Sangue mancha rua de cidade queniana |
Jeffrey Gettleman
Do New York Times
Pouco depois do anoitecer, na segunda-feira, os moradores se reuniram, armados com porretes, facões e as tradicionais azagaias.
Disseram que estavam cansados de pagar impostos extorsivos, cansados de temer pelo destino de suas filhas e cansados de viver sob o domínio do Mungiki, um misterioso grupo queniano que é em parte gangue de rua, em parte máfia e em parte uma organização ocultista.
E por isso os moradores de Karatina decidiram que era hora de contra-atacar. Sob a proteção da noite, uma multidão de centenas de jovens, pagos pelos anciãos da cidade, de acordo com diversos moradores, percorreram essa luxuriante área de cultivo de chá, que mais parece o jardim do Éden que um campo de batalha, e detiveram dezenas de homens suspeitos de integrar o Mungiki.
A multidão espancou os homens suspeitos de crimes, e a cidade normalmente pacata explodiu em uma série de ataques e contra-ataques que resultaram em 30 mortes. Testemunhas afirmam que algumas das vítimas foram espancadas a ponto de não poderem mais ser reconhecidas.
Os indícios dos ataques eram visíveis na terça-feira. As estradas de terra continuavam a exibir poças espessas de sangue, e as crianças caminhavam com cuidado para evitar varas pontiagudas ainda embebidas de vermelho.
"Você sabe como é", disse Joseph Wambui, vendedor de gasolina em Karatina. "Quando uma multidão se forma, não há o que a disperse". A violência na segunda-feira foi uma das primeiras ocasiões em que uma comunidade no Quênia se sublevou de maneira organizada para expulsar o Mungiki, que parece prosperar especialmente nas áreas rurais e nos cortiços superlotados aos quais o governo do Quênia não estende seu alcance.A justiça por linchamento é muitas vezes a resposta de um povo à falta de policiamento, mas esse episódio parece ter demonstrado um nível novo e muito mais intenso de autonomia, e as autoridades se preocupam com a possibilidade de que as coisas escapem ao controle.
"Não queremos que ninguém se vingue", disse Eric Kiraithe, porta-voz da polícia queniana. "Estamos simplesmente pedindo que as pessoas nos digam quem são os criminosos, e os deteremos".
O Mungiki parece estar protegido por uma muralha de silêncio. Pouca gente em Karatina, que fica 110 km ao norte de Nairóbi, capital do Quênia, quer dizer qualquer coisa sobre a gangue. O Mungiki é parte da comunidade. Diversos moradores disseram, aos cochichos, que não sabiam quem era e quem não era membro do grupo. Não é como se os Mungiki usassem uniformes, acrescentaram.
O Mungiki foi criado nos anos 80 como força de autodefesa para o grupo étnico kikuyu, o maior do Quênia. Os membros da gangue tomaram por modelo o movimento Mau Mau, que combateu pela independência do Quênia e cujos integrantes usavam dreadlocks, faziam juramentos secretos e travaram uma guerra de guerrilha contra os colonizadores britânicos.
Pelo final dos anos 90, o Mungiki ganhou presença urbana, tomando o controle dos serviços de micro-ônibus de Nairóbi. Depois, diversificaram suas atividades para a coleta de lixo, venda de materiais de construção e, por fim, extorsão.
Em Karatina, uma área majoritariamente Kikuyu, o Mungiki cobra uma taxa de um dólar ao dia dos operadores de taxicletas, segundo os policiais. As mulheres que vendem leite em barracas de beira de estrada precisavam pagar 20% de seus lucros à gangue. Qualquer pessoa que desejasse construir uma casa de pedra, o que é considerado luxo por aqui, tinha de pagar US$ 15 à gangue. "Quem não paga é morto", disse o eletricista Wachira Muthiga.
A culpa por dezenas de decapitações é atribuída ao Munginki, e existe uma crença generalizada de que seus membros bebem sangue como parte de seus rituais de iniciação. Na terça-feira, havia muitos moradores de Karatina preparados para a vingança. Um menino até mesmo vinha dormindo com seus amigos na floresta, por medo de que o Mungiki aparecesse de noite para roubá-lo de sua cama.
"Estamos em grave perigo", ele disse. A polícia estava enviando reforços, e na noite de terça-feira um caminhão repleto de policiais pesadamente armados chegou à cidade. As autoridades impuseram um toque de recolher que se estende do anoitecer à alvorada. Mas pouca gente parecia disposta a enfrentar os riscos da escuridão. Na terça-feira, quando o sol se pôs, não se via ninguém nas ruas de terra.
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times