Solly Boussidan
Direto do Cairo
Egito
Agências de notícia e jornais egípcios e israelenses afirmaram na última semana que o Hamas estaria impedindo a entrada de ajuda humanitária na Faixa de Gaza. O conflito, que entrou em seu 16º dia neste domingo, acenou pela primeira vez com a possibilidade de um cessar-fogo, depois que o premiê israelense, Ehud Olmert, disse que o país está próximo de alcançar seus objetivos.
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Palestinos envolvidos no esforço humanitário em Gaza relataram dificuldade na entrada de ajuda por meio da fronteira com o Egito. A coordenadora em Rafah do Movimento de Solidariedade Internacional para Gaza (ISM, na sigla inglesa), Fida Qishta, negou que o Hamas estivesse impedindo a entrada de ajuda humanitária, embora tenha admitido que o grupo não aceita o uso de uma das fronteiras. "(O Hamas) não tem permitido e tem bloqueado o envio de ajuda do Egito que chega pela passagem de Kerem Abu Salem, como querem os israelenses".
A passagem de Kerem Abu Salem - ou Kerem Shalom, para os israelenses - fica na fronteira entre o Egito, Israel e Gaza, sendo controlada exclusivamente por egípcios e israelenses. Israel vem há bastante tempo fazendo pressão para que esta passagem seja utilizada ao invés da passagem de Rafah entre Gaza e o Egito, que está sob controle nominal palestino-egípcio.
"Por meio da passagem de Rafah os israelenses já vêem tudo. Eles têm câmeras espalhadas pelo terminal e monitores internacionais verificando o que está passando pela fronteira. Por que o Egito concorda em fazer a ajuda passar por outra inspeção israelense?", questiona Qishta.
Para o ativista humanitário palestino Ismail, da cidade de Gaza, que não quis informar seu sobrenome, "o Egito está fazendo um jogo político sujo em um momento em que as pessoas de Gaza estão desesperadas por ajuda". Segundo ele, "por causa da ligação do governo egípcio com o presidente Abbas, o Egito está fazendo uma encenação - eles querem mostrar que estão auxiliando a população palestina ao mesmo tempo em que punem o Hamas". Ismail diz que os problemas na fronteira ocorrem principalmente por causa do controle egípcio em Rafah. "Há dezenas de médicos egípcios e estrangeiros esperando para entrar por Rafah e é o Egito que não deixa eles passarem", prossegue.
De acordo com Ismail, "nós palestinos sabemos as diferenças entre o povo do Egito, que são nossos irmãos, e o Egito 'oficial'. O governo egípcio se preocupa com a ligação do Hamas e da Irmandade Muçulmana e teme uma ampliação das atividades oposicionistas em seu território".
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Egito, embaixador Hassam Zaki, disse não estar ciente de problemas específicos relacionados à ajuda humanitária egípcia sendo barrada na fronteira, mas disse que "a área está sendo bombardeada e é uma zona militar. A ajuda está sendo enviada não só por Rafah, mas por diversos pontos de passagem. Do lado egípcio nós estamos fazendo todo o possível para que a ajuda chegue aos palestinos, mas não podemos responder pelo que acontece do lado de lá, ou quais as considerações que são feitas do lado palestino quanto a abertura ou fechamento do seu lado da fronteira".
Uma fonte ligada a um governo europeu no Egito disse que "o Hamas pode tentar capitalizar politicamente com uma tragédia humanitária em Gaza".
O embate teve início no último dia 19 de dezembro, quando o Hamas (grupo fundamentalista que controla a Faixa de Gaza) anunciou o término da trégua com Israel e disparou dezenas de foguetes caseiros contra cidades próximas ao território.
O Egito, que havia agido como mediador da trégua e que vinha fazendo um grande esforço diplomático para renová-la, inicialmente culpou o Hamas pela nova escalada nos confrontos. Além disso, o Egito recusa-se a abrir completamente sua fronteira com Gaza, na cidade de Rafah. A recusa egípcia decorre de fatores práticos e políticos - por um lado há o temor de um fluxo descontrolado de palestinos; por outro, o Egito teme aumentar a popularidade do Hamas, apoiado principalmente pelo Irã xiita e ligado ideologicamente à Irmandade Muçulmana (grupo islamista egípcio de oposição), em detrimento ao Fatah, partido do moderado presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas.
A posição egípcia foi criticada em todo o mundo árabe como conivente com os ataques israelenses. Para acalmar os clamores da população local, Cairo elevou o tom de suas críticas à operação israelense e passou a divulgar imagens de ajuda humanitária egípcia sendo enviada à Gaza. O Egito também recebeu aviões carregados de suprimentos do mundo todo e possui caminhões e médicos aguardando próximos à fronteira.
Redação Terra