Médicos estudam 1º infectado para desvendar origem do surto

29 de abril de 2009 • 14h08 • atualizado às 14h22
Jonathan (dir.), 3 anos, inspeciona o irmão mais velho, supeito de ser o primeiro infectado pela gripe suína Foto: The New York Times
Jonathan (dir.), 3 anos, "inspeciona" o irmão mais velho, supeito de ser o primeiro infectado pela gripe suína
29 de abril de 2009
Foto: The New York Times

Marc Lacey

Do New York Times


Edgar Hernández relata os severos sintomas da gripe que sofreu algumas semanas atrás como se tivesse bem mais que os seus 5 anos: sentia febre. Tossiu até que sua barriga e garganta doessem. Não queria comer, o que é estranho para ele, já que costuma devorar tudo que lhe aparece pela frente.

"Agora estou bem", ele disse com um sorriso, na quinta-feira. Mas o governo identificou Edgar como a primeira pessoa no México a ser infectada por uma variante da gripe suína, uma notoriedade que deixa seus pais ansiosos e pode despertar questões quanto à maneira pela qual as autoridades mexicanas reagiram, ou deixaram de reagir, nos estágios iniciais daquilo que pode se tornar uma epidemia mundial.

Edgar é um entre as centenas de moradores de La Gloria que começaram a apresentar sintomas semelhantes aos a gripe em um surto iniciado na metade de março. Os moradores locais acusam os funcionários da saúde pública de desdenhar o surto quando ele surgiu, e de reassegurá-los de que nada sério estava acontecendo. Os funcionários do governo federal mexicano afirmam ter respondido com rapidez à crise, ainda que apenas depois que o vírus começou a infectar pessoas de outra parte do país, pelo menos uma semana depois que Edgar desenvolveu sintomas.

Uma das muitas coisas desconhecidas sobre a feroz gripe que Edgar contraiu é determinar se ela deveria ter causado alarme mais cedo e, caso isso tivesse acontecido, se o surto poderia ter sido contido.

La Gloria talvez não venha a ser identificada como a fonte de coisa alguma. A aldeia tem muitos imigrantes que vivem nos Estados Unidos. Os epidemiologistas mexicanos afirmam que uma teoria é a de que alguém que viajou ao país vizinho tenha trazido o vírus ao retornar à comunidade. Antes que Edgar adoecesse, outra pessoa em San Diego pode ter sido afetada, disse Miguel Angel Lezana, diretor do Centro Nacional de Vigilância Epidemiológica e Controle de Enfermidades, a principal agência federal de saúde mexicana.

Mesmo agora a mãe de Edgar, Maria del Carmen Hernández, disse estar recebendo informações conflitantes sobre a doença que deixou seu menino de cama por três dias. Ninguém explicou o que ela deveria fazer para manter a saúde de Edgar e do resto da família, disse, um sinal de que os esforços de resposta mexicano podem ser descoordenados, especialmente nas regiões rurais.

"Algumas pessoas estão dizendo que meu filho é culpado por todo mundo que adoeceu no país", diz Hernandez, 34 anos, com um olhar inexpressivo. Ela relata os problemas de sua família e diz que "não acredito nisso. Não sei o que pensar sobre o assunto".

Houve uma elevação modesta no número de casos mundiais de gripe suína, na terça-feira. Nos Estados Unidos, o número de casos confirmados subiu a 64, ante a contagem de 50 registrada na segunda-feira, de acordo com um briefing do Dr. Richard Besser, diretor interino do Centro de Controle e Prevenção de Doenças, a jornalistas. O total inclui 45 casos na cidade de Nova York. Não houve mortes causadas pela doença no país, mas cinco pessoas foram hospitalizadas para tratamento.

O México continua a ser o país mais atingido, e o número de mortes atribuídas à gripe suína já ultrapassou as 150. Em La Gloria, duas crianças morreram da gripe em março e no começo de abril, ainda que as autoridades tenham dito que não determinaram até agora se os óbitos foram causados pela mesma variedade de vírus que infectou Edgar e se espalhou amplamente por outros lugares. Essa e outras questões mantiveram os moradores locais enervados e confusos.

