Crise de seqüestro paira sobre "lei do véu" na França

01 de setembro de 2004 • 17h01 • atualizado às 17h01

A tensa espera de informação sobre o destino dos dois jornalistas franceses seqüestrados no Iraque foi mantida hoje, quarta-feira, em meio a dúvidas sobre a atitude das estudantes muçulmanas diante da lei que proíbe o uso de símbolos religiosos ostensivos, como o véu islâmico, nas escolas públicas e que entrará em vigor amanhã na França.

Numa resposta indireta aos seqüestradores, que exigem a revogação da lei, o ministro francês das Relações Exteriores, Michel Barnier, explicou hoje à TV árabe "Al Jazira", do Catar, que "não há nenhuma lei sobre símbolos muçulmanos". Para o chanceler, é uma lei que garante a neutralidade de certos lugares públicos.

Em sua passagem pelo Catar, Barnier recebeu o apoio das autoridades a seus esforços pela libertação de Christian Chesnot e Georges Malbrunot, os dois reféns do "Exército Islâmico no Iraque".

Barnier, que já visitou o Egito e a Jordânia, disse que mantém a esperança e que só pode imaginar uma saída "positiva" à crise. Enquanto isso, o prazo do segundo ultimato vai se esgotando.

Diferente do anunciado pela "Al Jazira" na segunda-feira, quando foi difundido um novo vídeo dos dois reféns, o prazo fixado pelos seqüestradores não expirou ontem à noite, mas vencerá hoje, segundo a Liga Árabe com base em "contatos" no Iraque.

Enquanto isso, em uma nova demonstração da frente unida que a comunidade muçulmana da França forma com o governo e a sociedade francesa, uma delegação do Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM) viajou a Amã, caminho de Bagdá, após orar pela libertação dos dois reféns na Mesquita de Paris.

"Toda a comunidade muçulmana os acompanha", disse o presidente do CFCM e reitor da mesquita, Dalil Boubakeur.

Fuad Allawi, o vice-presidente do Conselho e membro da União de Organizações Islâmicas da França (UOIF, próxima aos Irmãos Muçulmanos e que tinha se destacado pela oposição à chamada "lei do véu"), anunciou que será enfático com os seqüestradores.

"Diremos aos seqüestradores: basta. Vocês estão prejudicando a comunidade muçulmana da França. Esperamos que o país não se esqueça que os Muçulmanos da França foram fiéis à República", disse.

Outro membro da delegação, Mohamed Bechari, afirmou que os muçulmanos da França não devem ser tomados como reféns e que o caso do véu é "um assunto interno" do país.

A delegação será acompanhada por Barnier em sua chegada a Amã.

Desde que a crise começou, com a reivindicação do "Exército Islâmico no Iraque" no sábado passado, oito dias após o seqüestro dos jornalistas, os líderes muçulmanos rejeitaram a "chantagem odiosa".

O líder da UOIF, Lhaj Thami Breze, chamou a "lei do véu" de "bom compromisso", justificando que foi votada e deve ser respeitada, e pediu às jovens muçulmanas que não desafiem a República.

Ao mesmo tempo, pediu aos diretores dos centros escolares que não aproveitem para proibir as bandanas ou outros objetos "discretos", e assegurou que os muçulmanos não vão agravar o problema.

A lei, que levantou críticas no mundo muçulmano e levou a Al Qaeda a ameaçar a França no início de ano, proíbe nas escolas públicas o uso de símbolos religiosos ostensivos, como o véu islâmico, o solidéu judaico e os crucifixos cristãos.

A regulamentação especifica que nenhum aluno deve ter a entrada impedida e que até uma moça com véu deve ser aceita.

O ministro da Educação, François Fillon, já não fala da aplicação "sem concessões" da lei, mas de um espírito de respeito individual. Fillon defendeu hoje que o retorno à escola transcorra "sob o signo da fraternidade".

"Amanhã, todas as crianças, sejam negras ou brancas", muçulmanos, católicos judeus ou sem religião, "estarão nos mesmos bancos e demonstrarão que a escola da República é uma das grandes forças de nosso país", disse o ministro.

Fillon reiterou que a lei que afeta todos os símbolos religiosos ostensivos afeta só a escola, para permitir que todos os estudantes da França convivam em harmonia. Ele afirmou que "fora da escola, cada um é livre para praticar sua religião, se tiver".

Hoje foi divulgado que o tribunal administrativo de Lyon (sudeste) rejeitou o processo de anulação da punição de uma servidora pública, que foi suspensa por um ano por se negar a tirar o véu islâmico no local de trabalho.

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