Para salvar cidade, proposta afirma que é preciso encolhê-la

03 de maio de 2009 • 15h08 • atualizado às 15h08
Dan Kildee, tesoureiro do condado de Genesee, aparece em frente à casa que deve ser destruída, na cidade de Flint Foto: The New York Times
Dan Kildee, tesoureiro do condado de Genesee, aparece em frente à casa que deve ser destruída, na cidade de Flint
24 de abril de 2009
Foto: The New York Times

David Streitfeld

Do New York Times


Ao longo dos anos, dezenas de propostas foram apresentadas para desacelerar o declínio inexorável da cidade de Flint. Agora, uma nova idéia ganha força: por que não acelerá-lo? Em lugar de esperar que casas sejam abandonadas para depois demoli-las, líderes locais estão discutindo demolir quarteirões e até bairros inteiros.

A população seria condensada em algumas poucas áreas viáveis, da mesma forma que o comércio e serviços. Uma cidade construída em larga medida para fabricar carros seria devolvida à floresta primeva que a cerca.

"Em Flint, a decadência é como a gravidade: um fato da vida", disse Dan Kildee, tesoureiro do condado de Genesee e principal porta-voz do movimento pela redução de Flint. "Precisamos controlá-la, em lugar de permitir que nos controle".

A recessão em Flint, como em muitas outras cidades industriais da velha guarda, está rapidamente agravando uma situação já ruim. Bombeiros e policiais estão sendo demitidos, devido ao déficit orçamentário de US$ 15 milhões que a prefeitura enfrenta. Muitas escolas públicas devem ser fechadas.

"Muita gente recorda o passado, quando éramos uma cidade de sucesso que outras pessoas contemplavam como modelo, e mantêm a esperança. Mas não se pode desenvolver políticas de governo com base na esperança", disse Jim Ananich, presidente do conselho municipal de Flint. "É preciso tomar medidas drásticas".

Em sua busca de uma saída, Flint está se tornando modelo para uma era diferente. A redução planejada se tornou um conceito realista em Michigan alguns anos atrás, quando o Estado mudou suas leis sobre imóveis apreendidos por falta de pagamento de impostos. Antes, essas edificações e terrenos desapareciam em um limbo jurídico, o que contribuía para a deterioração. Agora, são rapidamente transferidos aos bancos de imóveis de cada condado, e isso oferece às comunidades uma poderosa ferramenta de mudança.

Indianápolis e Little Rock, no Arkansas, criaram bancos de imóveis, recentemente, e outras cidades estão seguindo esse exemplo. "Reduzir uma cidade é transformar idéia em fato", disse Karina Pallagst, diretora de um projeto de estudo sobre a redução de áreas urbanas no Programa Perspectiva Global da Universidade da Califórnia em Berkeley. "Por fim surgiu a compreensão de que algumas cidades simplesmente não têm escolha".

Embora o debate sobre reduzir a cidade esteja em curso em Flint já há anos, ele ganhou súbita importância no mês passado quando o prefeito interino Michael Brown comentou em um almoço do Rotary Club sobre a necessidade de "fechar áreas da cidade".

Nada acontecerá de imediato, mas Flint já começou a reformar seu plano diretor, uma complicada tarefa realizada pela última vez em 1965. Na época, tratava-se de um próspero município de 200 mil habitantes que planejava se expandir até os 350 mil. Agora, restam 110 mil moradores, um quarto dos quais vivendo abaixo da linha da pobreza.

Flint tem cerca de 75 bairros, espalhados por uma área de 88 km². Decidir quais deles serão preservados vai ser uma tarefa delicada, reconheceu Kildee. Em um passeio pela cidade, ele exibe um quarteirão próximo ao centro com potencial de renovação: ocupar os terrenos baldios, ali, faria sentido, porque ficam a curta distância do campus da Universidade do Michigan.

Pouco adiante, a cena é mais complicada. Restam apenas algumas casas em uma rua; a calçada está tão deteriorada que quase não existe. "Quando foi a última vez que alguém caminhou ali?", questiona Kildee. Mas e quanto às pessoas que continuam vivendo ali e talvez desejem que as calçadas sejam consertadas, e não removidas? "Nem todos sairão ganhando", disse Kildee. "O problema é que agora todos estamos perdendo".

Em muitas ruas, a coleta semanal de lixo apanha apenas um saco. Se essas paradas fosse eliminadas, ele diz, a cidade economizaria US$ 100 mil anuais - uma das muitas economias propiciadas pela redução. Kildee nasceu em Flint, em 1958. A casa em que passou a infância foi apreendida recentemente pelo condado, por falta de pagamento de impostos. É uma casinha azul com detalhes brancos, tristonha e abandonada - como duas outras casas do lado oposto da rua.

"Se a área vai ficar abandonada, que seja vazia e verde", disse. "Vamos criar uma nova floresta em Flint - perto da qual alguém pode querer viver; ninguém deseja viver ao lado de um símbolo de fracasso". Charlotte Kelly observa, desconfiada, da casa ao lado. Sua casa rompe o padrão: imaculada, limpa, pintura nova, madeira polida. Kelly é funcionária municipal e se mudou para lá em 2002; todas as casas da rua estavam ocupadas, então, e o bairro parecia recuperável.

Agora, o crime é descarado: recentemente, dois homens removeram o revestimento das paredes da antiga casa de Kildee, "e riam como se estivessem em um piquenique", diz Kelly. Rua abaixo há mais casas abandonadas e um cartaz manuscrito que diz "proibida a prostituição". "Isso me entristece", diz Kelly. "Nasci aqui, em 1955. Vivi os dias de glória, e a cada ano as coisas pioram".

Kildee apresenta sua proposta: ela estaria interessada em se mudar caso a prefeitura lhe oferecesse casa equivalente ou melhor em bairro mais estável e seguro? Apesar de seu orgulho pela casa em que vive, Kelly calcula por apenas um segundo: "Sim", diz, "eu estaria".

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
 
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