JOHN HARWOOD
Do New York Times
Rahm Emanuel, chefe de gabinete da Casa Branca, sintetizou o objetivo do presidente Barack Obama muito antes do primeiro de seus primeiros 100 dias. "Nunca deixe uma crise séria ser desperdiçada."
Essa formulação pós-eleição permanece um sustentáculo para a batalha legislativa que apenas agora começa de verdade. Nos próximos 100 dias, veremos se a Casa Branca conseguirá preservar convincentemente o elo entre os projetos de Obama e a recessão dolorosa herdada por ele.
A equipe de Obama coloca suas iniciativas na saúde, energia, educação e nos setores automobilístico e financeiro como resposta para a crise. Seus adversários republicanos dizem que a recessão é meramente uma desculpa para ambições a um governo inchado que os liberais não conseguiram atingir por décadas.
Obama atualmente está em vantagem, com alto índice de aprovação nas pesquisas, enquanto os republicanos parecem caóticos e desafortunados. Mas ele está correndo por uma boa razão. A história política e alguns sinais precoces nesta primavera americana sugerem que o tempo não está do seu lado.
Fraco estímulo econômico
Quando Obama chegou à Casa Branca em janeiro, as perdas de emprego ao longo de um ano aumentaram bruscamente. A economia, estatísticas do governo mais tarde revelaram, encolheu mais de 6% no último trimestre de 2008.
Obama explorou o temor da nação, buscando uma ação rápida com seu plano de estímulo econômico de US$ 800 bilhões. Os conservadores, apontando para os comentários de Emanuel, acusaram o governo de seguir o que os editorialistas do Wall Street Journal chamaram de "lista de desejos de 40 anos" dos liberais.
O fato de Obama ter rapidamente superado a oposição republicana foi a mais forte evidência até agora de que o presidente e os congressistas democratas puderam aproveitar sua oportunidade. "Olhem os resultados", Emanuel disse em entrevista na semana passada. "Aprovamos a maior lei de recuperação econômica da história americana."
Isso pagou dividendos na opinião pública. A última pesquisa New York Times/CBS News mostrou que 68% dos americanos aprovam seu desempenho; 70% disseram que os republicanos se opuseram a seus planos econômicos "principalmente por razões políticas." A proporção que afirmou acreditar que a nação estava indo na direção certa subiu de 15%, um pouco antes de Obama assumir o poder, para 41%.
Paradoxalmente, o sucesso pode complicar a tarefa de Obama no futuro, ao amenizar o clima de crise. E isso, por sua vez, poderia ajudar os republicanos a argumentar que ele busca uma expansão excessivamente cara do papel do governo.
Uma pesquisa da NBC News/Wall Street Journal em fevereiro mostrou que 51% dos americanos queriam que o governo fizesse mais para resolver os problemas, em comparação a 40% que disseram que o governo estava "fazendo coisas demais." Na semana passada, a mesma pesquisa mostrou uma divisão equilibrada: uma maioria de 52% disse que Obama havia abarcado "assuntos demais" além da economia.
Isso ajuda a explicar o motivo de Obama ter ficado na defensiva em sua coletiva de imprensa no horário nobre, ao ser questionado sobre os investimentos do governo em bancos e montadoras. "Quero corrigir a noção das pessoas de que gostamos de nos meter no setor privado", ele disse.
Ou, como Emanuel colocou: "O momento exige" o envolvimento do governo, mas apenas para ajudar empresas em dificuldade "a fazer a transição para um lugar diferente."
Riscos para os democratas
Alguns democratas privadamente reclamam que a declaração de Emanuel sobre a crise deu aos republicanos um porrete para espancarem seus motivos. Ele não exprime nenhum arrependimento, dizendo que é evidente que crises nacionais criam oportunidades para ação que não existem normalmente.
"Não é uma tática política", Emanuel disse. "É uma observação da natureza humana e da história." Ele comparou os investimentos públicos defendidos por Obama à criação da ferrovia transcontinental após a Guerra Civil, à Lei GI (para custear os estudos de veteranos da Segunda Guerra Mundial) e ao Sistema de rodovias interestaduais após a Segunda Guerra Mundial.
Contudo, na semana passada, a derrota no Senado de uma medida defendida por Obama - que daria a juízes de tribunais de falências o poder de reduzir as hipotecas de donos de propriedades - mostrou os limites de ação dos democratas, mesmo após o senador Arlen Specter da Pensilvânia ter aumentado a maioria no Senado ao mudar do Partido Republicano para o Partido Democrata. Assim como o setor bancário ajudou a impedir a ação dos aliados de Obama na questão, interesses afetados podem aumentar a oposição dos republicanos aos objetivos de saúde e energia do governo.
Obama quer ação nas duas áreas em 2009, ciente de que predecessores como Ronald Reagan e Bill Clinton viram seu declínio de capital político marcadamente após seus primeiros anos no governo. Seu aliado principal, que também trabalhou na Casa Branca de Clinton, insiste que uma maioria democrata ágil ainda pode dar resultados.
"Não faça da perfeição a inimiga do essencial", Emanuel aconselhou, defendendo o meio-termo. Em um comentário que também serviu como autodescrição, ele elogiou a presidente da Câmara Nancy Pelosi, democrata da Califórnia, chamando-a de legisladora "pragmática, que avalia a situação e que busca vitórias."
E mesmo se os americanos já estiverem começando a se sentir melhor, Emanuel insistiu que o clima de crise ainda era forte o suficiente para manter os ventos políticos a favor de Obama.
"Ainda acredito que as pessoas saibam que isso é muito frágil", ele disse. "Elas acreditam que esse é um momento para grandes ações, porque temos grandes problemas."
Tradução: Amy Traduções
The New York Times