Beolchi e Marcos Chavarria

Direto de Porto Alegre


Há 20 anos, o fotógrafo americano Jeff Widener teve que se passar por um turista para conseguir entrar em uma China que fervilhava. Alguns dias antes da viagem, estudantes chineses tomaram as ruas da capital pedindo uma maior abertura democrática do governo. Ele era editor fotográfico da agência de notícias AP no sudeste asiático e havia sido pautado para fazer fotos dos protestos. Dias depois, Widener fotografou uma cena que se tornaria uma das mais emblemáticas imagens do século XX: um homem, sozinho, barrava o caminho de uma fileira de tanques.

A identidade do homem que ficou conhecido mundialmente como "Tank Man", jamais foi conhecida, bem como seu destino. Hoje morando no Havaí, Widener - fã confesso do brasileiro Sebastião Salgado - conversou com exclusividade com o Terra e relembrou as circunstâncias em que conseguiu registrar a histórica imagem. Na entrevista a seguir, ele fala sobre a dificuldade para entrar na China, como um jovem estudante americano o ajudou a fotografar o momento histórico e qual seria o destino do "Tank Man" em seu mundo ideal: "presidente da China livre".

O senhor poderia descrever as circunstâncias em que fez a foto do "Tank Man"?
Em 1989 eu era editor fotográfico da Associated Press no sudeste asiático em Bangcoc. Minha função era cobrir os maiores acontecimentos da região. Quando os eventos em Pequim começaram a esquentar, minha sede em Nova York pediu que fosse para a China e fotografasse os protestos na Praça da Paz Celestial.

O governo chinês havia negado meu visto, então fui para Hong Kong e reservei um pacote numa agência de turismo. Disse à Embaixada americana que havia perdido meu passaporte, porque havia muitos carimbos de coberturas jornalísticas nele. Assim que eu cheguei na China, minha preocupação maior era entrar no país com o equipamento fotográfico.

Assim que me aproximei da alfândega, percebi uma certa confusão criada por uma idosa. Ela carregava uma galinha viva e os oficiais aduaneiros estavam discutindo com ela. Enquanto todos discutiam, eu simplesmente passei com meu carrinho de bagagens pelos agentes e fui para a rua onde um táxi me aguardava.

Depois de uma semana fotografando o protestos dos estudantes, eu quase morri na madrugada de 4 de junho, durante um enfrentamento entre manifestantes que puseram fogo em um pequeno blindado do Exército. Enquanto fazia fotos naquele caos, eu notei que o flash da minha câmera estava muito lento para recarregar. Eu estava conseguindo tirar apenas uma foto por minuto, o que era extremamente doloroso e frustrante.

Em determinado momento, quando posicionei a câmera junto ao meu rosto, fui atingido por uma grande explosão. Uma pedra voou e atingiu a câmera em cheio que absorveu parte do impacto. Mesmo assim sofri uma concussão severa. Eu estava sangrando e desorientado. Peguei uma bicicleta e voltei para o escritório da AP em Pequim.

No trajeto, passei por ônibus incendiados e manifestantes que atiravam pedras. À distância, pude ver disparos de metralhadores de grosso calibre na Praça da Paz Celestial. Meu filme só poderia ser retirado da máquina na sala escura porque a pedrada arrancou o flash, quebrou o espelho e entortou o disparador de titânio. Eu tive sorte de estar vivo.

No dia seguinte, chegou uma mensagem do escritório da AP de Nova York. "Não queremos que ninguém se arrisque desnecessariamente, mas se alguém pudesse fazer fotos da Praça da Paz Celestial ocupada nós agradecemos." Então eu peguei minha bicicleta e fui para o Beijing Hotel. Eu estava muito assustado porque eu estava machucado e com uma gripe muito forte.

Quando cheguei ao hotel, vi muitos seguranças. Eu tinha que pensar rápido, então abordei um estudante americano chamado Kirk ou Kurt. Ele estava usando uma camisa suja do Rambo, bermuda e chinelos. Eu fingi ser seu colega de quarto e pedi a ele que me deixasse entrar em seu quarto. Ele concordou, e de lá eu consegui uma boa vista da avenida Chang'an no 6º andar.

Eu fiz diversas imagens de mortos e feridos sendo carregados para hospitais. Tinham tanques e caminhões cheios de soldados. Depois Kirk me ajudou a subir no telhado do hotel, de onde eu consegui fazer as fotos da praça ocupada. Eu voltei para o quarto e acabei adormecendo. Tinha pedido que Kirk fosse atrás de mais filme. Ele voltou umas duas horas depois com um rolo de negativos Fujicolor ASA 100.

