Prefeito-roqueiro dos EUA tatua datas de homicídios no braço

08 de fevereiro de 2009 • 16h36 • atualizado em 21 de maio de 2009 às 14h39
O prefeito da cidade, John Fetterman, tatuou no braço as datas dos assassinatos registrados durante a sua gestão Foto: The New York Times
O prefeito da cidade, John Fetterman, tatuou no braço as datas dos assassinatos registrados durante a sua gestão
08 de fevereiro de 2009
Foto: The New York Times

Renato Beolchi

Direto de Porto Alegre

Uma viagem de carro de cerca de 20 minutos separa Braddock de Pittsburgh. Mas é uma jornada muito maior que separa da prosperidade esta pequena cidade no Estado americano da Pensilvânia. Em seu comando, um jovem prefeito com visual de roqueiro. John Fetterman mede cerca de 2 m, pesa 130 kg, tem a cabeça raspada, um cavanhaque e os braços tatuados com números. Na face interna do antebraço direito, os algarismos formam datas: os dias dos cinco homicídios que ocorreram na cidade desde que assumiu como prefeito em 2005.

Aos 39 anos, e casado com uma brasileira há onze meses, Fetterman é o responsável por políticas curiosas e inovadoras em uma cidade que, em questão de algumas décadas, pulou de 20 mil habitantes para menos de 3 mil. Grande parte dessa implosão foi causada pela crise da indústria do aço na década de 80. Ele desembarcou na cidade em 2001 com um mestrado em pedagogia pela Universidade de Harvard e um projeto experimental de educação para jovens que lidera até hoje. Nunca mais foi embora, e nem pensa em deixar Braddock.

Fã declarado da banda Metallica e outras bandas de rock, Fetterman comprou, com seu próprio dinheiro, um Ford Lincoln Continental, ano 1975, que pertenceu a um morador de Braddock durante 30 anos. Reformou o veículo com uma série de acessórios cromados e trouxe de volta à cidade o carro, que agora serve como transporte oficial do prefeito e ganhou o apelido de Lou, tributo ao antigo dono, Lou Azzolini. Não é a única homenagem. No braço esquerdo, em números garrafais, uma tatuagem mostra os cinco dígitos do código postal da cidade: 15104.

Para lidar com os terrenos baldios da cidade, desenvolveu um projeto de fazendas urbanas que emprega jovens e abastece a cidade. E esta é apenas uma das alternativas que encontrou para melhorar a cidade. Preparando-se para estrear como pai, e também para as primárias do Partido Democrata, antes da eleição municipal, que acontece este ano, Fetterman, por telefone, conversou com o Terra e falou sobre a situação de sua cidade, os projetos curiosos que vêm ajudando Braddock e a chegada de Barack Obama à Casa Branca.

O senhor disse que Braddock é provavelmente o fundo do poço dos EUA. Como as coisas ficaram tão ruins na cidade?
Eu não quis dizer que Braddock é o pior lugar para se viver. Eu acho que Braddock é um exemplo do que acontece quando você não tem intervenção (pública) suficiente para proteger uma cidade da força brutal do capitalismo. Eu não conheço outra cidade que foi de mais de 20 mil para menos de 3 mil habitantes. Isso representa a perda de quase 90% da população. E muitos fatores e forças contribuíram para isso: a recessão industrial do aço, a falta de desenvolvimento de áreas suburbanas e a falta de um planejamento para que fosse interrompido o êxodo da população. Ninguém esperava que uma cidade tão viva poderia pular de 20 mil para 3 mil moradores.

Como era a situação quando o senhor chegou em Braddock há oito anos?
A cidade estava devastada. Mas tem uma população maravilhosa, amigável e calorosa. Braddock é uma cidade histórica nos EUA por conta do pioneirismo de Andrew Carnegie e da indústria do aço e também por ter sido palco de grandes batalhas da Guerra Franco-Indígena, que foi um evento muito importante na formação do nosso país. Enfim, era e é uma cidade muito rica em história e com ótimos habitantes, mas sofrendo muito com essa implosão.

E a situação se agravou com a atual crise econômica?
Na verdade, não. Pouca coisa mudou. Eu costumo dizer que Braddock desenvolveu os anticorpos que combatem o vírus da recessão econômica. Porque nós enfrentamos uma condição muito mais severa. E eu estaria mentindo se eu dissesse que houve uma piora muito sensível nas circunstâncias enconômicas da cidade.

Desde que você se tornou prefeito, qual foi a pior questão com a qual o senhor teve que lidar? Violência?
Não, certamente não foi a violência. Braddock é uma cidade muito pacífica. Minha mulher é brasileira e cresceu no Rio de Janeiro, e nós conversamos bastante sobre o cenário de violência nas favelas cariocas, e não é nada parecido com o que temos aqui. Acho que nosso principal desafio em Braddock foi encontrar recursos suficientes para dar continuidade aos projetos que melhoram a qualidade de vida da população. E, na verdade, esse sempre será o principal objetivo. Olhe vinte anos no passado e nós tinhamos essa mesma luta. Somos a cidade mais pobre do condado Allegheny. E esse é o ponto de partida para se ter expectativas mais realistas. Nós não vamos mudar, em alguns anos, as quatro décadas de erros econômicos.

