Terrorismo não é prioridade para paquistaneses, diz pesquisa

16 de maio de 2009 • 13h09 • atualizado às 13h09

SALMAN MASOOD

Do New York Times


Enquanto as forças armadas paquistanesas intensificam sua campanha para expulsar militantes do Talibã de três distritos no noroeste da capital, uma pesquisa recente mostrou que uma maioria surpreendente dos paquistaneses não considera o terrorismo o problema mais importante enfrentado pelo país, mas sim a economia.

A pesquisa foi divulgada na segunda-feira pelo Instituto Republicano Internacional, um grupo sem fins lucrativos com sede em Washington que é filiado ao Partido Republicano e promove a democracia no exterior. A pesquisa também mostrou que 81% dos participantes disseram acreditar que o país estava indo na direção errada.

A maior parte das pessoas culpou o presidente Asif Ali Zardari e seu índice de aprovação foi de apenas 19%. No entanto, uma maioria impressionante ainda disse que preferia uma democracia instável a uma ditadura militar.

A pesquisa foi feita em março, antes do Talibã invadir em massa distritos vizinhos a partir de seu reduto no Vale do Swat e antes do governo iniciar sua campanha para fazer os militantes recuarem. Isso mostra claramente os desafios que o governo enfrenta enquanto tenta mobilizar os paquistaneses em prol de sua luta, particularmente considerando o aumento das mortes de civis com a campanha.

Os paquistaneses há tempos relutam em confrontar o Talibã, com quem têm em comum a religião muçulmana e a nacionalidade. A pesquisa, por exemplo, revelou um forte apoio ao acordo de paz de fevereiro com o Talibã em Swat. Dos entrevistados, 80% apoiavam o pacto e 74% disseram acreditar que o acordo traria paz à região. Esse acordo agora foi rompido, com Talibã e governo se culpando mutuamente pelo ocorrido.

Rehman Malik, ministro do Interior do Paquistão, disse que 700 militantes foram mortos nos últimos quatro dias de combate intenso - um número muito maior do que os cerca de 140 reportados pelos militares -, além de 22 soldados do governo. Embora esteja claro que o combate tem sido pesado, nenhuma das alegações sobre o número de mortos pôde ser verificada porque agências humanitárias e jornalistas foram impedidos de entrar nas áreas de conflito.

Nos últimos 12 dias, mais de 360 mil civis se registraram no Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados como deslocados por combate, disse o órgão com sede em Genebra. Isso aumentou para mais de 900 mil o número de pessoas deslocadas pelas sucessivas ondas de combate no Paquistão desde agosto, William Spindler, porta-voz do escritório de refugiados, disse em entrevista telefônica.

Malik prometeu que a ofensiva militar continuaria até que os militantes fossem derrotados. "A operação vai continuar até o ultimo talibã", Malik disse. O Paquistão começou a ofensiva sob forte pressão dos EUA para reverter os avanços do Talibã em direção à capital, após os militantes invadirem Buner e Dir, distritos adjacentes a Swat. A pesquisa apontou um quadro misto para a tentativa do governo e dos Estados Unidos de convencer os paquistaneses a apoiarem o combate ao extremismo.

A maioria considerou as questões econômicas os problemas mais urgentes da nação, com apenas 10% dizendo terrorismo, mas 69% concordaram que as operações do Talibã e da Al-Qaeda no país eram um problema sério. Dos entrevistados, 45% disseram apoiar o combate aos extremistas nas áreas tribais e na Província da Fronteira Noroeste, um número alto para a pesquisa.

A pesquisa de março também mostrou sinais de aumento na disposição dos paquistaneses a cooperar com os Estados Unidos no combate ao extremismo, com o número subindo de 9% em janeiro de 2008 para 37%. O extremismo religioso foi considerado um problema sério no Paquistão por 74% dos entrevistados. Mas 56% disseram que apoiariam as exigências do Talibã de expandir a lei islâmica, ou sharia, para outras partes do país, incluindo cidades importantes como Lahore ou Karachi.

"O mais impressionante da pesquisa foi que enquanto 81% sentem que o país está indo na direção errada, 77% dizem que querem viver em um ambiente democrático", disse Thomas E. Garrett, diretor do programa regional para o Oriente Médio e a África do Norte do Instituto Republicano Internacional. "Acho que é um número muito surpreendente."

Garrett disse em entrevista telefônica que não estava surpreso pelo fato dos problemas econômicos terem sido priorizados em relação ao terrorismo. Ele disse que o resultado é consistente com pesquisas anteriores do instituto. "As pessoas estão mais preocupadas com problemas de primeira necessidade", ele disse.

A pesquisa foi conduzida entre 7 e 30 de março, com 3,5 mil homens e mulheres adultos do Paquistão. A margem de erro é de dois pontos percentuais para cima ou para baixo. O baixo índice de aprovação de Zardari foi consistente com uma pesquisa anterior do instituto. Quando perguntaram qual líder seria mais efetivo para lidar com os problemas do Paquistão, 55% escolheram Nawaz Sharif, o líder da oposição que já foi duas vezes primeiro-ministro, enquanto 9% disseram Zardari.

Na segunda-feira, Sharif esteve no distrito de Mardan visitando campos humanitários para vítimas do combate. Ele disse que as pessoas responsáveis pelo desalojamento dos residentes não mereciam leniência. "Ele está apoiando a operação militar", Arif Rafiq, analista político, disse sobre Sharif. "É vago - o que lhe dá espaço de manobra. Ele não apóia expressamente as operações militares, mas dá a aprovação tácita mais forte que se pode ter."

Tradução: Amy Traduções

The New York Times
 
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