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 Talibã anuncia penas de morte pelo rádio no Afeganistão
25 de janeiro de 2009 20h19

Toda noite por volta das 20h, os amedrontados residentes de Swat, um vale exuberante e pitoresco a centenas de quilômetros das três cidades mais importantes do Paquistão, ser reúnem em volta de seus aparelhos de rádio. Eles sabem que não escutar e aprender pode levar a chicotadas - ou decapitação.

Usando um transmissor de rádio portátil, um líder local do Talibã, Shah Doran, anuncia quase todas as noites novas atividades "antiislâmicas" proscritas em Swat, como vender DVDs, assistir à televisão a cabo, cantar e dançar, criticar o Talibã, se barbear e permitir que garotas freqüentem escolas. Ele também revela os nomes de pessoas recentemente mortas pelo grupo por violar seus decretos - e daqueles que planejam matar.

"Controlam tudo pelo rádio", disse um residente de Swat, que se recusou a dar seu nome por medo de ser morto pelo Talibã. "Todos esperam pela transmissão".

A atenção internacional permanece fixada no controle talibã de regiões tribais semi-autônomas do Paquistão, de onde lançam ataques às forças dos EUA no Afeganistão. Mas para o Paquistão, a perda do Vale de Swat também pode ser devastadora.

Diferente de regiões tribais periféricas, Swat, com o tamanho do Distrito Federal brasileiro, 1,3 milhão de habitantes e rica história cultural, faz parte do território paquistanês, ficando próxima a Peshawar, Rawalpindi e Islamabad, a capital.

Após mais de um ano de combate, praticamente toda área está sob controle do Talibã, marcando o mais pronunciado avanço dos militantes para o leste, na direção das chamadas áreas assentadas, segundo residentes e oficiais do governo da região.

Com a crescente consolidação de seu poder, o Talibã tomou parte considerável do país. E eles estão reforçando uma interpretação estrita do Islã com crueldade, levando decapitações, assassinatos, repressão social e cultural e perseguição às mulheres para uma região que já foi independente e relativamente secular, com estações de esqui e pomares, e conhecida por suas dançarinas.

Ano passado, 70 policiais foram decapitados, alvejados ou mortos de outras formas em Swat, e outros 150 ficaram feridos, segundo Malik Naveed Khan, inspetor geral da polícia para a província da Fronteira Noroeste.

A polícia está com tanto medo que muitos oficiais colocaram anúncios em jornais renunciando seus empregos para que o Talibã não os matasse.

Um dos que permaneceram na função foi Farooq Khan, oficial médio de Mingora, a maior cidade do vale, onde corpos decapitados de policiais e outras vítimas são rotineiramente encontrados. No mês passado, ele fazia compras quando dois homens em uma motocicleta atiraram e o mataram à plena luz do dia.

"Ele sempre disse, 'preciso ficar e defender nosso lar'", lembrou seu irmão, Wajid Ali Khan, natural de Swan e ministro provincial do Meio Ambiente, enquanto mostrava o celular com a foto de Farooq.

Na visão de alguns analistas, o pesadelo crescente em Swat é uma amostra dos problemas do país: falta de resposta e ineficiência do governo civil em paralelo com forças de segurança e militares que, na visão de residentes enfurecidos, permitiram voluntariamente que os militantes disseminassem o terror no interior do Paquistão.

A crise se tornou um teste crucial para o governo do presidente civil Asif Ali Zardari e para o aparato de segurança cuja lealdade, dizem muitos paquistaneses, permanece em discussão.

Procurando se desviar da culpa, o governo de Zardari recentemente criticou "as tímidas tentativas anteriores de livrar a área de extremistas" e prometeu combater militantes "que estão brutalmente assassinando e mutilando nossos cidadãos".

Mas com o aumento das pressões, ele disse recentemente que o governo estaria disposto a conversar com militantes que aceitem sua autoridade. Essas negociações trariam um sério risco: agentes de segurança afirmam que o breve acordo de paz em Swat na última primavera da região foi um fracasso espetacular, que permitiu que os militantes fortalecessem seu controle e se vingassem das pessoas que apoiaram os militares.

Sem uma ação forte e concertada do governo, alertam alguns, a ameaça do Talibã tenderá a se espalhar pelo Paquistão.

"O cerne do problema é que o governo parece estar dividido sobre o que fazer," disse Mahmood Shah, brigadeiro aposentado do Exército paquistanês que até 2006 era responsável pela segurança das áreas tribais do oeste. "Essa desconexão entre as lideranças políticas fortaleceu os militantes".

Cerca de 2 mil a 4 mil combatentes do Talibã estão se deslocando pelo Vale do Swat, segundo entrevistas com meia dúzia de altos oficiais do governo, forças armadas e políticos envolvidos com os combates. Em contraste, os militares paquistaneses têm quatro brigadas com 12 mil a 15 mil homens no vale, dizem oficiais.

Mas os soldados em grande parte ficam dentro de seus campos, sem disposição para patrulhar ou exercer qualquer presença significativa que possa provocar - ou desencorajar - os militantes, denunciam os residentes e líderes políticos de Swat. Os militares também não entraram em uma pequena vila que residentes afirmam ser amplamente conhecida como o quartel-general do Talibã em Swat.

As tropas também não destruíram os transmissores de rádio portáteis montados em motos ou caminhonetes que Shah Doran e o líder do Talibã em Swat, Maulana Fazlullah, habilmente usam para aterrorizar os residentes.

