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Revolução sandinista, um sonho frustrado

19 de julho de 2004 10h57

A revolução sandinista do dia 19 de julho de 1979 acabou com 45 anos de ditadura na Nicarágua, mas o dogmatismo leninista de seus líderes e a guerra contra o movimento travada pelos Estados Unidos tornaram o sonho de igualdade efêmero.

Milhares de jovens guerrilheiros chegaram a Manágua em 19 de julho, apoiados por centenas de milhares de nicaragüenses que sonhavam com democracia, igualdade e justiça social, depois de anos de ditadura da família Somoza. A revolução sandinista, que recebeu um forte apoio no mundo inteiro, prometia ajudar os mais pobres, dando-lhes terra, trabalho, educação, moradia e saúde.

Neste contexto, se inscreviam a reforma agrária e urbana da propriedade, a cruzada pela alfabetização, e a diminuição da mortalidade infantil. Estas mudanças se baseavam principalmente no controle do Estado sobre as formas de produção.

No entanto, a poucos meses do triunfo, apoiado inclusive pelo ex-presidente americano Jimmy Carter, os nove comandantes da Direção Nacional da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) definiram um projeto estatal e socialista. Uma aliança com os empresários foi quebrada, a revolução entrou em conflito com a influente Igreja Católica, expropriou os camponeses e coletivizou as terras, e teve de enfrentar os Estados Unidos. Assim, começou a se desenhar a contra-revolução.

"Foi um processo intenso e contraditório, por tocar nas fibras mais sensíveis da sociedade", afirmou o ex-vice-presidente sandinista e escritor Sergio Ramirez. "O pior que fez a revolução foi ameaçar tomar a propriedade não somente dos grandes proprietários e fazendeiros, como também a de qualquer pessoa que possuísse algo. Foi este fato que dividiu o país ao ponto de atiçar a guerra civil", explicou Ramirez. "O que aconteceu foi uma guerra de camponeses, desatada pelo fator propriedade", sustentou o escritor.

A contra-revolução armada começou a surgir em 1981, alimentada por centenas de camponeses. O governo respondeu formando um enorme exército com maiores de 16 anos. A administração do então presidente americano Ronald Reagan não tolerou o alinhamento dos sandinistas nas posições de Cuba, e incentivou, financiou e armou a contra-revolução para derrotar o governo liderado por Daniel Ortega.

A economia começou a entrar em colapso, e a guerra civil a dizimar a juventude do país. Todos estes fatores levaram à derrota eleitoral da revolução, em 1990.

O escritor, agora retirado da vida política, considera que não se pode julgar a revolução com base em seus resultados materiais, já que a filosofia de livre mercado e privatização proclamada em seguida também não resolveu os problemas da Nicarágua. Vinte e cinco anos depois, 70% da população de 5,2 milhões de habitantes vivem na pobreza e sofrem com a fome, desemprego e desesperança que os leva a emigrar a outros países para tentar melhorar sua situação.

A revolução foi uma etapa de "luzes e sombras, acertos e erros". "É difícil afirmar se as coisas poderiam ter sido diferentes, porque estávamos então marcados pela arrogância do poder e pela inexperiência", declarou como autocrítica o comandante Tomás Borge.

O líder de 74 anos, único sobrevivente dos fundadores da FSLN e considerado um dos mais radicais dentro do Partido, rejeitou as críticas segundo as quais o comando revolucionário acabou com as esperanças despertadas pela revolução sandinista. "Fomos derrotados por um poder imenso, o dos Estados Unidos, e por nossos próprios erros", que limitaram as possibilidades de promover maiores transformações no campo econômico e social. Para Borge, a obra revolucionária "está inacabada". "Aquela revolução plantou uma semente, que ainda não deu seus frutos", sustentou.

AFP
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  1. Crianças nicaragüenses têm aula de catecismo em frente ao painel que mostra o General Augusto Sandino e Carlos Fonseca, fundadores do FSLN, na igreja de Santa Maria de los Angeles, em Manágua. Pinturas como esta foram feitas um ano depois da vitória da Revolução Sandinista sobre a ditadora de Somoza.  Foto: AP

    Crianças nicaragüenses têm aula de catecismo em frente ao painel que mostra o General Augusto Sandino e Carlos Fonseca, fundadores do FSLN, na igreja de Santa Maria de los Angeles, em Manágua. Pinturas como esta foram feitas um ano depois da vitória da Revolução Sandinista sobre a ditadora de Somoza.

    Foto: AP

  2. Menino olha o retrato de Sandino em Manágua. A FSLN, ou Frente Sandinista de Libertação Nacional, comemora no dia 19 de julho o 25º aniversário da revolução sandinista.  Foto: AP

    Menino olha o retrato de Sandino em Manágua. A FSLN, ou Frente Sandinista de Libertação Nacional, comemora no dia 19 de julho o 25º aniversário da revolução sandinista.

    Foto: AP

  3. Gloria Martinez, 80, que perdeu três filhos durante a revolução Sandinista, mostra  as fotos das vítimas do conflito em sua casa em Manágua.   Foto: AP

    Gloria Martinez, 80, que perdeu três filhos durante a revolução Sandinista, mostra as fotos das vítimas do conflito em sua casa em Manágua.

    Foto: AP

  4. Tomas Borge, fundador da FSLN e ministro do Interior durante os anos 80, nada na piscina de um hotel da capital  Foto: AP

    Tomas Borge, fundador da FSLN e ministro do Interior durante os anos 80, nada na piscina de um hotel da capital

    Foto: AP

  5. Homem caminha por trás de uma imagem feita pela fotógrafa Susan Maiselas durante a revolução em Masaya  Foto: AP

    Homem caminha por trás de uma imagem feita pela fotógrafa Susan Maiselas durante a revolução em Masaya

    Foto: AP

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