Uma mulher e uma criança andam por uma das ruas car-free do distrito alemão
Foto: The New York Times
Elisabeth Rosenthal
Do New York Times News
Residentes da comunidade de luxo de Vauban, na Alemanha, são pioneiros do subúrbio, fazendo o que poucas donas de casa e executivos indo ao trabalho fizeram antes: eles abriram mão de seus carros.
Estacionamento na rua, entrada para carros e garagens residenciais são proibidos nesse novo distrito experimental nos arredores de Freiburg, próximo à fronteira com a Suíça. As ruas de Vauban são completamente "livres de carros" - com exceção da via principal, onde o bonde para o centro de Freiburg passa, e algumas ruas nos limites da comunidade. É permitido possuir carros, mas há apenas dois lugares para estacionar - amplas garagens nos limites do complexo, onde um dono de carro compra uma vaga, por US$ 40 mil, além da casa.
Como resultado, 70% das famílias de Vauban não têm carros, e 57% venderam o carro para se mudarem para cá. "Quando tinha um carro, sempre estava tensa. Estou muito mais feliz assim", disse Heidrun Walter, treinadora de mídia e mãe de dois filhos, enquanto caminhava pelas ruas verdejantes onde o apito de bicicletas e o burburinho de crianças abafam o som de algum motor distante e ocasional.
Vauban, concluída em 2006, é um exemplo de uma tendência crescente na Europa, nos Estados Unidos e em outros lugares, que tem o intuito de separar a vida no subúrbio do uso de carros, fazendo parte de um movimento chamado "planejamento inteligente".
Automóveis são um elemento essencial dos subúrbios, onde famílias de classe média de Chicago a Xangai tendem a construir seus lares. E isso, dizem os especialistas, é um grande impedimento para a redução drástica das emissões que saem dos escapamentos, e, portanto, para a redução do aquecimento global. Carros de passageiros são responsáveis por 12% das emissões de gases do efeito estufa na Europa - uma proporção que está crescendo, segundo a Agência do Meio Ambiente Européia - e por até 50% em algumas áreas com excesso de carros nos Estados Unidos.
Embora tenham ocorrido esforços nas últimas duas décadas para tornar as cidades mais densas, e melhores para caminhar, os urbanistas estão agora levando o conceito aos subúrbios e focando especificamente em benefícios ambientais como a redução de emissões de gases. Vauban, lar de 5,5 mil residentes em uma área retangular de 1,6 km2, é talvez o experimento mais avançado sobre a vida no subúrbio com poucos carros. Mas seus preceitos básicos estão sendo adotados ao redor do mundo na tentativa de torná-los mais compactos e acessíveis ao transporte público, com menos espaço para estacionamentos. Nessa nova abordagem, é possível ir andando até lojas em uma rua principal, ao invés de shoppings localizados em uma estrada distante.
"Todo o nosso desenvolvimento desde a Segunda Guerra Mundial se centrou no carro, e isso tem que mudar," disse David Goldberg, da Transportes para a America, uma coalizão de centenas de grupos que cresce rapidamente nos Estados Unidos - incluindo grupos ambientais, prefeituras e a Associação Americana de Aposentados - promovendo novas comunidades menos dependentes dos carros. Goldberg acrescentou: "Quanto você dirige é tão importante quanto ter um carro híbrido".
Levittown e Scarsdale, subúrbios de Nova York com casas amplas e garagens particulares, foram as cidades dos sonhos dos anos 1950 e ainda exercem um forte apelo. Mas alguns subúrbios novos podem parecer mais com Vauban, não apenas em países desenvolvidos, mas também no mundo em desenvolvimento, onde a emissão de gases de um número crescente de carros particulares de uma classe média florescente está sufocando as cidades.
Nos Estados Unidos, a Agência de Proteção Ambiental está promovendo comunidades "com menos carros" e legisladores estão começando a agir, mesmo que cautelosamente. Muitos especialistas esperam que o transporte público que serve os subúrbios passe a ter um papel muito maior em um novo projeto de lei, a ser aprovado ainda este ano, Goldberg disse. Em projetos de lei anteriores, 80% da verba foi para estradas e apenas 20% para outros transportes.
Na Califórnia, a Associação de Planejamento da Área de Hayward está desenvolvendo uma comunidade parecida com Vauban, chamada Quarry Village, nos arredores de Oakland, acessível sem um carro pelo sistema público de transporte rápido e pelo campus de Hayward da Universidade Estadual da Califórnia.
