Iraque vive semana de terror com explosão de violência

25 de abril de 2009 • 16h12 • atualizado às 16h12
Ahmed Zuhair, que foi até o hospital na busca de familiares, segura uma criança não identificada que se feriu nos ataques suicidas Foto: The New York Times
Ahmed Zuhair, que foi até o hospital na busca de familiares, segura uma criança não identificada que se feriu nos ataques suicidas
25 de abril de 2009
Foto: The New York Times

STEVEN LEE MYERS e SAM DAGHER

Iraque


Uma sangrenta explosão de violência parece sobrepujar a polícia e as forças militares do Iraque enquanto tropas americanas devolvem o controle das cidades do país aos iraquianos. Na sexta-feira, dois ataques suicidas mataram pelo menos 60 pessoas do lado de fora do santuário xiita mais reverenciado de Bagdá, levando o número de mortos em um período de 24 horas a quase 150.

Como em muitos ataques recentes, a intenção das explosões parece ser inflamar as tensões sectaristas, enfraquecer as forças de segurança do Iraque e minar o governo.

As explosões da sexta-feira lembram de forma preocupante ataques como ao santuário xiita em Samarra de fevereiro de 2006, que provocaram uma onda sectária de derramamento de sangue e levaram o país a uma guerra civil.

As mais recentes explosões - foram pelo menos 18 grandes ataques até agora neste mês - ainda não geraram retaliação, mas estremeceram uma sociedade que continua frágil e profundamente dividida.

A segunda explosão suicida ocorreu cinco minutos depois da primeira nas ruas que levam ao santuário do imã Musa al-Kadhim e seu neto. Um dos ataques, e talvez ambos, foi provocado por uma mulher, segundo testemunhas.

Quase metade dos mortos foi de iranianos que peregrinavam para o santuário, um marco de domo dourado da vizinhança predominantemente xiita de Kadhimiya, dedicado a dois dos 12 imãs do Islã xiita. Pelo menos 125 pessoas ficaram feridas, muitas delas também iranianas.

Visivelmente preocupado com a ira popular, o primeiro-ministro Nouri Kamal al-Maliki formou, em decisão incomum, um comitê especial para investigar o ataque de sexta-feira e os aparentes lapsos de segurança que o possibilitaram. A rede de televisão estatal, Al Iraqiya, noticiou na noite de sexta-feira que al-Maliki também ordenou a detenção de dois comandantes da polícia nacional responsáveis pela segurança da área.

A morte de tantos iranianos fez com que o Iraque fechasse sua fronteira com o Irã em Muntheriya, na província de Diyala, por onde milhares de iranianos passam semanalmente em peregrinação aos locais xiitas sagrados no Iraque.

O mais mortal dos três ataques de quinta-feira aconteceu em um restaurante repleto de viajantes iranianos em Muqdadiya, cidade de Diyala próxima da fronteira. O número de mortos no ataque subiu para 56, a maioria iraniana. No total, pelo menos 89 pessoas foram mortas nas explosões de quinta-feira e mais de 100 ficaram feridas.

Após os ataques de sexta-feira, iraquianos enfurecidos que se reuniram ao redor dos destroços ensangüentados culparam a segurança frouxa e a corrupção da polícia e do governo pelo que aconteceu. Parte de sua raiva tinha um componente sectarista.

"Eles nos dominam há 1.400 anos", disse um soldado xiita do Exército, que se identificou apenas como Abu Haidar, se referindo à dominação sunita sobre os xiitas no Iraque. "Estamos no poder há quatro anos e agora estão nos massacrando."

O Estado Islâmico do Iraque, denominação de um grupo insurgente que abarca a Al-Qaeda na Mesopotâmia, assumiu a responsabilidade de muitos dos ataques recentes como parte de uma campanha chamada "A Colheita do Bem", anunciada em março.

Em anúncio divulgado na época em websites extremistas, o líder do grupo, Abu Omar al-Baghdadi, menosprezou o presidente Barack Obama como "o negro de Washington" e chamou seu plano de retirar as forças americanas do Iraque até 2011 de "reconhecimento implícito da derrota".

Na quinta-feira, os militares iraquianos alegaram que haviam prendido al-Baghdadi, mas o que foi alardeado como um grande sucesso parece estar sob questionamento.

Websites extremistas negaram sua prisão, segundo o SITE Intelligence Group, que monitora reivindicações e anúncios de grupos extremistas e terroristas. O comando militar americano também disse em nota que não podia confirmar "a prisão ou captura" do líder, considerado pelos militares dos EUA como uma autoridade iraquiana fictícia, fantoche de um movimento que envolve muitos combatentes estrangeiros.

Oficiais americanos e iraquianos têm expressado preocupação crescente, temendo que o Estado Islâmico do Iraque, a Al-Qaeda e outros extremistas consigam se reagrupar e explorar as falhas de segurança que surgem quando comandantes americanos fecham postos de combate ao redor do país, deixando a segurança diária nas mãos dos iraquianos. "Toda morte de xiitas é causada pela Al-Qaeda", disse um homem que se identificou apenas como Abu Mohammed após os ataques de sexta-feira. "A América não conseguiu acabar com eles. Como nossas forças vão conseguir?"

Na sexta-feira, um oficial veterano da polícia nacional explicou as limitações das forças de segurança do Iraque e de seus equipamentos de detecção de explosivos, tipicamente uma varinha manual usada em postos de checagem que o oficial descreveu como falsos.

"Precisamos realocar nossas unidades de segurança para preencher as lacunas, pois a retirada americana deu aos terroristas motivos para reativar suas células adormecidas", disse o oficial sob condição de anonimato, porque seria punido por falar francamente sobre tais deficiências. "Precisamos de mais carros e equipamento moderno para detectar explosivos."

O major-general Abdul-Aziz Mohammed Jasim, alto comandante do Ministério da Defesa, citou outros fatores por trás da violência recente. Eles incluem o que chamou de "reações a questões políticas" que dividiram o Iraque logo após as eleições provinciais em janeiro e também a liberação de milhares de detidos das forças americanas em uma economia enfraquecida.

Como parte de um novo acordo de segurança com o Iraque que entrou em vigor este ano, os americanos são obrigados a liberar todos os iraquianos sob sua custódia ou transferi-los a prisões iraquianas. "Eles estão soltando pessoas aleatoriamente e alguns dos detidos liberados podem ainda ter contato com a Al-Qaeda", disse Jasim em entrevista telefônica. "E quando eles voltam para sua vida normal e não encontram trabalho, eles retornam à Al-Qaeda."

Jasim também lamentou a incapacidade das forças iraquianas de impedir ataques contra alvos fáceis, como mercados e mesquitas. "Os procedimentos de segurança são contínuos", disse, "mas as forças de segurança não podem estar presentes em cada centímetro".

Não está claro se os ataques de sexta-feira tinham como alvo específico os iranianos ou o local xiita que visitavam. O administrador chefe do santuário, xeique Fadhil al-Anbari, culpou a polícia por não conseguir impedir as explosões, que, para ele, tiveram a intenção de atrapalhar uma economia que os peregrinos haviam fortalecido.

"A multidão de visitantes iranianos gerou o crescimento da economia em Kadhimiya, e a Al-Qaeda não quer isso", disse em entrevista por telefone. "Esses ataques tiveram claramente a intenção de sabotar o país."

Tradução: Amy Traduções

The New York Times
 
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