Com as atenções voltadas para St. Pölten, a polícia tirou as barreiras da casa de Fritzl
Foto: Leandro Demori /Especial para Terra
Leandro Demori
Direto de Amstetten
O trem que parte de Viena rumo a oeste e leva à cidade de Amstetten precisa de cerca de uma hora para contornar os morros baixos e as imensas áreas reflorestadas da região. O esforço das engrenagens se assemelha à dificuldade para conseguir qualquer informação na cidade onde Josef Fritzl trancafiou a filha Elisabeth por 24 anos. Ninguém fala sobre o assunto.
Ao avistar microfones, câmeras e repórteres, os moradores atravessam a rua, fecham as janelas, as lojas - fogem da imprensa e de tudo o que possa recordar o choque da história que colocou Amstetten no mapa. Com Elisabeth, o pai Fritzl teve sete filhos, três criados no porão e três na parte de cima com sua mulher, mãe da vítima. O sétimo filho fruto de incesto foi incinerado no forno da residência depois de morrer com poucos dias de vida. A história jamais veio à tona até um dos filhos ter que deixar o porão para auxílios médicos, no ano passado.
Encontrar a casa é o primeiro desafio, uma tarefa de tentativa e erro depois que os repórteres de veículos e agências internacionais debandaram para St. Pölten, onde ocorre o julgamento. Faz frio na pequena cidade de 25 mil habitantes a 130 km da capital da Áustria, poucas pessoas estão nas ruas. A saída foi entrar em um café, pedir alguma coisa quente para beber e, aos poucos, puxar conversa sem se identificar como jornalista. Com um pouco de insistência a atendente desenhou um mapa precário em um pedaço de papel. As indicações tomam uma hora de caminhada e muitas idas e vindas.
Caminhar pelo bairro com uma câmera na mão é como declarar guerra contra a comunidade. Janelas e lojas vão se fechando e as pessoas cruzam a rua com cara amarrada. A vida desses moradores vem se resumindo à história do "Monstro de Amstetten" desde que o caso foi descoberto no ano passado. A imprensa se tornou inimiga pública número um.
Por sorte, a barreira feita pela polícia para impedir o aglomero de fotógrafos foi desmantelada. Pode-se (sabendo o endereço) chegar na porta da casa dos Fritzl - um antigo prédio de dois andares todo cinza, que escondia em 60 metros quadrados no porão uma segunda família com rotinas e vida próprias, privada de liberdade.
A casa está vazia, as janelas estão semi-cerradas e o lixo se acumula do lado de fora da porta. O nome da família foi arrancado do interfone para evitar ao máximo a ação de curiosos. Por uma das janelas se pode ver um pedaço do interior do imóvel, em estado de abandono. Mesmo sem a ação da polícia, no entanto, fotografar não é tarefa fácil.
Logo um dos vizinhos aparece e exige que uma equipe de televisão italiana deixe sua calçada. Na frente do imóvel, do outro lado da rua, o trabalho não melhora. Carros passam a todo o momento, buzinam, freiam bruscamente, ameaçam parar e gritam palavrões. Por estes lados, ninguém mais quer saber da imprensa. Para os moradores da pequena Amstetten, a história de Josef e Elisabeth Fritzl precisa ser enterrada no passado.
O veredicto do caso deve sair amanhã, um dia antes do previsto no início do julgamento. Ao contrário do programado, Elisabeth apareceu no tribunal do juri de St. Polten hoje e deu seu testemunho diante do pai. Ao ouvir as declarações, Josef Fritzl se declarou culpado por todos os crimes dos quais é acusado, inclusive homicídio e escravatura, que inicialmente negava. Com a declaração, o réu pode pegar a pena perpétua. Josef Friztl tem 73 anos.
- Redação Terra














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