Cada batida na porta traz uma nova surpresa para a família Hernandez: fumigadores que trataram sua casa mas não informaram a eles sobre o que; cientistas que apareceram para obter uma amostra de tecido mucoso da garganta de Edgar; e até mesmo o governador do Estado de Veracruz, que chegou de helicóptero na segunda-feira acompanhado por uma comitiva e partiu depois de presentear Edgar com uma bola de futebol e um boné de beisebol.

Na segunda-feira, o médico local que tratou os Hernandez disse à família que o menino havia sofrido gripe, mas não gripe suína, disse Maria del Carmen. No entanto, algumas horas antes, o governador Fidel Herrera Beltran havia visitado a família para ver como o menino estava passando. No final de semana, ele havia declarado publicamente que Edgar tinha o vírus da gripe suína, de acordo com os testes, e o secretário estadual da Saúde, José Angel Cordova, confirmou na segunda-feira que um menino de La Gloria, cujo nome ele se recusou a revelar, contraíra o vírus, de acordo com os testes, mas havia se recuperado da doença.

"Eles não deveriam ter informado a mãe primeiro sobre isso?", questionou Hernández. Seu filho mais novo, Jonathan, 3 anos, tossia em seu colo. De fato, não foi o caso de Edgar que alertou as autoridades inicialmente quanto à emergência. O primeiro caso identificado foi o de uma mulher de 39 anos que chegou a um hospital em Oaxaca portando uma infecção viral incomum, e isso levou os epidemiologistas mexicanos a entrar em ação.

Maria Gutierrez chegou ao hospital em 9 de abril e trazia uma infecção incomum; ela se internou depois de dias adoentada e de visitas a diversos médicos que não conseguiram ajudá-la. Depois que os testes revelaram uma doença incomum, o pessoal médico a colocou em isolamento e notificou as autoridades estaduais e federais. Gutierrez morreu em 13 de abril, e as autoridades enviaram amostras obtidas dela, de Edgar e de outro paciente na Cidade do México para teste por um laboratório canadense.

Os resultados surgiram na tarde de 23 de abril, e tanto Gutierrez quanto Edgar portavam uma nova variante do vírus. Uma reunião de crise foi convocada pelo presidente Felipe Calderón. Na noite daquele dia, as autoridades anunciaram o fechamento das escolas na capital mexicana e na área circundante, onde a maioria dos casos parecia estar concentrada. Agora, à medida que aumenta o número de casos, as escolas de todo o país estão fechadas.

"Minha impressão - como observador externo, que é o que sou agora - é de que a resposta foi bastante competente", disse o médico Julio Frenk, ex-ministro da Saúde mexicano e hoje diretor da escola de saúde pública da Universidade Harvard. "Não perfeita, mas bastante competente".

O México agiu com rapidez desde que a nova variante do vírus foi confirmada. Mas as autoridades do país reconhecem que lhe faltam os profissionais especializados necessários a fazer atendimento remoto na escola requerida, e que o país não dispõe de recursos nem para testar a nova variedade de medicina. Foi apenas esta semana que dois laboratórios, um na Cidade do México e um em Veracruz, começaram a realizar testes para identificar o vírus por conta própria, evitando que o país dependa totalmente dos epidemiologistas dos Estados Unidos e Canadá.

"Jamais tivemos uma epidemia como essa no mundo", respondeu Cordova a repórteres esta semana, quando questionado se o México estava respondendo devidamente à crise. É provável que os epidemiologistas tenham muitas pistas a seguir para determinar as origens do surto de gripe. La Gloria não foi a única localidade a passar por um contágio severo nas últimas semanas. As autoridades de saúde pública em outras regiões do México afirmaram ter percebido uma alta incomum no número de casos registrados a partir do início de abril, quando a temporada normal da gripe usualmente estaria se encerrando.

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
 
Enviar para amigos
Fechar por:
Enviar para amigos
Fechar por:

Imprimir

Fechar
Mais vistos

Notícias

  1. Carregando...
leia mais notícias »