Acordei mais tarde com o barulho de tanques. Eu pude ver um homem na frente da coluna de tanques agitando sacolas de compras. Eu disse a Kirk que aquele sujeito estava estragando minha foto. Meu ferimento não me deixava pensar claramente. Kirk disse: "eles vão matá-lo". A cena estava acontecendo muito longe então eu troquei a lente por uma que duplica a imagem. Eu fiz três fotos. Apenas uma estava nítida. Kirk levou escondido o filme para o escritório da AP em Pequim e a foto foi transmitida para o resto no mundo. No dia seguinte a imagem estava na capa de quase todo jornal e revista do mundo.

Naquele momento você sabia que tinha testemunhado, e fotografado, uma cena histórica?
Eu estava machucado, então não tive plena consciência até uns dias depois, quando todo mundo disse que eu ganharia um prêmio Pulitzer. Fui finalista em 1990. Eu ganhei muitos mais prêmios naquele ano, incluindo o Chia Sardinia na Itália, Scoop Award na França, o National Headliner, o New York Press Club e o Overseas Press Club.

Foi a sua foto mais marcante? Que outra foto você destacaria na sua carreira?
Acho que podemos dizer com segurança que o "Tank Man" é a minha foto mais importante e não acredito que eu possa superá-la. Eu tenho uma outra imagem do Papa João Paulo II bocejando durante uma oração na Catedral de São Jorge em 1982.

Alguns fotógrafos que estavam no mesmo hotel em Pequim disseram que censores chineses invadiram seus quartos pouco depois do incidente dos tanques e confiscaram filmes. Você teve algum problema para esconder seu material das autoridades chinesas antes da publicação?
Não, porque eu sempre fui muito cauteloso para agir sempre como um turista. Os camareiros estavam interessados em limpar nossos quartos a toda hora e eu tenho certeza que os seguranças estavam desconfiados de mim, mas felizmente nada aconteceu.

No documentário Frontline: The Tank Man (2006) de Anthony Thomas, alguns estudantes chineses olham sua foto e não sabem do que se trata. Um deles chega a arriscar que é a foto de uma parada militar. Como você qualifica esse comportamento?
Eu consigo entender que um chinês pense que se trata de uma parada militar. Ela realmente se parece com uma. E eu acredito que a censura em cima da foto do "Tank Man" vai ficar mais amena com o passar dos anos. Hoje já é possível encontrar alguns websites chineses com a imagem. Como essa foto vai afetar a juventude chinesa, apenas o futuro nos dirá.

O governo chinês conseguiu seu objetivo de apagar os protestos de 89 de sua história e dos mais jovens?
Eu acredito que sim, mas apenas durante um tempo. Não acho que seja possível apagar completamente da história deles. É como o Holocausto, que a Alemanha jamais poderá apagar da Segunda Guerra.

O que você acha que aconteceu ao "Tank Man"?
Bem, esse é o grande mistério. Ninguém sabe ao certo. Muitas pessoas ainda tentam descobrir quem ele é, mas eu acho que é melhor se nós nunca descobrirmos, porque é como o soldado desconhecido. Ele representa nossas lutas pessoais e internas, e nos dá inspiração. Se nós eventualmente descobríssemos que ele é um taxista em Xangai, o impacto da foto seria muito menor.

Se você pudesse escrever a história, qual seria o destino do "Tank Man" depois que ele é retirado da frente dos tanques?
Ele se tornaria presidente de uma China livre.

Redação Terra
  1. Imagem de homem barrando o caminho de uma fileira de tanques entrou para a História  Foto: Jeff Widener/AP

    Imagem de homem barrando o caminho de uma fileira de tanques entrou para a História

    Foto: Jeff Widener/AP

  2. Widener testemunhou o massacre aos estudantes chineses  Foto: Jeff Widener/AP

    Widener testemunhou o massacre aos estudantes chineses

    Foto: Jeff Widener/AP

  3. Fotógrafo recebeu ajuda de um jovem estudante americano para registrar o evento  Foto: Jeff Widener/AP

    Fotógrafo recebeu ajuda de um jovem estudante americano para registrar o evento

    Foto: Jeff Widener/AP

  4. Manifestantes sobem em tanque durante discurso  Foto: Jeff Widener/AP

    Manifestantes sobem em tanque durante discurso

    Foto: Jeff Widener/AP

  5. Manifestantes resistem à opressão militar  Foto: Jeff Widener/AP

    Manifestantes resistem à opressão militar

    Foto: Jeff Widener/AP

  6. Governo chinês comandou operação militar para pôr fim à manifestação  Foto: Jeff Widener/AP

    Governo chinês comandou operação militar para pôr fim à manifestação

    Foto: Jeff Widener/AP

  7. Widener também é o autor de fotografia do Papa João Paulo II bocejando durante uma oração na Catedral de São Jorge em 1982   Foto: Jeff Widener/AP

    Widener também é o autor de fotografia do Papa João Paulo II bocejando durante uma oração na Catedral de São Jorge em 1982


    Foto: Jeff Widener/AP

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