Por Bernardo Suárez Indart
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, atravessa um momento crucial em seu governo devido aos aproximadamente 500 mortos e outros tantos feridos em dez dias, todos eles vítimas da guerra contra o terrorismo que há cinco anos prometeu vencer.
Putin fez essa promessa em 1999, quando era praticamente um desconhecido, depois de uma incursão armada de extremistas islâmicos no Daguestão a partir da vizinha Chechênia.
A Rússia estava farta das excentricidades de Borís Yeltsin, então presidente, e via em Putin, primeiro-ministro naquele tempo depois de uma meteórica carreira que o tinha levado à chefia dos serviços secretos, a renovação que era exigida.
Além disso, o que não era menos importante, tinha sido eleito sucessor pelo presidente em fim de mandato, o que lhe garantia uma transferência de poder consensuado, sem lutas internas nas altas esferas.
Em março de 2000, depois de três meses como chefe de Estado interino e durante um começo vitorioso da segunda guerra da Chechênia, Putin foi eleito presidente.
Quatro anos e meio depois, depois de recuperar a "verticalidade do comando" na administração do Estado, Putin foi obrigado a admitir, como disse em sua mensagem à nação no sábado passado, que a debilidade da Rússia levou o terrorismo internacional a declarar uma "guerra total" ao povo russo.
As mortes da última batalha dessa disputa, a tomada de reféns na escola em Beslan (Ossétia do Norte), continuavam neste domingo a aumentar nos hospitais, aproximando-se de 350, a maioria crianças.
Um dia antes de o comando terrorista ter invadido o colégio, uma kamikaze detonou uma carga explosiva no metrô de Moscou, matando dez pessoas e ferindo cerca de 50.
Tudo isso ocorreu uma semana depois de os terroristas terem estendido seus ataques ao espaço aéreo da Rússia ao explodir em vôo dois aviões de passageiros Túpolev, com um total de 90 pessoas a bordo.
No sábado, o presidente russo atribuiu a desproteção do país em grande parte à desintegração da União Soviética e às dificuldades da transição econômica.
Esse discurso teve palavras de autocrítica, mas seu mea-culpa foi histórico, com um "nós" que, pelo contexto, não deixou claro se fazia referência ao seu governo ou às autoridades que o precederam.
A tragédia de Beslan deixou claro que o governo presidido pelo primeiro-ministro Mikhail Fradkov não é mais que um apêndice administrativo do Kremlin.
Toda a presença oficial nos meios foi deixada nas mãos de funcionários da Ossétia do Norte, destacando a solidão de Putin na cúspide do poder.
Um tenente-general, Kazbek Dzantíev, ministro do Interior da Ossétia do Norte, apresentou sua demissão.
"Sou oficial e não considero possível continuar no cargo", disse Dzantíev, segundo o Ministério do Interior da Ossétia do Norte, mas sua renúncia não foi aceita por enquanto.
Mas já há pessoas que pedem a demissão dos responsáveis das estruturas de segurança do país.
"Se têm consciência, deveriam ir embora", disse o vice-presidente da Duma (Câmara dos Deputados), Liubov Slizka, dirigente do partido governista Rússia Unida.
Putin descobriu hoje um aliado no ex-líder soviético Mikhail Gorbachov, que apoiou a estratégia de unidade nacional diante da ameaça do terrorismo anunciada pelo Kremlin.
"Devemos atuar nos apoiando na estabilidade que conseguimos durante a gestão de Vladimir Putin", disse o ganhador do Prêmio Nobel da Paz, que advertiu, no entanto, que todas as medidas contra o terrorismo não devem prejudicar os direitos dos cidadãos.
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