O seu projeto de fazendas urbanas está indo bem?
Sim. Nós temos muitos terrenos baldios em Braddock porque as construções desabaram. As terras não tem nenhum valor econômico. Se ficam abandonadas são tomadas pelo crescimento de mato e viram depósito de entulho. Em nossa comunidade nós não temos uma só mercearia. Então, essa era uma ótima oportunidade de dar uma atividade aos jovens, abastecer a população com produtos orgânicos frescos e, ao mesmo tempo, ainda ocupar esses terrenos que temos em Braddock. Por isso, as fazendas urbanas são uma excelente idéia porque funciona para todo mundo: não é controversa, não gera uma discussão política e beneficia a cidade.

Em seu website o senhor aborda Rodovia Mon/Fayette, cuja construção cortaria Braddock. Qual o impacto desse projeto em Braddock?
Sempre teve um impacto grande. Esse projeto vem sendo discutido há 40 ou 50 anos. Desde então as pessoas dizem: "vou esperar o governo porque eles vão comprar minhas terras no momento da desapropriação". E essas pessoas não dão manutenção a suas propriedades, elas não se interessam em investir. Por isso, esse projeto tem sido destrutivo para a cidade mesmo sem ter sido construído. E se for construída, a rodovia vai efetivamente matar a cidade.

É um projeto federal ou estadual?
É estadual e federal, na verdade. Porque a Pensilvânia não tem dinheiro e recursos suficientes para arcar sozinha com os gastos da construção.

Especialistas sugerem que uma das solução para cidades como Braddock é se associar com grandes companhias ou instituições como é o caso da relação entre a sua cidade e a Universidade de Pittsburgh. Quais os pontos positivos e negativos desse tipo de associação?
A princípio, eu não vejo pontos negativos nesse tipo de associação. A Universidade de Pittsburgh, por exemplo, tem um hospital aqui na cidade e é uma parceira comunitária valiosa. Ela investe anualmente US$ 3 milhões para manter o hospital funcionando e prestando serviços, e cumpre sua palavra. Se a indústria do aço, por exemplo, não tivesse se instalado aqui, Braddock nunca teria existido. Talvez, a única questão negativa de se ter essas associações com empresas, seja o fato de que, às vezes, muitos desses profissionais, médicos, enfermeiros e funcionários da indústria do aço ganham muito dinheiro e não podem, ou não querem, investir na própria comunidade.

O seu salário é realmente de apenas US$ 150?
É verdade.

Mas o senhor desempenha outras atividades, não?
Sim. O fato é que, na realidade, (ser prefeito) é quase um trabalho voluntário. Esse salário de US$ 150 não é suficiente para sobreviver apesar de exercer uma carga horária integral. Felizmente, até agora isso não foi um grande problema.

É apenas um pagamento simbólico?
Sim, mas também é o valor que a comunidade tem condições de pagar.

Em um vídeo do New York Times, um jovem cita o senhor como sendo uma das razões para ele se levantar motivado. Ele ainda menciona a sua tatuagem com o CEP de Braddock. Inquestionavelmente, o senhor é jovem e um pedagogo. Os jovens são sua prioridade em Braddock?
Pode-se dizer que sim, que eles são umas das minhas prioridades em Braddock porque eles foram muito responsáveis pela minha eleição. Mas, mais importante do que isso, é o fato de que, quanto mais saudável e abastada for a vida desses jovens, mais saudável e rica será a vida da comunidade. Ou seja, quanto melhores e mais justas forem as oportunidades que eles tiverem, maior será o senso comunitário da cidade. Se você tiver um monte de jovens sem muitas opções de recreação e oportunidades de trabalho, eles vão ficar por aí nas ruas, e os moradores mais velhos vão ter medo de sair de casa. Isso acaba criando uma espiral negativa. Por outro lado, dando atenção a essa parcela da população é a única forma que eu conheço de recuperar a comunidade.

Qual a média de idade dos habitantes de Braddock?
É bastante misturada. De um lado você tem muitos jovens que sempre conheceram Braddock como uma comunidade problemática. E do outro, você tem pessoas que moram aqui há, quarenta, cinqüenta, e em alguns casos até oitenta anos - literalmente na mesma casa - e que viram Braddock quando ela era uma cidade rica e promissora no Vale (do rio Monongahela) e que vêem o que ela se tornou. Eu acredito que essa seja uma das mais marcantes experiências de vida, porque é como presenciar o naufrágio do Titanic em câmera lenta, durante décadas.

Sendo casado com uma brasileira, o senhor já esteve no Brasil?
Não, ainda não fui ao Brasil. Nós estamos casados há pouco menos de um ano. Mas estou muito ansioso para conhecer o Brasil.