Sherman Lewis, professor emérito da universidade e líder da associação, diz que ele "mal pode esperar para se mudar" e espera que a Quarry Village permita que sua família reduza o número de carros de dois para um, e possivelmente para zero. Mas o atual sistema ainda encontra empecilhos, ele disse, observando que os financiadores de hipotecas se preocupam com o valor de revenda de casas de meio milhão de dólares que não têm espaço para carros, e a maioria das leis de zoneamento nos Estados Unidos ainda exige duas vagas de estacionamento por unidade residencial. Quarry Village obteve uma exceção do município de Hayward.
Além disso, convencer as pessoas a abrirem mão dos carros é extremamente difícil. "As pessoas nos EUA são incrivelmente desconfiadas de qualquer idéia que envolva não ter carros, ou ter menos carros", disse David Ceaser, co-fundador da CarFree City USA, que disse que nenhum projeto de subúrbio livre de carros do tamanho de Vauban teve sucesso nos Estados Unidos.
Na Europa, alguns governos estão pensando em escala nacional. Em 2000, a Grã-Bretanha iniciou uma abrangente reforma de seu planejamento urbano, com o intuito de desencorajar o uso de carros ao exigir que novos empreendimentos fossem acessíveis pelo trânsito público.
"Empreendimentos que envolvam trabalho, compras, lazer e serviços não deveriam ser projetados e localizados sob a suposição de que o carro vai representar o único meio realista de acesso para a maioria das pessoas", disse o PPG 13, documento de planejamento urbano revolucionário de 2001 do governo britânico. Dezenas de shoppings, restaurantes fast-food e complexos residenciais foram rejeitados com base nas novas regulações britânicas.
Na Alemanha, lar da Mercedes-Benz e da Autobahn, estrada de alta velocidade, a vida em um lugar com menos carros como Vauban tem sua própria estrutura incomum. Ela é longa e relativamente estreita, de modo que o bonde para Freiburg fique a uma distância curta de todos os lares. Lojas, restaurantes, bancos e escolas estão mais intercalados entre as residências do que em um típico subúrbio. A maioria dos residentes, como Walter, possui carrinhos atrás de bicicletas para fazer compras ou levar as crianças para brincar.
Para ir a lojas como IKEA ou esquiar nas montanhas, as famílias compram carros juntas ou usam carros comunitários alugados pelo clube de compartilhamento de carros de Vauban.
Walter já morou - com um carro particular - em Freiburg e nos Estados Unidos. "Se você tem um carro, você tende a usá-lo", ela disse. "Algumas pessoas se mudam para cá e vão embora rapidamente - elas sentem falta do carro estacionado à porta".
Vauban, local de uma antiga base militar nazista, foi ocupada pelo Exército francês no final da Segunda Guerra Mundial até a reunificação da Alemanha há duas décadas. Por ter sido planejada como uma base, sua estrutura nunca teve a intenção de acomodar o uso de carros particulares: as "ruas" eram estreitas passagens entre barracas.
Os edifícios originais foram há muito tempo derrubados. As estilosas fileiras de casas que os substituíram são construções de três ou quatro andares, desenvolvidas para reduzir a perda de calor e maximizar a eficiência energética, e decoradas com madeiras exóticas e varandas elaboradas; casas isoladas das outras são proibidas.
Por natureza, as pessoas que compram casas em Vauban têm inclinação para cobaias ambientais - de fato, mais da metade vota no Partido Verde alemão. Mesmo assim, muitos dizem que é a qualidade de vida que os mantém aqui.
Henk Schulz, cientista que em uma tarde no mês passado estava assistindo a seus três filhos passearem por Vauban, se lembra de seu entusiasmo ao comprar seu primeiro carro. Agora, disse, ele está feliz em criar seus filhos longe dos carros; ele não precisa se preocupar com a segurança deles nas ruas.
Nos últimos anos, Vauban se tornou um nicho comunitário bem conhecido, apesar de ter gerado poucos subúrbios que seguiram seu exemplo na Alemanha. Mas ainda não se sabe se o conceito vai funcionar na Califórnia.
Mais de 100 candidatos a residentes se inscreveram para comprar uma casa no subúrbio de Quarry Village em Bay Area, e Lewis ainda precisa de cerca de US$ 2 milhões em financiamento para tirar o projeto do papel. Mas, caso a idéia não dê certo, a sua proposta alternativa é construir no mesmo local um condomínio no qual o uso do automóvel seja totalmente liberado. Ele seria chamado de Village d'Italia.
Tradução: Amy Traduções

- The New York Times







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