Civis atravessam um rio para fugir do confronto entre exército e rebeldes tâmeis no Sri Lanka
Foto: AP
Marcos Chavarria
Direto de Porto Alegre
"Quando o genocídio étnico está acontecendo em algum lugar do mundo e nós estamos de braços cruzados, isso nos deprecia", disse Barack Obama, durante o segundo debate presidencial, no passado, ao defender que os EUA teriam a obrigação de atuar diante de crises humanitárias em todo o globo. No entanto, de acordo com a revista Time, o conflito no Sri Lanka mostra que o presidente americano falha em cumprir a promessa de campanha. Para especialistas, as boas intenções de Obama parecem ter sido postas de lado pelo "choque de realidade" que os desafios atuais impuseram ao democrata: a prioridade é enfrentar a crise econômica e administrar o passivo militar deixado por Bush no Afeganistão e no Iraque.
"A Time percebeu corretamente. Obama quer evitar que os EUA sejam expostos, se envolvendo em conflitos de difícil solução. Internamente, a questão econômica preocupa. Os EUA diminuíram drasticamente as verbas de todas as áreas, inclusive da Defesa. A tendência agora é que o país seja seletivo nas intervenções", explica Reginaldo Mattar Nasser, coordenador do curso de Relações Internacionais da PUC-SP e professor na Fecap.
Segundo a revista americana, o conflito entre rebeldes tâmeis e o exército do Sri Lanka é uma questão chave para traçar o perfil intervencionista do atual presidente americano. Como o caos na região eclodiu durante os primeiros 100 dias de governo de Obama, a publicação critica o fato de que o democrata está abrindo mão de uma tradição de liderança do país na mediação de crises humanitárias internacionais.
"Obama valoriza mais o diálogo diplomático. O foco atual é o Afeganistão e o Paquistão. O Sri Lanka não é prioridade: não há petróleo, não há commodities em disputa. Com esta carência, atenuam-se eventuais prioridades geopolíticas das grandes potências", afirma o professor e coordenador do Núcleo de Análise de Conjuntura Internacional da PUC-SP, Paulo-Edgar Almeida Resende.
Na prática, os especialistas dizem que Obama não tem condições de fazer mais do que reunir o Conselho de Segurança da ONU e, se todos os membros concordarem, enviar uma força de paz internacional ao local. "Não há como fazer uma aventura militar no Sri Lanka. Não há como justificar para a opinião pública dos EUA o envio de tropas. Obama tem a opção de decretar um embargo, mas é preciso avaliar se isso serve aos interesses do país", diz Oliveiros Ferreira, professor da PUC-SP e USP.
Outra questão que apimenta a delicada situação no Sri Lanka - uma ilha com cerca de 21 milhões de habitantes, ao sul do subcontinente indiano - é o fato de não haver "mocinhos" no conflito, de acordo com a Time. Enquanto o exército nacional acusa os rebeldes tâmeis de usar a população civil como escudo humano no confronto, os milicianos dizem que as tropas nacionais promovem verdadeiros massacres e não fazem distinção entre os alvos.
"São conflitos internos que não há como fazer mediações. Os atores se desqualificam mutuamente. Eu acredito que o presidente americano tenha isso em mente. Se tropas estrangeiras entrarem no país, terão de resolver o conflito, não há como negociar", explica Nasser.
Há ainda o caso de experiências semelhantes em anos anteriores, como as intervenções no Haiti, Somália e Timor Leste. De modo geral, as forças de paz conseguem estancar a matança de civis em um primeiro momento, mas não trazem desenvolvimento aos países e a retomada da violência acaba sendo uma questão de tempo.
"Como qualquer presidente americano, Obama não abdica da idéia de querer ser um líder mundial. Mas o que é ser líder? Assumir a responsabilidade ou atuar junto com os outros? Acredito que Obama se posiciona na segunda linha", afirma Nasser.
- Redação Terra

Foto: Reuters 














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