Mas baseado no que sabe sobre as cidades brasileiras, o senhor acha que alguns dos seus projetos seria útil se aplicado aqui?
Eu não poderia ser petulante a ponto de dizer que o que eu estou fazendo aqui poderia ser útil no Brasil. Eu já conheço bastante coisa do Brasil porque minha mulher ainda tem muitos parentes vivendo aí e ela me conta muitas coisas positivas e negativas. De modo geral, me parece ser um lugar maravilhoso e eu não vejo a hora de fazer uma visita.

O senhor mencionou antes que sua mulher está grávida? Este é seu primeiro filho?
Sim. É nosso primeiro filho.

O senhor é jovem, um forasteiro em Braddock e definitivamente não possui o estilo tradicional de um político. Quando foi que o senhor disse: "dane-se, eu vou concorrer à prefeitura"?
Acho que não houve esse momento. Principalmente porque eu definitivamente não esperava que pudesse vencer. Eu não sou um morador antigo da cidade, não estou aqui há muito tempo. Por outro lado eu achava que era importante dar uma opção aos mais jovens, ainda que eu fosse o primeiro a dizer que não acreditava na vitória. Mas os jovens de Braddock acabaram se envolvendo e fizeram campanha para mim. Muitos deles votaram pela primeira vez na vida na eleição municipal. Foi realmente positivo. Eu não sei se você esta familiarizado com o modelo eleitoral dos Estados Unidos...

Sim, até por conta da recente eleição presidencial...
Bem, eu já havia dito que votaria em Obama. Mas porque esses jovens de Braddock me elegeram em 2005 eu tive a oportunidade de dar meu voto cerimonial (o voto efetivo do colégio eleitoral, dado após a a contagem do voto popular nas urnas) ao primeiro presidente negro dos EUA. Eu era um grande cabo eleitoral de Obama apesar da Pensilvânia, nas primárias democratas, ter votado em Hillary Clinton.

Onde o senhor nasceu?
Eu nasci em York, uma cidade no sudeste do Estado da Pensilvânia.

A sua família ainda mora lá?
Sim, eles continuam em York.

E depois do ensino médio o senhor foi para Harvard?
Não, antes disso eu estudei em outra faculdade e fui para Pittsburgh. Eu trabalhei lá durante um tempo na metade da década de 90. Depois disso eu fui para Harvard e então acabei aqui em Braddock.

Cabeça raspada, tatuagens e um cavanhaque. Isso é visual de roqueiro.
Ah, sim. Eu sou roqueiro. Eu sou muito fã de Metallica. Eu gosto muito também de bandas grunge como Alice in Chains e Pearl Jam. Basicamente, gosto de bandas de rock do começo da década de 90. Definitivamente eu sou um fã de heavy metal.

E qual a história por trás das suas tatuagens? É um tributo aos que morreram? Algo como "nunca nos esqueceremos"?
Eu acho que é mais ou menos isso. Mas aqui nos EUA as pessoas supõe que se alguem leva um tiro ou é morto em uma comunidade pobre é porque estavam fazendo algo que não deviam e aqui definitivamente não foi esse o caso. As pessoas que nós perdemos em Braddock desde que eu me tornei prefeito eram pessoas extraordinárias que se tornaravam vítimas inocentes de um terrível e inexplicável violência. É claro que há alguns casos de pessoas que são mortas porque estavam fazendo coisas erradas. Mas no nosso caso eram pessoas inocentes que foram mortas completamente sem razão. As tatuagens então são uma forma de registrar o que eu vivi.

E o senhor pretende continuar em Braddock?
Eu não poderia sair nem que eu quisesse. Não só por conta do cargo, mas é aqui que eu quero estar agora.

Já planeja sua reeleição?
Sim, as primárias devem acontecer na primavera (a partir de março, nos EUA). E eu pretendo concorrer à reeleição.

Senhor comentou que votou em Obama...
Mais do que isso, eu fiz campanha para ele. Foi fantástico. E grande parte de Braddock é composta por afrodescendentes, por isso foi possível ver refletida na nossa comunidade o impacto que teve o fato do cargo mais alto de nosso país ser ocupado por um negro, e o efeito positivo que teve no país como um todo.

Tanto o senhor quanto o presidente Obama quebram a imagem tradicional do homem público. Os americanos estão cansados da retórica política?
Eu acho que Obama tem a liderança que o país precisava neste momento. Eu digo isso como democrata, mas eu acredito que mesmo que eu fosse republicano eu votaria nele, por achar que era necessário. Ele era o que o país precisava depois de oito anos (de governo Bush). Eu sei que a reputação dos EUA foi muito manchada em outros países como o Brasil e a Europa. Por isso eu acho que a eleição de Obama tem mais a ver com um pedido de desculpas dos americanos com o mundo. Algo como: "desculpem-nos pelo governo Bush."

Redação Terra
 
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