Depois de seis anos na Espanha, Constantin Marius Craiova vai voltar para a Romênia |
RACHEL DONADIO e NELSON D. SCHWARTZ
Do New York Times
Seis anos depois da expansão do setor de construção espanhol ter atraído Constantin Marius Craiova da Romênia, ele volta para casa, outra vítima da quebra que está revertendo a maré humana que transformou a Europa na última década.
"Todos dizem que não há trabalho na Romênia", Craiova, 30 anos, disse com ousadia enquanto erguia seu Ray-Ban espelhado. "Se existem 26 milhões de pessoas lá, elas precisam fazer algo. Quero ver por mim mesmo."
Craiova, que está planejando voltar para a Romênia no mês que vem, é um dos milhões de imigrantes da Europa Oriental, América Latina e África que vieram para lugares de rápido crescimento como Espanha, Irlanda e Grã-Bretanha na última década, atraídos pelos baixos índices de desemprego e políticas de imigração liberais.
Mas em sinal de como as economias da Europa Ocidental rapidamente se deterioraram, trabalhadores como Craiova estão agora voltando para casa, esperando encontrar melhores perspectivas de emprego, ou pelo menos, custos de vida menores, em suas terras natais.
De muitas maneiras, é isso que a União Européia deveria ser -- uma zona onde os trabalhadores podem transitar livremente em busca de emprego. Mas com o aprofundamento da crise econômica, rachaduras estão surgindo pelo continente, onde fronteiras podem ser porosas, mas identidades nacionais permanecem fixas.
De fato, enquanto todos os trabalhadores são, em teoria, iguais perante as leis européias, alguns podem ser mais iguais que outros, com preocupações nacionais, e até locais, vindo à tona.
Consideremos a capital da Irlanda, que ganhou o apelido de Dublinski depois que cerca de 180 mil poloneses, tchecos e outros europeus orientais chegaram em busca de trabalho com a expansão da União Européia em 2004. Agora, um aumento surpreendente do desemprego, atualmente de 10,4%, está fazendo até mesmo os imigrantes recém-chegados repensarem seus planos.
"Desde 2000, tem ocorrido o ressurgimento da imigração intraeuropéia", disse Rainer Muenz, especialista em migração e líder de pesquisa e desenvolvimento do banco Erste em Viena. "Até certo ponto, isso está enfraquecendo agora."
Entre abril de 2008 e o final deste mês, até 50 mil trabalhadores terão possivelmente deixado a Irlanda e retornado a seus países, a maioria no leste europeu, segundo Alan Barrett, do Instituto de Pesquisa Econômica e Social de Dublin.
"As coisas mudaram rapidamente", disse Monica Jelinkova, 25 anos, que se mudou da República Tcheca para Dublin há 18 meses. "Costumava conhecer 15 pessoas aqui. Agora só restaram quatro amigos."
Embora o desemprego também esteja crescendo na República Checa, "é muito mais fácil estar em casa com família e amigos sem ter um trabalho," ela disse, "do que ficar aqui sem trabalho." Até muito recentemente, países como Espanha, Irlanda e Itália eram nações de emigrantes, não de imigrantes.
Isso mudou ao longo de uma expansão de uma década que começou no final dos anos 1990. Na Espanha, onde o crescimento foi mais explosivo, a população estrangeira subiu para 5,2 milhões no ano passado, de um total de 45 milhões de habitantes, em comparação a 750 mil em 1999, segundo o Instituto Nacional de Estatística. A população da Irlanda, agora de 4,1 milhões, também se transformou, com a porcentagem de residentes estrangeiros subindo para 11% em 2006, em comparação a 7% em 2002.
"Nos EUA, gerações inteiras foram necessárias para construir uma população de estrangeiros desse tamanho", disse Demetrios Papademetriou, chefe do Instituto de Políticas de Migração, um grupo de pesquisa de Washington. "Esses países fizeram isso em um ritmo sem precedentes, mas a sociedade e instituições não tiveram a chance ainda de se adaptar."
Alcala, uma cidade dormitório de Madri e local de nascimento de Miguel de Cervantes, é o lar de tantos imigrantes romenos - 20 mil, segundo algumas estimativas -, que o presidente da Romênia, Traian Basescu, fez campanha na cidade para as eleições parlamentares de outubro.
Mas sinais da migração reversa de romenos já são evidentes. "Lentamente, eles estão desaparecendo", disse Gheorghe Gainar, presidente de uma associação cultural romena em Alcala. "Quando procuramos por eles, não os encontramos. Às vezes você pergunta a um parente e ele diz que a pessoa voltou para casa."
O êxodo reverso de países mais prósperos da Europa Ocidental provavelmente vai aumentar as pressões econômicas que já afetam a Europa Central e Oriental, de onde migrantes de países em desenvolvimento estão, por sua vez, sendo encorajados a sair.
O governo checo anunciou em fevereiro que pagaria 500 euros (US$ 660) e uma passagem de avião só de ida para qualquer estrangeiro que tenha perdido seu emprego e queira voltar para casa. E em Bucareste, capital da Romênia, trabalhadores chineses estão há dois meses acampados sob o clima congelante na frente da embaixada chinesa, desamparados após os empregos na construção civil terem desaparecido.
Como a República Checa, a Espanha oferece incentivos financeiros para as pessoas irem embora. Um novo programa destinado a imigrantes legais da América do Sul permite que eles recebam a quantia total de seu auxílio-desemprego se aceitarem sair do país e não voltarem por pelo menos três anos. O governo espanhol disse que apenas 3 mil pessoas aderiram ao plano, mas muitos outros estão saindo espontaneamente.
Linhas aéreas na Espanha estão oferecendo promoções para viagens só de ida para a América Latina e afirmam que a demanda aumentou muito. Todos os dias, o aeroporto Barajas, em Madri, é palco de despedidas emotivas, com famílias enviando seus entes queridos desempregados de volta para casa.
Cidadãos de países da União Européia, como Craiova, não podem aderir ao plano de incentivo disponível a migrantes latino-americanos, mas estão descobrindo outras soluções criativas para sua situação.
Como muitos outros romenos deixando a Espanha, Craiova planeja levar o dinheiro do auxílio-desemprego que o governo espanhol lhe deve para a Romênia, onde a quantia irá durar por mais tempo. Ele precisa apenas voltar para a Espanha a cada três meses para assinar a papelada. Sua esposa peruana e seus filhos vão para a Romênia assim que ele encontrar emprego.
Independentemente de sua situação, muitos imigrantes entendem que as circunstâncias econômicas também estão afetando os nativos. Em uma noite recente, Juan e Miriam Garnica, bolivianos residentes legais na Espanha, se despediram do primo de Juan, que não encontrou trabalho suficiente no campo para permanecer os três anos exigidos para estabelecer residência.
O primo, Sandro Garnica, 36 anos, parecia desanimando enquanto carregava duas mochilas e uma câmera digital nova. Mas Miriam Garnica, 35, que trabalha para o município de Madri, estava filosófica. "Temos um plano B", disse ela. "Pelo menos podemos voltar para casa. E os espanhóis? O que eles têm?"
Tradução: Amy Traduções
The New York Times