Franceses discordam das considerações de Yarrow

18 de janeiro de 2009 • 15h42 • atualizado às 15h42

Lúcia Jardim

Direto de Paris


Na França , ser contra tudo é tão tradicional que existe até um movimento dos "contra o Ano-Novo" - pessoas que manifestam, a sério, contra a virada do ano no calendário. O "normal", portanto, é ser contra os governantes, por isso não foi com espanto que os especialistas consultados pelo Terra para comentarem as afirmações do professor e historiador americano Andrew L. Yarrow não concordaram com quase nada do que ele dissera em artigo do The Baltimore Sun.

Yarrow estabeleceu pontos em comum entre o futuro presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e os presidentes francês, Nicolas Sarkozy, e brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, prevendo que os próximos anos serão moldados pela ação dos três. Além disso, escreveu que representam a ascendência, no mundo ocidental, do idealismo, do ativismo e da cooperação supra-partidária.

"Sarkozy, idealista? Não, jamais. Lula e Obama o são, sem dúvidas. Mas Sarkozy não é movido por um ideal político, pelo contrário: é um homem que planeja cada passo em função dos próprios planos de ascensão", opinou Etinne Schweisguth, diretor de pesquisas no Centro de Pesquisas Políticas do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po). "A prova é que, no início da carreira, era um homem autenticamente liberal, identificado com os valores da direita, onde se forjou. Depois da eleição, ele foi perdendo cada vez mais o pouco do idealismo que tinha."

Para o especialista em ideologias, valores e atitudes políticas, o presidente francês se aproxima ao máximo das considerações de Yarrow quando este o coloca como alguém comprometido em promover justiça social ao mesmo tempo em que cobra responsabilidades dos indivíduos. "A França precisava de reformas em diversas áreas e ele está provendo todas, custe o que custar."

Mas o fato de promover as tais reformas em praticamente todas as pastas do governo, no entanto, não se deve ao fato de Sarkozy agir sobre os partidos, como diz o professor americano, mas sim por ter começado a governar tendo um pecado original: o apoio da Frente Nacional" (o mais extremista dos partidos de direita na França). "A campanha dele foi marcada pela discurso da retomada dos valores conservadores, da segurança, do controle da imigração. Uma vez no poder, essa abertura que ele possibilitou à esquerda em seu governo, ou a centralização do seu governo, foi uma forma de ele se lavar as mãos por este pecado original. Nada mais é do que uma estratégia política", explicou Schweisguth.

Em relação ao presidente Lula, o autor de A despolitização em questão considera que o brasileiro e o francês se aproximam apenas no fato de que, depois de ascenderem ao poder, transformaram-se em verdadeiros pragmáticos nas ações que desenvolvem, independente das ideologias que possuíam antes de se tornarem presidentes. Foi igualmente a essa conclusão que chegou também o pesquisador Phillippe Moreau Defarges, do Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri), ao ser questionado sobre que pontos uniam Sarkozy, Lula e Obama. E assim como Schweisguth, Moreau Defarges não quis comentar o americano enquanto governante porque o democrata sequer foi empossado na presidência. "Não é o idealismo que os une, mas sim o pragmatismo. Dos três, acho que Lula é o único idealista, mas ele é também muito realista. E, acima de tudo, os três são patriotas e cada um está preocupado com o avanço do próprio país", disse Defarges.

Sobre a afirmação de Yarrow de que os líderes "representam a cooperação supra-partidária", o especialista em governança global e globalização avalia que, hoje, a sociedade ocidental está politicamente acalmada, e logo lhe parece ingênuo dizer que os três políticos estão acima dos partidos. "Sim, eles conseguem conciliar muito mais que a maioria dos antecessores. Mas ao mesmo tempo não podemos ignorar o fato de que vivemos em uma sociedade calma politicamente. O único trabalho que eles têm neste sentido é o de conter os extremismos."

Da mesma forma que o colega da Sciences Po, Defarges também acha que Sarkozy de fato busca o ajuste social através das reformas que vem promovendo na França. Mas ressaltou que, mesmo assim, é difícil estabelecer um comparativo entre ele e os demais presidentes citados pelo historiador americano, porque todos vivem em contextos extremamente distintos. "Sarkozy precisa salvar um Estado de Bem-Estar Social já estabelecido. Lula, precisar criar um. E Obama não tem nem que salvar nem criar, porque o sistema americano é diferente", justifica o especialista.

Confrontado à avaliação de Yarrow de que os três o representam "o estabelecimento de uma nova Era, calcada na imagem dos presidentes de Brasil, França e EUA", o pesquisador francês comentou : "Sobretudo, me pergunto por que outros líderes como Angela Merkel, Gordon Brown e tantos outros também não foram incluídos nesta comparação. Eles reúnem as mesmas prerrogativas que qualquer um dos três. É uma tendência mundial, e não apenas deles."

Redação Terra
 
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