Afeganistão: embaixador dos EUA promete diminuir baixas civis

24 de maio de 2009 • 14h53 • atualizado às 14h53

Carlota Gall

The New York Times

Na terça-feira, durante um encontro com sobreviventes afegãos de um bombardeio recente na província ocidental de Farah, o novo embaixador americano no Afeganistão, tenente-general Karl W. Eikenberry, prometeu que as forças de coalizão mudariam suas táticas para prevenir vítimas civis no futuro.

Reconhecendo o sofrimento causado ao povo afegão pelo poder aéreo americano, Eikenberry, que se aposentou das forças armadas no mês passado, chamou o bombardeio aéreo de 4 de maio no distrito Bala Baluk de tragédia, e prometeu reduzir drasticamente o número de vítimas civis em futuras operações.

O embaixador, que serviu duas vezes no país como membro do Exército americano - a segunda vez como comandante da força da OTAN no Afeganistão -, voou para a cidade de Farah com o presidente Hamid Karzai para manifestar suas condolências e se encontrar em uma mesquita com centenas de anciões e representantes dos vilarejos afetados.

O governo afegão disse que cerca de 140 civis foram mortos no ataque, enquanto oficiais americanos afirmaram que o número de vítimas nunca será conhecido.

O presidente e o embaixador não visitaram o vilarejo de Granai, onde o bombardeio ocorreu, e não ficaram para o almoço, o que é um costume no Afeganistão, possivelmente por questões de segurança.

Eikenberry foi claro ao reconhecer o sofrimento dos civis e expressar sua solidariedade.

"Esse incidente começou com seus bravos oficiais da polícia e do Exército, junto de seus parceiros americanos, combatendo o Talibã¿, disse em discurso, divulgado posteriormente pela Embaixada americana em Cabul, após a visita. ¿Mas terminou de uma forma terrivelmente trágica, com a perda de vidas civis e de seus policiais.

"Asseguro ao povo do Afeganistão que os Estados Unidos vão trabalhar sem descanso com o governo, o Exército e a polícia afegãos para encontrar maneiras de reduzir o preço pago por civis e evitar tragédias como a que ocorreu em Bala Baluk", disse. "Como embaixador americano, e com minha experiência anterior como soldado, faço esse juramento solene."

Karzai, que abriu o que era essencialmente uma audiência municipal, disse aos presentes que havia pedido muitas vezes às forças internacionais que cessassem os bombardeios a vilarejos e a incursão a residências, e que finalmente havia conseguido essa promessa do governo americano, de acordo com um oficial afegão presente, Muhammad Nazer Khedmat.

Karzai, que busca a reeleição, também prometeu reconstruir casas de aldeãos, providenciar que alguns sobreviventes continuassem sua peregrinação a Meca e construir escolas, postos médicos e estradas na província, segundo Khedmat. Sua visita com o embaixador foi amplamente bem recebida, disse Khedmat, que é o presidente do conselho provincial eleito.

O embaixador americano disse ter ficado chocado ao saber do bombardeio, contou Khedmat por telefone. "Isso deve ter acontecido devido a um erro, então, isso não se repetirá e seremos muito mais cautelosos com a vida de civis no futuro", disse que Eikenberry havia dito à multidão.

Em uma entrevista por telefone na noite de terça-feira, Eikenberry disse que os militares americanos estão conduzindo uma investigação ¿bem completa¿ dos combates de 4 de maio, que duraram cerca de cinco horas e deixaram, pelo menos, três policiais afegãos mortos e dois fuzileiros navais americanos e vários membros da força de segurança afegã feridos. Esse combate acabou levando aos ataques aéreos, requisitados pelos americanos.

Eikenberry disse questionar o bom senso em soltar bombas de quase uma tonelada sobre casas sem saber quem pode estar dentro delas, e a decisão pelo ganho de curto prazo ao eliminar combatentes inimigos contra o perigo maior de indispor a população em geral.

"Devemos analisar cuidadosamente as táticas militares que estão sendo usadas¿, disse. ¿Precisamos evitar vitórias táticas que se traduzam em derrotas estratégicas." O embaixador, que é conhecido no Afeganistão como o pai do Exército Nacional Afegão, disse que as forças de coalizão precisam aprimorar a troca de inteligência com as forças de segurança afegãs e ajudar a polícia e o Exército a assumirem o controle de seu país. "Precisamos mudar nossa forma de operar com a polícia e o Exército afegão", disse, "e evitar situações nas quais a única forma de superioridade é o uso do poder aéreo, que tem mais chances de levar a vítimas civis".

Eikenberry retornou ao Afeganistão após servir dois anos no quartel-general da OTAN em Bruxelas, Bélgica. "Está claro para mim que, se não fizermos isso direito, corremos o risco real de isolar o povo afegão e criar o que David Kicullen chamou de guerrilha acidental", disse, se referindo a um especialista em contra-insurgência que foi consultor do general David H. Petraeus. "De forma inconsciente e não intencional, estamos perdendo o povo afegão no local de operações e, conseqüentemente, enfraquecendo o governo afegão."

Ele continua confiante de que a nova estratégia do presidente Barack Obama oferece uma oportunidade de mudar a situação. Eikenberry disse que Karzai havia passado uma mensagem clara ao povo de Farah na terça-feira: o Talibã e os combatentes estrangeiros permanecem a verdadeira ameaça ao país, mas, embora as forças internacionais sejam aliadas do Afeganistão, "precisamos mudar nossas abordagens".

Tradução: Amy Traduções

The New York Times
 
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