Ser mencionado em uma das transmissões de rádio noturnas geralmente deixa apenas duas opções: fugir de Swat ou aparecer sem cabeça, jogado em uma praça da vila.

Quando o Exército age, revela uma quase total falta de preparo para enfrentar a contra-insurgência. Sua tática costumeira é atacar com artilharia uma área ampla, e os resultados parecem ferir mais civis do que militantes, dizem os residentes.

Em algumas partes do Paquistão, milícias civis surgiram para combater o Talibã. Mas em Swat, o controle total do grupo em meio a uma larga presença do Exército convenceu muitos de que os militares talvez conspirem com o Talibã.

"É um mistério como conseguem tantas armas e apoio", enquanto distritos vizinhos estão comparativamente calmos, disse Muzaffar ul-Mulk Khan, membro do Parlamento de Swat, que disse que sua casa nos arredores de Mingora foi recentemente destruída pelo Talibã.

"Estamos perplexos com os militares. Eles patrulham apenas Mingora. No restante de Swat, não saem de suas bases. E os militantes podem matar à vontade em qualquer lugar de Mingora", disse.

"O governo não faz nada", acrescentou Khan.

Acusações de que os militares não querem combater em Swat são "muito injustas e injustificadas", disse o major general Athar Abbas, porta-voz militar, que disse que 180 soldados do Exército e oficiais foram mortos em Swat nos últimos 14 meses.

"Eles estão em contato e patrulham", disse.

Oficiais militares também dizem que tentam intensificar a atividade em Swat.

Abbas disse que os militares não têm os meios para bloquear as transmissões de rádio do Talibã em uma área tão extensa, e discorda da visão de que Mingora está nas mãos dos militantes.

"Só porque saem à noite e jogam quatro ou cinco corpos na praça não significa que os militantes controlem qualquer coisa", disse.

Poucos oficiais discordariam que um dos maiores erros militares do Paquistão em Swat foi o fracasso em proteger a liderança local de Pir Samiullah, cujos 500 seguidores enfrentaram o Talibã na vila de Mandal Dag, norte de Mingora.

Após o Talibã matá-lo em uma troca de tiros no mês passado, os militantes exigiram que seus seguidores revelassem o local de sua sepultura - e então começou a decapitar pessoas até conseguir a informação, disse um morador de Mandal Dag.

"Eles o desenterraram e penduraram seu corpo na praça", disse o morador, e então levaram o corpo para um local secreto. A profanação teve a intenção de mostrar o que aconteceria a qualquer um que desafiasse o domínio do Talibã, mas também foi uma forma dolorosa dos residentes de Swat descobrirem que não poderiam contar com o governo paquistanês para defender aqueles que se levantassem contra os militantes.

"Ele deveria ter recebido mais proteção", disse um oficial de segurança paquistanês, que falou sob condição de anonimato devido à delicadeza do assunto. "Ele deveria ter se tornado um símbolo da resistência".

Exibições pavorosas como a profanação dos restos mortais de Pir Samiullah fazem parte de uma tática efetiva do Talibã, que mostrou eficiência cruel em cumprir suas ameaças.

Recentemente, Shah Doran anunciou no rádio que o Talibã pretende matar um oficial de polícia que ele afirmou ter matado três pessoas.

"Enviamos pessoas e amanhã vocês terão boas notícias", disse na transmissão noturna, segundo um residente de Matta, um baluarte do Talibã em Swat.

No dia seguinte, o corpo decapitado do policial foi encontrado em uma vila próxima.

Mesmo em Mingora, uma cidade endurecida pela violência, os residentes se chocaram ao encontrar no início deste mês o corpo coberto de tiros de uma das mais famosas dançarinas da cidade estendido na praça principal.

Conhecida como Shabana, a mulher recebeu à noite um grupo de homens que alegavam querer contratá-la para uma festa. Eles atiraram nela até a morte e arrastaram seu corpo por mais de 400 metros até a praça central, deixando-o como um aviso para outras dançarinas ou qualquer um que despreze os decretos do Talibã.

O líder dos militantes em Swat, Maulana Fazlullah, ganhou notoriedade por fazer transmissões de rádio e dirigir uma escola islâmica, se tornando popular entre residentes isolados e os inspirando a vender suas jóias para financiar sua operação. Ele também conseguiu apoio através de seu casamento com a filha de Sufi Mohammed, poderoso líder religioso em Swat, até 2001, quando foi deserdado.

Muito embora Swat não faça fronteira com o Afeganistão ou qualquer região tribal federal sem-lei do Paquistão, Maulana Fazlullah acabou se aliando a militantes talibãs que dominam as áreas próximas à fronteira afegã. Seus combatentes agora circulam pelo vale com rifles de precisão, Kalashnikovs, morteiros, lançadores de granada e, segundo alguns oficiais, óculos de visão noturna e roupas à prova de balas.

Sua última tática é proibir meninas de freqüentar escolas em Swat, que será testada em fevereiro, quando as escolas privadas deverão voltar a funcionar após o recesso de inverno.

O Talibã já destruiu 169 escolas femininas em Swat, dizem oficiais governamentais, e sua expectativa é que a maioria das escolas privadas permaneça fechada sob o risco de retaliação.

"A população local não agüenta mais, se tivessem a oportunidade linchariam cada talibã", disse Naveed Khan, o policial. "Mas o Talibã é tão cruel e violento que ninguém vai se opor a eles. Se isso não for interrompido, vai se espalhar para outras áreas do Paquistão".

The New York Times
The New York Times