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Morales vence referendo e consolida divisão da Bolívia

26 de janeiro de 2009 07h18 atualizado às 07h36

Funcionários contam votos do referendo realizado neste domingo. Foto: AP

Funcionários contam votos do referendo realizado neste domingo
Foto: AP

O presidente boliviano, Evo Morales, conseguiu impor seu projeto de reforma da Constituição no referendo deste domingo, segundo projeções divulgadas por canais de televisão, enquanto a oposição já começava a falar em desacato ao novo texto, de cunho altamente indigenista e centralizador.

Segundo a contagem rápida calculada pelas duas maiores redes privadas de televisão do país, o sim venceu com 60% dos votos, contra 40% do não, em números publicados pela Unitel, e 58,3% a 41,7%, de acordo com a ATB.

A contagem rápida, considerada confiável, é feita com dados oficiais recolhidos nos centros de votação. Os resultados oficiais, no entanto, só devem ser divulgados nos próximos dias pela Corte Nacional Eleitoral, que realiza a contagem dos votos manualmente.

Antes da votação, Morales afirmava que seu projeto constitucional seria aprovado com mais de 70% dos votos.

Se a nova Carta for de fato aprovada, a Bolívia realizará eleições presidenciais em dezembro deste ano, nas quais Morales se candidatará à para um novo mandato de cinco anos.

Em uma pergunta anxa, os bolivianos aprovaram também (por 79% contra 21%) que a extensão das terras para um proprietário rural não supere os 5.000 hectares - e não 10.000, como rezava a segunda opção.

A nova Constituição, porém, foi rejeitada amplamente nos departamentos de Santa Cruz - o mais rico da Bolívia -, Tarija, Beni, Pando e Chuquisaca, onde a governadora já convocou a população a desacatar a legislação de Morales.

"Desacato, desacato, desacato!", convocou a governadora indígena Cuéllar, discursando no balcão da prefeitura de Chuquisaca, na praça de Armas da cidade de Sucre, feudo da oposição, onde milhares de pessoas se reuniram para festejar a vitória do não neste departamento.

Já em La Paz, Oruro, Potosí e Cochabamba, a maioria da população apoiou o novo texto constitucional, de 411 artigos.

Para observadores, o desacato promovido por Cuéllar pode se reproduzir em outras regiões dominadas pela oposição.

Outro prefeito (governador) oposicionista, Mario Cossío, de Tarija, disse neste domingo que, à luz dos resultados, "não será possível aplicar a Constituição, motivo pelo qual pedimos um pacto nacional que permita elaborar um novo processo constituinte".

Antes do referendo, o ex-vice-presidente Víctor Hugo Cárdenas - indígena como Morales e forte opositor do governo - afirmou que "se o sim não conseguir triunfar nos nove departamentos da Bolivia, (o referendo) será ilegítimo e provocará a divisão" do país.

O ex-candidato presidencial da oposição Samuel Doria Medina disse, por sua vezm que "há cinco departamentos onde o ''não'' venceu", o que torna "a situação do governo complicada", já que Morales terá nas mãos "uma Constituição de minoria".

Antes do referendo, neste domingo, o vice-presidente Alvaro García havia indicado que, por se tratar de "uma eleição nacional, o resultado é nacional, e a maioria manda; que acatemos o que diz a lei".

A votação transcorreu com calma, tendo sido registrados apenas algumas infrações eleitorais isoladas. Ao todo, 3,89 milhões de eleitores estavam habilitados para votar a favor ou contra a nova Constituição, através da qual Morales espera introduzir grandes mudanças em seu país.

O ministro de Governo (Interior), Alfredo Rada, afirmou que o domingo foi "uma jornada democrática tranqüila e exemplar".

Depois da divulgação dos resultados parciais, o presidente Evo Morales proclamou "a refundação da Bolívia", anunciando o fim da cultura de latifúndio e do "Estado colonial", que, para ele, se arrastavam há 500 anos no país.

"Agora refundamos a Bolívia, aqui termina o Estado colonial, acabou o colonialismo interno e externo. Graças à consciência do povo boliviano, acabou o latifúndio e os terratenentes", discursou Morales no balcão do palácio presidencial, na praça de Armas de La Paz.

Certo da confirmação das projeções de boca-de-urna, Morales dirigiu-se aos governadores e líderes da oposição, convidando-os a somar esforços para a aplicação da nova Constituição.

Em La Paz, departamento onde o projeto constitucional recebeu a maior votação a favor, milhares de pessoas se concentraram na praça de Armas para ouvir o discurso do presidente, que em tom triunfal declarou que este é um dia histórico, porque "surge a nova Bolívia, aqui começa de verdade para levar a igualdade a todos os bolivianos".

Ao mesmo tempo, na cidade de Santa Cruz, o governador Rubén Costas, considerado o líder nacional da oposição, disse a uma multidão que "o não triunfou porque o projeto queria nos dividir e confrontar os bolivianos".

Enquanto a população o aplaudia, Costas destacou que, nos departamentos opositores, venceu "o espírito democrático democrático, para enviar uma mensagem clara, de que somos centenas de milhares de bolivianos do oriente e do ocidente, do norte e do sul, como uma imensa rejeição ao projeto que emana do abuso e da ilegalidade".

Além disso, disse que a oposição sai fortalecida, pedindo a Morales um pacto "para preservar a unidade, e um pacto para todos" - alertando, no entanto, que isto não será possível se o governo se deixar levar pelo que considera um "triunfo efêmero".

Atos públicos de celebração aconteciam também nos departamentos de Tarija, Chuquisaca, Pando e Beni, onde seus líderes discursaram de manera semelhante ao prefeito de Santa Cruz, apelando ao presidente Morales que ouça estas regiões e exigindo um grande pacto social para evitar a divisão irreversível do país.

AFP
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  1. O presidente Evo Morales acena para apoiadores ao se encaminhar para votar no referendo sobre uma nova Constituição no país, em Chapare  Foto: Reuters

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  2. Os bolivianos decidem neste domingo se aprovam a nova Constituição do país  Foto: Reuters

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  3. Mulheres atiram pétalas de flores no presidente Evo Morales  Foto: Reuters

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    Reuters
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